Especialistas: EUA e Rússia devem controlar armas

07 de dezembro de 2008 • 19h31 • atualizado às 19h32

Com a proliferação de armas nucleares e o Irã a caminho de sua capacitação nuclear, os Estados Unidos e a Rússia deveriam, na visão de muitos especialistas eminentes de segurança, começar rapidamente a negociar uma retomada das conversas sobre controle de armas que incluirão as novas potências nucleares.

Essa visão surgiu com força a partir das discussões de novembro entre especialistas dos EUA, Rússia, Oriente Médio, Paquistão e Europa que, com a nova administração americana, vêem uma oportunidade de impedir o colapso dos acordos de longa data sobre controle de armas e proliferação nuclear.

"A Rússia e os EUA precisam tomar a liderança," disse George Perkovich, especialista em desarmamento da Fundação Carnegie para Paz Internacional de Washington.

Mas mesmo se as duas grandes potências nucleares trabalharem juntas, elas terão a difícil tarefa de persuadir outras novas potências nucleares oficiais e não-oficiais, incluindo China, Índia, Paquistão e Israel, a se juntarem às negociações.

Existe um abismo entre os dois grupos no que diz respeito à necessidade de possuir armas nucleares, concordam os analistas, observando que essa distância é difícil de ser superada.

Apesar de diferenças ideológicas fundamentais durante a Guerra Fria, Washington e Moscou chegaram a acordos em diversos tratados de desarmamento, ambos motivados pela história, analistas disseram.

"A lembrança da Segunda Guerra Mundial sempre esteve na mente desses dois adversários," disse Thérèse Delpech, diretora de assuntos estratégicos da Comissão de Energia Atômica francesa, que compareceu à conferência de desarmamento organizada pelo Instituto polonês de Assuntos Internacionais e pelo Instituto de Pesquisa da Paz Internacional de Estocolmo. "Não havia apenas o medo de destruição mútua, mas a lembrança da terrível guerra."

Com o tempo, Delpech disse, as conversas sobre o controle de armas permitiram que essas superpotências - claramente divididas ideologicamente - se conhecessem melhor.

Ao longo da última década, no entanto, os tabus aceitos, a lembrança e até o grau de confiança partilhado por americanos e russos se enfraqueceram e provavelmente não são mais suficientes para revitalizar as conversações sobre o controle de armas.

"Se quisermos lidar com um mundo multipolar, pôr fim às armas nucleares, teremos que reinventar um novo regime de controle de armas," disse Sergei Rogov, diretor do Instituto dos Estados Unidos da América e do Canadá da Academia Russa de Ciências. "O controle de armas envolvia a regulação das duas superpotências. Agora não temos mais padrões e normas comuns," disse Rogov, um negociador veterano de controle de armas.

O que preocupa os defensores do desarmamento é que o tabu nuclear, existente desde que as bombas americanas causaram efeitos devastadores em Hiroshima e Nagasaki em 1945, agora está em risco de se extinguir.

"Por tanto tempo, não usar armas nucleares era um princípio," disse Delpech, acrescentando que o uso de armas nucleares "está se tornando menos absurdo por várias razões."

Primeiro, existe um número maior de potências nucleares, o que aumenta os riscos. Segundo, as novas potências nucleares não têm experiência na política de dissuasão estratégica. "Elas não entendem que a dissuasão também reduz o conflito," disse Delpech. E terceiro, a proliferação nuclear agora é uma ameaça em regiões altamente instáveis: Oriente Médio, nordeste e sul da Ásia.

"O ambiente é tão diferente do de 1945," acrescentou Delpech. "As soluções são muito mais complexas."

James Goodby, ex-negociador de controle de armas dos EUA, disse que a União Soviética e os Estados Unidos dispunham de tempo para desenvolver regras e fazer a balança pender contra o uso de armas nucleares. "Essas circunstâncias não existem no Oriente Médio, nordeste ou sul da Ásia. Presumir que a dissuasão nuclear sempre terá êxito, mesmo em condições muito diferentes, não passa de ilusão," disse Goodby, que hoje é pesquisador da Instituição Hoover da Universidade de Stanford e membro não-residente da Instituição Brookings de Washington.

Contudo, como existem diversas novas potências nucleares e com o Irã a caminho de se tornar mais uma, há um ímpeto crescente nos EUA para a retomada do controle de armas - que não foi uma prioridade para o governo Bush.

A Instituição Hoover começou no ano passado uma série de conferências, em que participaram ex-secretários de Estado, incluindo George Shultz e Henry Kissinger, um ex-secretário de Defesa, William Perry, e o ex-chefe do Comitê de Serviços de Armas do Senado, Sam Nunn.

Entre as propostas, que incluem o desenvolvimento de uma defesa de mísseis balísticos multilateral e cooperativa e sistemas de alerta, essas reuniões apelaram para que os Estados Unidos liderassem, com a Rússia, o compromisso em reduzir substancialmente as forças nucleares e fizessem com que outras nações se envolvessem na iniciativa.

A Rússia está adiando uma resposta a qualquer uma dessas propostas, esperando para ver o que presidente-eleito Barack Obama fará, enquanto também pressiona por uma grande discussão geral sobre segurança na Europa. Rogov observou que existe hoje "um retrocesso muito forte do controle anti-armas na Rússia," uma mudança imensa em comparação a anos anteriores, quando, segundo ele, era o Kremlin, mais do que Washington, que defendia fortemente o controle de armas.

A decisão do governo Bush de revogar o Tratado de Limitação de Sistemas de Mísseis Anti-balísticos - conhecido como Tratado ABM¿ foi instrumental na geração da desconfiança. "Enquanto os EUA viravam as costas para o tratado, tínhamos que obedecer os acordos de controle de armas que limitavam a Rússia ¿ por exemplo o Tratado de Forças Convencionais na Europa, que estabelecia limites para forças convencionais e equipamento," disse Rogov. Os planos dos EUA de implementar parte de seu escudo de mísseis anti-balísticos na Europa Oriental complicou ainda mais a situação.

Especialistas russos em controle de armas também dizem não saber como retomar as conversações sobre controle de armas fora do contexto bipolar da Guerra Fria. "Como criar um regime multilateral que não pode se basear na paridade?" disse Rogov. "A idéia de paridade era possível em um sistema bipolar," mas é praticamente impossível de ser acordada em um fórum de controle de armas multilateral, ele disse. "Sendo assim, a questão é como passar a uma dissuasão mínima," Rogov acrescentou.

De fato, o Paquistão deixou claro na conferência que não tinha entusiasmo pelo fórum de controle de armas multilateral. "Enquanto o Estado tiver uma percepção de ameaça, não resolveremos a questão do desarmamento," disse o brigadeiro Khalid Banuri, oficial sênior de controle de armas e desarmamento do exército paquistanês. "Uma abordagem discriminatória será contraprodutiva."

Herald Tribune
 
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