Congo: crise toma ares de massacre, apesar da ONU

13 de dezembro de 2008 • 19h18 • atualizado às 19h33
Soldado das forças armadas prepara refeição Foto: Reuters
Soldado das forças armadas prepara refeição
12 de dezembro de 2008
Foto: Reuters

Lydia Polgreen

República do Congo


Pelo menos os tiros pararam, e François Kambere Siviri saiu correndo em direção da porta. Depois de passar a noite escondido dos combates entre forças rebeldes e uma milícia aliada ao governo pelo controle de Kiwanja, uma cidade pequena mas estrategicamente importante, ele estava desesperado para chegar à latrina, a alguns metros de distância.

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"Bom, bum, bum", declarou sua mãe, a viúva Ludia Kavira Nzuva, relembrando a maneira pela qual os rebeldes mataram seu filho de 25 anos de idade bem diante de sua porta. Quando abandonaram o corpo ensangüentado, ela disse, um dos rebeldes se virou para ela e exclamou: "Voilá, eis seu presente".

Em pouco mais de 24 horas, pelo menos 150 pessoas seriam mortas, a maior parte dos quais homens jovens, sumariamente executados pelos rebeldes no mês passado, que reforçaram seu domínio sobre algumas porções do leste do Congo, de acordo com testemunhas e investigadores dos direitos humanos.

E no entanto, enquanto a matança acontecia, um contingente de cerca de 100 soldados das forças de paz da ONU estava a menos de dois quilômetros de distância, e não conseguia compreender o que estava acontecendo do lado de fora de sua base.

As forças de paz estavam carentes de soldados e equipamento, disseram representantes da ONU, e seus esforços estavam concentrados na evacuação de trabalhadores assustados das organizações de assistência e na busca por um jornalista estrangeiro seqüestrado. Já sobrecarregados, disseram os funcionários, eles não dispunham de capacidades de inteligência militar e nem mesmo de um intérprete capaz de falar os idiomas locais.

Integrantes das forças de paz disseram que não tinham idéia de que as mortes estivessem acontecendo até que as execuções acabassem.

As execuções em Kiwanja servem como exemplo de crueldade descontrolada, praticada por grupos armados que lutam pelo poder e pelos recursos do leste do Congo. Mas também são demonstração clássica quanto à continuada incapacidade da maior força de paz do mundo para cumprir sua missão de proteger o povo congolês contra a brutalidade.

Nesse caso, o fracasso veio de uma mistura de más comunicações e de problemas de pessoal, equipamento inadequado, sistemas de inteligência ineficientes e uma má sorte espetacular, disse o tenente-coronel H. S. Brar, comandante das forças indianas baseadas em Kiwanja.

Mas os homicídios e a resposta ineficaz ao avanço rebelde são sintomáticos dos problemas que vêm prejudicando as forças de paz no Congo há anos, disse Anneke Van Woudenberg, pesquisadora sênior da Human Rights Watch, que investigou a matança deste mês. A ofensiva dos rebeldes foi liderada por um comandante procurado pelo Tribunal Criminal Internacional por crimes de guerra.

"Kiwanja foi um desastre para todos", disse Van Woudenberg. "As pessoas foram atraiçoadas - não só pelos rebeldes que cometeram crimes de guerra terríveis contra eles, mas também pela comunidade internacional que não os protegeu quando deveria".

Nos últimos 12 meses, centenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas enquanto os rebeldes, liderados por um general renegado do exército, vêm travando uma feroz guerra de insurgência contra o governo e as milícias a ele aliadas.

Em entrevista, o general rebelde Laurent Nkunda negou que suas tropas tivessem executado civis na cidade, e acusou as milícias aliadas ao governo de tentar macular a imagem de seu movimento rebelde.

"Não podemos matar a população", disse. "Não é nosso comportamento, estuprar e matar".

Mas em extensas entrevistas com vítimas, trabalhadores assistenciais e investigadores de direitos humanos demonstraram que os homens de Nkunda executaram uma operação militar de casa em casa que durou dois dias e resultou na execução de homens jovens e outras vítimas.

