Mumbai: polícia frustrou atentado no início do ano

07 de dezembro de 2008 • 19h49 • atualizado às 19h50

A polícia indiana frustrou uma tentativa de destruir locais importantes e provocar o caos em Mumbai no início deste ano, desmantelando uma célula de indianos e paquistaneses chefiados pelos mesmos dois líderes baseados no Paquistão que os oficiais acusam de serem os organizadores dos ataques devastadores da semana passada.

O plano fracassado de fevereiro também envolveu Lashkar-e-Taiba, grupo paquistanês acusado dos ataques da semana passada, segundo a polícia. Isso sugere que o grupo militante concebeu seu plano com muita antecedência e fez contatos muito mais intensos com indianos muçulmanos extremistas do que os investigadores acreditavam.

Isso também chama atenção para outra importante brecha de segurança da inteligência indiana e forças policiais, que há meses já tinham indícios de um esquema de ataque a Mumbai e fortes indícios dos alvos pretendidos.

Os investigadores disseram que consideravam a possibilidade dos homens que executaram os ataques da semana passada - aparentemente todos paquistaneses - terem cúmplices locais, indianos.

Embora não tenham encontrado nada concreto, eles acreditam que um dos envolvidos na conspiração anterior, Faheem Ahmed Ansari, indiano de Mumbai, seja um possível suspeito. Os oficiais disseram que ele e cinco outros suspeitos de colaboração foram inicialmente presos por estarem ligados a um ataque a um campo policial no norte da Índia.

Após sua prisão, Ansari disse aos investigadores que também havia feito o reconhecimento de alvos em Mumbai. Ainda não está claro se esse reconhecimento fez parte do plano dos ataques da semana passada, que as autoridades agora afirmam ter matado 163 pessoas.

Os seis homens presos em fevereiro continuam sob custódia.

Ansari foi capturado com esboços feitos à mão de oito dos 10 pontos de referência de Mumbai, aparentemente baseados em suas viagens de reconhecimento, disse Amitabh Yash, o superintendente da força-tarefa especial da polícia no Estado de Uttar Pradesh, onde os suspeitos foram detidos.

Ele e os outros acusados estavam com fuzis AK-47, pistolas, granadas e munição, acrescentou Yash, os mesmos tipos de armas usadas pelos 10 agressores identificados dos ataques a Mumbai da semana passada.

As conspirações têm outras semelhanças gritantes. Os seis suspeitos da conspiração de fevereiro foram acusados de planejar ataques à principal estação ferroviária de Mumbai - um dos primeiros alvos atingidos na semana passada - além da bolsa de valores da cidade, grandes hotéis e outros locais.

Como os participantes dos ataques da semana passada, os membros do grupo anterior não esperavam voltar vivos, disseram aos investigadores.

Eles também contaram aos policiais que foram chefiados por dois líderes do Lashkar-e-Taiba: Zaki ur-Rehman Lakhvi e um homem conhecido alternadamente como Yusuf ou Muzammil, mostram os documentos. Esses dois homens planejaram e coordenaram os ataques da semana passada e continuaram a orientar por telefone pelo menos 10 homens durante a execução dos ataques, dizem os investigadores da Índia.

Após sua prisão em fevereiro, um dos seis homens disse aos investigadores que havia recebido quatro meses de treinamento da principal agência de espionagem do Paquistão, a Inteligência Inter-Serviço, ou ISI, afirmou a polícia. Policiais indianos disseram que não foi possível verificar a informação.

A ISI ajudou a fundar o Lashkar-e-Taiba há duas décadas, mas suas atuais conexões com o grupo, oficialmente banido, não são claras. A crença de que a agência de espionagem conspira com terroristas em solo paquistanês é praticamente universal na Índia.

A Índia não acusou o governo paquistanês de colaboração com os ataques a Mumbai, mas forneceu evidências do envolvimento do Lashkar e tem pressionado o Paquistão a agir de forma dura contra o grupo.

