Horand Knaup
Alemanha
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Existe uma rivalidade tensa e potente entre os grupos étnicos nande e hutu, de um lado, e tutsi, do outro. No antigo reino de Ruanda, que se estendia por boa parte do leste do atual Congo, os tutsid e os hutus não eram tribos diferentes ¿ as palavras se referiam, na realidade, a diferentes classes sociais.
Mesmo que Nkunda tenha imposto certa dose de ordem ao seu reino, ele continua impopular junto à maioria dos congoleses. Ele é tutsi, e os tutsis são tolerados sem que jamais sejam objeto de afeto. Suas casas e seus rebanhos costumam ser maiores. Milhares de pessoas perderam tudo que tinham nas últimas semanas e fugiram para a floresta, mas alguns tutsi conseguiram conservar seguros os seus consideráveis rebanhos, mesmo em meio a combates armados.
A rejeição aos tutsis é alimentada por uma história de conflito, inveja e, para muitos, experiências pessoais dolorosas. Quando Laurent Kabila, o pai do atual presidente, na época aliado aos tutsis, cruzou o leste do Congo a caminho da capital Kinshasa, em 1996, para derrubar o impopular ditador Mobutu Sese Seko, ele tratou os hutus com grande brutalidade.
Até hoje, nem os nandes nem os hutus se sentam ao lado de tutsis nos ônibus de Goma, e quando uma onda de violência varreu a cidade no final de outubro, foram principalmente as lojas tutsis que terminaram saqueadas.
"Muita gente acredita que os tutsis simplesmente vieram de Ruanda", diz o professor Hussein Kalumbi. "Os nandes acreditam que eles surgiram aqui". A mãe de Kalumbi, que vive perto de Rutshuru, é tutsi e nasceu no Congo. Mas ela fala o idioma kinyarwanda, de Ruanda, e seus ancestrais eram governados pelo rei de Ruanda, cujos territórios se estendiam por boa parte do atual Congo.
Muitos hutus e nandes acusam o presidente de Ruanda, Paul Kagame, também tutsi, de querer reviver esse momento histórico. Eles acreditam que Kagame esteja planejando estabelecer um novo império que abarcaria as regiões de fala ruandesa - ou seja, Ruanda e partes de Uganda e do Congo. Sob esse arranjo, o general Nkunda teria o papel de governador do Congo.
A verdade provavelmente é menos complicada. O general só foi capaz de ganhar a força de que hoje dispõe devido às condições instáveis, e fatura milhões de dólares a cada ano com a exportações de matérias-primas vindas do Congo. Tampouco é segredo que número considerável dos combatentes de Nkunda foram soldados do exército de Ruanda.
De fato, um relatório preliminar da ONU sobre a qual a BBC informou na semana passada diz que o governo de Ruanda ajudou os rebeldes de Nkunda no leste do Congo diretamente, fornecendo crianças para uso como soldados e até mesmo fogo de morteiros instalados em território ruandês.
O relatório também alega que os alguns elementos do exército congolês colaboraram com as milícias de Nkunda a fim de explorar os recursos minerais do país. O ministro da Informação do governo, Lambert Mende Omalanga, negou essas acusações de apoio congolês.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Der Spiegel