Os problemas começaram em 28 de outubro, quando as tropas do exército congolês fugiram da cidade, temendo o avanço das forças de Nkunda.

Os soldados, que já haviam sido derrotados de forma decisiva pelos comandados de Nkunda mais ao sul, saquearam cidades e estupraram mulheres nas localidades pelas quais passaram em sua fuga, levando com eles todas as posses valiosas dos moradores e forçando alguns destes a acompanhá-los para ajudar a carregar o saque, de acordo com testemunhas e investigadores. Os moradores, apavorados, tinham de escolher entre duas opções desagradáveis: acompanhar o exército descontrolado ou esperar para ver o que os rebeldes trariam.

Muito tempo depois da partida dos soldados, as forças de Nkunda ocuparam as cidades de Kiwanja e Rutshuru, sem disparar um tiro. Imediatamente ordenaram que os residentes incendiassem os vastos campos de refugiados que abrigavam cerca de 30 mil pessoas que estavam lá para fugir de combates anteriores, e proclamaram que os refugiados poderiam voltar em segurança às suas aldeias, de acordo com testemunhas.

"Eles disseram que a situação era segura, e que todo mundo devia voltar para casa", disse François Hazumutima, professor aposentado que estava vivendo em um dos campos próximos à cidade. "Mas nenhum de nós sentia que estava seguro".

Uma semana depois, em 4 de novembro, um grupo de soldados da milícia Mai Mai executou um ataque de surpresa contra Kiwanja. Os rebeldes não demoraram a derrotar os Mai Mai, no entanto, e ordenaram que todos os moradores abandonassem a cidade.

Os soldados em seguida começaram a revistar todas as casas da cidade, alegando que estavam à procura de membros da milícia que teriam ficado na cidade para combater. Mas muitos dos moradores que ficaram temiam que suas casas fossem saqueadas, ou eram simplesmente velhos e enfermos demais para fugir, de acordo com testemunhas. Outros simplesmente não receberam a mensagem de que deveriam deixar a cidade.

Os rebeldes foram à casa de um comerciante de 25 anos, bateram à porta violentamente e ameaçaram abrir caminho a tiros se ele não abrisse.

"Havia tiroteios em toda parte", ele disse, falando sob a condição de que seu nome não fosse revelado, por medo de represálias. "Eles pediram dinheiro e eu lhes dei US$ 200".

Enquanto isso acontecia na cidade, na base das forças de paz ali perto reinava a confusão. A companhia de soldados está baseada em um local decididamente não estratégico, posicionada em um vale muito vulnerável a disparos e que oferece um ponto de observação muito ineficaz para vigiar a área vizinha.

O único tradutor da companhia deixou a base em 26 de outubro e só foi substituído mais de duas semanas mais tarde. Mas mesmo em momentos normais, as comunicações locais são limitadas.

Para fazer arranjos logísticos, as forças de paz dependem em larga medida de trabalhadores civis que servem aos soldados em horários normais de trabalho e tiram folga nos finais de semana. Incapaz de se comunicar com a maioria da população e quase desprovido de recursos de inteligência, Brar tentava determinar suas ações em meio a um nevoeiro de rumores, especulação e desinformação.

"Ao longo de todo o período, havia um vácuo de informação", disse Brar.

Ele estava claramente preocupado com o que aconteceu aqui, mas disse que suas tropas fizeram o melhor que podiam em uma situação horrível.

"Fizemos o possível", ele disse. "Imagine se não estivéssemos aqui. Muito mais gente teria morrido".

Kavira Nzuva, cujo filho François foi morto, diz que a morte dele deixou um vazio em sua vida. Emaciada e se locomovendo com dificuldade aos 67 anos, ela se viu forçada a voltar a trabalhar nos campos.

François sustentava a mãe como fotógrafo. Ele instalou eletricidade na casa dela e pagava a conta mensal, e também construiu uma cozinha nova. Nzuva tem um álbum grosso com muitas fotos do filho, um homem alto e sempre disposto a posar diante da câmera.

"Ele era meu filho mais novo. Não sei como viverei sem ele", diz.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
 
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