Com o crescimento do ódio do público indiano ao Paquistão, as tensões entre os dois rivais nucleares chegaram a níveis não vistos em anos.

O Lashkar negou qualquer ligação com os ataques. Mas nos últimos anos, tem tentado recrutar mais muçulmanos indianos para sua causa, segundo oficiais indianos. A organização se beneficiou da insatisfação de comunas locais contra a maioria hindu e pelo crescimento global do islamismo linha-dura.

Durante os ataques da semana passada, um dos agressores teria mencionado o massacre hindu de 2002 contra muçulmanos antes de matar um dos reféns, em uma aparente tentativa de identificar sua causa com a dos muçulmanos indianos.

Um experiente agente antiterror americano afirmou que o envolvimento de cúmplices locais é altamente provável. "Eles não teriam chegado àqueles lugares sem ajuda local," disse o agente, falando sob condição de anonimato por causa da investigação em andamento. "Eles se deslocaram muito rápido. Deviam ter apoio no terreno."

O agente americano disse que a inspeção dos locais de desembarque dos atacantes e qualquer evidência recuperada dos corpos dos atiradores poderiam revelar pistas adicionais sobre o suporte local.

Após sua detenção em fevereiro, Ansari contou aos investigadores que cresceu em Mumbai e, em 2006, se mudou a trabalho para a Arábia Saudita, como muitos jovens indianos. Lá, um imã da mesquita local o inspirou com conversas sobre jihad.

Mais tarde, recrutadores do Lashkar o abordaram e logo ele navegava em direção ao Paquistão, onde recebeu treinamento físico, militar e de inteligência em campos do grupo Lashkar, disse Yash, líder da força-tarefa da polícia. Ele ganhou um passaporte paquistanês e outros documentos que facilitavam seus deslocamentos.

Yash acrescentou que os interrogatórios de Ansari e seus colegas suspeitos haviam "explicado muito sobre as relações entre o Lashkar e a ISI," disse, "eles estão totalmente interligados."

Sob a direção de Lakhvi, comandante do Lashkar, Ansari viajou para Mumbai no outono de 2007 da região e começou o reconhecimento para um ataque, disseram oficiais. Em 31 de dezembro, disseram, ele participou de um ataque a um comando policial em Rampur, a 160 quilômetros ao norte de Nova Délhi, que matou sete oficiais.

Na época, ele fazia parte de uma equipe de militantes do Lashkar: três da cidade indiana Lucknow; um de Bihar, no norte da Índia; e os dois paquistaneses, disseram oficiais.

O líder era um muçulmano indiano chamado Saba'uddin Ahmed, um jovem culto de uma família abastada de Bihar. Foi ele que recebeu quatro meses de treinamento de agentes da ISI, além de um treinamento anterior nos campos do Lashkar, de acordo com documentos policiais.

Ahmed também esteve envolvido em pelo menos uma missão anterior, segundo os documentos: um ataque ao Instituto Indiano de Ciência, Bagalore, em 2005, que matou um cientista.

Depois do ataque ao comando policial em Rampur, "fomos orientados a ir para Mumbai em uma operação suicida," disse Ansari à polícia, de acordo com uma ficha de acusação elaborada após sua detenção.

Sexta-feira, em Mumbai, o novo ministro do interior indiano, Palaniappan Chidambaram, admitiu que existiram "lapsos" na forma pela qual a Índia conduziu a crise e disse que seu governo tenta "melhorar a eficácia de nossos sistemas de segurança."

A indignação quanto aos últimos ataques foi direcionada não apenas ao vizinho Paquistão, mas também ao próprio governo da Índia por não ter impedido os ataques. Na maior demonstração de revolta até agora, dezenas de milhares marcharam em Mumbai e outras cidades pelo país.

"O povo da Índia se sente ferido e indignado como nunca esteve," disse o primeiro-ministro Manmohan Singh em Nova Délhi.

Herald Tribune
 
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