Congo: líder rebelde impõe ordem e banca estadista

20 de dezembro de 2008 • 20h07 • atualizado às 20h07
O líder rebelde Laurent Nkunda, temido por parte da população, general já age como estadista no Congo
O líder rebelde Laurent Nkunda, temido por parte da população, general já age como estadista no Congo
19 de dezembro de 2008
Getty Images

Horand Knaup

Alemanha


O líder rebelde Laurent Nkunda conquistou o controle de vastas áreas do leste do Congo. Muitos congoleses o temem, e um relatório da ONU afirma que suas operações vêm recebendo apoio do governo de Ruanda. Mas as regiões que estão sob seu controle mostram sinais de ordem, e agora ele planeja desempenhar um papel na vida política nacional.

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O general está atrasado. Uma hora passa, e depois mais uma. Pessoas importantes não respeitam os horários alheios. O sol brilha sobre o estádio de Rutshuru, onde as porções cobertas das arquibancadas ficam reservadas aos funcionários e aos oficiais de alta patente do movimento. Mas o povo do leste do Congo aprendeu a exercitar a paciência há muito tempo, e sabe muito bem, igualmente, que muitos precisam sofrer pra que um punhado de pessoas se saia muito bem.

O general Laurent Nkunda, 41 anos, é alto e esbelto. Usa óculos discretos, tem seis filhos, estudou psicologia por diversos anos e seu domínio das competências militares foi adquirido em Ruanda. Ouve com atenção, e tem o dom de convencer as pessoas ao falar.

No entanto, organizações de defesa dos direitos humanos e as forças de paz das Nações Unidas estacionadas no Congo o acusam de sérios crimes de guerra. A BBC reportou na semana anterior que os rebeldes que ele lidera vêm recebendo assistência do governo de Ruanda ¿ o que sugere que a guerra civil na região é de fato parte de um conflito africano mais amplo- e o governo central em Kinshasa gostaria muito de vê-lo julgado pelo Tribunal Criminal Internacional em Haia. Para que isso aconteça, seria preciso apanhá-lo, o que não é fácil. Nkunda é um homem poderoso. Existem diversas formas de garantir influência em um país grande e desordeiro como o Congo. Um líder ambicioso pode procurar aliados no exterior, ou criar um exército pessoal. Pode tentar capturar recursos naturais, e pode agir para derrubar o presidente. Nkunda vem utilizando todos os quatro métodos.

O general sai de sua limusine. As janelas são escuras. O uniforme escolhido para a ocasião é cinza escuro, e ele usa um quepe da mesma cor. Nkunda deseja que o mundo o veja como um homem que está se preparando para a batalha. Guarda-costas altos abrem caminho para sua primeira aparição no grande palanque.

Equipes de câmera e fotógrafos estrangeiros estão presentes, bem como cerca de três mil moradores de Rutshuru. Há um motivo simples para o interesse cada vez maior que o líder rebelde vem atraindo: muitos dos líderes de milícias do leste do Congo têm grandes ambições, mas nenhum se equipara a Nkunda em termos de intelecto, capacidade de liderança ou competência militar.

Seu exército, que conta com cerca de oito mil combatentes, é considerado como o mais disciplinado entre todas as facções guerreiras que agem na região. Além de combater os rebeldes do movimento Maji-Maji e as milícias da etnia hutu, as forças de Nkunda estão enfrentando os 20 mil soldados que o governo central tem como guarnição na região - e se provando imensamente superiores a eles. E agora Nkunda decidiu desafiar o presidente Joseph Kabila, 37 anos, também no terreno político. "Um país tão grande, um país tão grande", o general pronuncia no estádio, "e não temos estradas, hospitais ou escolas - como algo assim pode acontecer?" Ele faz as mesmas perguntas que todo mundo costuma fazer, as perguntas que tornam a situação do Congo ainda mais trágica do que o sofrimento na Somália - porque não existem respostas.

O Congo conta com alguns dos mais ricos depósitos minerais do planeta. Há tanta água em seus rios que o país poderia abastecer meio continente de energia hidrelétrica. A metade leste da nação, em especial, tem a capacidade de produzir três safras de alimentos por ano. "O país não tem liderança", diz o general, com voz clara apesar do zumbido dos alto-falantes. "Quero fazer com que o Congo volte a ser forte".

No final de outubro, as forças de Nkunda chegaram ao aeroporto da cidade de Goma; as tropas do exército nacional - que tinham efetivo muito superior ao dos rebeldes - fugiram sem combater. As forças de paz da Missão da ONU na República Democrática do Congo (Monuc) já estavam preparadas para entregar a cidade aos atacantes. Mas Nkunda ordenou que seus homens detivessem os ataques e permitiu a passagem de caminhões que transportavam suprimentos de assistência. Ele ordenou um recuo de suas unidades.

Será que Nkunda é um líder humanitário? Dificilmente. Acredita-se que em 2002 suas tropas tenham cometido um massacre contra civis em, Kisangani, no nordeste do país. Em 2004, seus soldados abriram caminho pela região de Bukavu, na costa sul do lago Kigali, com a presença usual de saques e estupros. Crianças são seqüestradas e forçadas a se integrar ao exército, nas regiões que ele tem sob controle.

Os rumores sobre o comportamento de suas tropas se espalharam. Quando elas estavam avançando contra Rutshuru, uma cidade próxima da fronteira com Uganda, algumas semanas atrás, muitos moradores fugiram para o campo de refugiados de Kibati, nas cercanias de Goma. "Estávamos com medo de Nkunda", eles dizem. "Seus soldados estupram as mulheres e matam muita gente. Eles cortam cabeças, e forçam os homens a servir o exército".

Jean-Paul, um porta-voz da Monuc, tem opiniões igualmente drástica sobre Nkunda e seus comandados. "O exército dele não é conhecido por atos de caridade. Houve imensas violações dos direitos humanos na área que ele controla."

Mesmo assim, muitos congoleses reconhecem que no reino de Nkunda, existe muito mais ordem do que nas demais regiões. O sistema escolar, a polícia, os tribunais e os serviços públicos funcionam razoavelmente bem na área que está sob seu controle, e os lavradores puderam voltar aos campos. Agora o general deseja ser mais que apenas um líder rebelde, e começou a interpretar o papel de estadista.

No estádio de Rutshuru, Nkunda prossegue em seu discurso, que ele pronuncia sem recorrer a anotações. Apela ao orgulho, ao patriotismo e à esperança de seus compatriotas congoleses. "Outros países estão se desenvolvendo. Nós não, mesmo que sejamos ricos. Dói saber que estamos ficando para trás da Somália." Evidentemente, ele acrescenta, tudo vai melhorar quando ele contar com o apoio do povo. "Rutshuru se tornará um modelo para todo o leste da África", ele diz ao público. Funcionários que desertaram do exército congolês explicam por que o fizeram. Um ladrão apanhado em flagrante é levado ao palanque - é um menino de seus 12 anos, que parece muito assustado. Ele aparentemente era membro da milícia Maji-Maji e foi capturado. Agora, Nkunda afirma que o levará de volta a seus pais. A estranha coleção de personagens de que o presidente se cerca parece reforçar a promessa de Nkunda quanto a um futuro melhor.

Sua apresentação é populista e bem organizada. Ele dança com as moças locais, administra o juramento de serviço a policiais que acabam de ser recrutados e apresenta ao público o novo representante da cidade. "Vocês querem ser governados por forasteiros ou por pessoas que vocês conhecem?", pergunta o general. No estádio, as pessoas murmuram obedientemente, o que Nkunda escolhe interpretar como sinal de aprovação.

Um presidente sem poder, soldados que precisam ser alimentados pela ONU e que se provam incapazes, em geral, de deter nem mesmo uma das facções em combate ¿são essas as circunstâncias que permitiram a Nkunda e seus comandados dominar as regiões rurais e expandir sua influência.

A paz no Congo já não é mais possível sem que ele participe do processo. O presidente Kabila parece ter compreendido o fato, e na segunda-feira uma delegação dos rebeldes liderados por Nkunda se reunirá com enviados de Kinshasa para negociar.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Der Spiegel
 
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