Congo: questões étnica e econômica motivam guerra

20 de dezembro de 2008 • 22h11 • atualizado às 22h11

Horand Knaup

Alemanha


Existem muitos motivos para que a região leste do Congo esteja em guerra há 13 anos. Eles incluem recursos naturais, que atraem ladrões e empresários inescrupulosos; a fraqueza do governo central, que é incapaz de manter a ordem; ministros que tiram vantagem das circunstâncias anárquicas para forrar os bolsos desavergonhadamente; e um confronto entre diferentes grupos lingüísticos e étnicos.

» Veja fotos da situação no Congo
» Líder rebelde põe ordem e banca governo
» Caos e corrupção marcam governo Kabila
» Crise tem ar de massacre, apesar da ONU
» Opine: o Congo tende a se tornar Ruanda?

Existe uma rivalidade tensa e potente entre os grupos étnicos nande e hutu, de um lado, e tutsi, do outro. No antigo reino de Ruanda, que se estendia por boa parte do leste do atual Congo, os tutsid e os hutus não eram tribos diferentes ¿ as palavras se referiam, na realidade, a diferentes classes sociais.

Mesmo que Nkunda tenha imposto certa dose de ordem ao seu reino, ele continua impopular junto à maioria dos congoleses. Ele é tutsi, e os tutsis são tolerados sem que jamais sejam objeto de afeto. Suas casas e seus rebanhos costumam ser maiores. Milhares de pessoas perderam tudo que tinham nas últimas semanas e fugiram para a floresta, mas alguns tutsi conseguiram conservar seguros os seus consideráveis rebanhos, mesmo em meio a combates armados.

A rejeição aos tutsis é alimentada por uma história de conflito, inveja e, para muitos, experiências pessoais dolorosas. Quando Laurent Kabila, o pai do atual presidente, na época aliado aos tutsis, cruzou o leste do Congo a caminho da capital Kinshasa, em 1996, para derrubar o impopular ditador Mobutu Sese Seko, ele tratou os hutus com grande brutalidade.

Até hoje, nem os nandes nem os hutus se sentam ao lado de tutsis nos ônibus de Goma, e quando uma onda de violência varreu a cidade no final de outubro, foram principalmente as lojas tutsis que terminaram saqueadas.

"Muita gente acredita que os tutsis simplesmente vieram de Ruanda", diz o professor Hussein Kalumbi. "Os nandes acreditam que eles surgiram aqui". A mãe de Kalumbi, que vive perto de Rutshuru, é tutsi e nasceu no Congo. Mas ela fala o idioma kinyarwanda, de Ruanda, e seus ancestrais eram governados pelo rei de Ruanda, cujos territórios se estendiam por boa parte do atual Congo.

Muitos hutus e nandes acusam o presidente de Ruanda, Paul Kagame, também tutsi, de querer reviver esse momento histórico. Eles acreditam que Kagame esteja planejando estabelecer um novo império que abarcaria as regiões de fala ruandesa - ou seja, Ruanda e partes de Uganda e do Congo. Sob esse arranjo, o general Nkunda teria o papel de governador do Congo.

A verdade provavelmente é menos complicada. O general só foi capaz de ganhar a força de que hoje dispõe devido às condições instáveis, e fatura milhões de dólares a cada ano com a exportações de matérias-primas vindas do Congo. Tampouco é segredo que número considerável dos combatentes de Nkunda foram soldados do exército de Ruanda.

De fato, um relatório preliminar da ONU sobre a qual a BBC informou na semana passada diz que o governo de Ruanda ajudou os rebeldes de Nkunda no leste do Congo diretamente, fornecendo crianças para uso como soldados e até mesmo fogo de morteiros instalados em território ruandês.

O relatório também alega que os alguns elementos do exército congolês colaboraram com as milícias de Nkunda a fim de explorar os recursos minerais do país. O ministro da Informação do governo, Lambert Mende Omalanga, negou essas acusações de apoio congolês.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Der Spiegel
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »