Rússia: reforma no exército gera protesto militar

04 de dezembro de 2008 • 13h04 • atualizado às 13h04

Redução dos efetivos, reorganização do comando, venda dos terrenos e dos imóveis, fechamento dos institutos e das academias: a reforma do exército anunciada em 14 de outubro pelo ministro da Defesa russo, Anatoli Serdioukov, deu origem a uma onda de protestos dos oficiais. "Vejo a revolta dos oficiais ao meu redor com as medidas. Eles estão totalmente sem confiança. O exército espera seu comandante," confia Viktor Baranets, coronel de reserva, hoje analista militar para o jornal de grande divulgação Komsomolskaia Pravda.

Velho lobo do mar da vida política russa, a reforma do exército, em gestação há 20 anos, toma um rumo concreto com o anúncio de muitas dispensas. Até 2012, 200 mil oficiais serão afastados, 140 mil suboficiais deverão se aposentar ou ser realocados. Os generais não são poupados: 200 dentre eles - sobre um total de 1.104 - foram convidados a sair. É verdade que o exército russo, com em média um oficial para cada dois soldados, conta com um numero considerável de graduados.

A preocupação é grande entre os professores das academias militares, assim como entre os médicos do exército, pois aí também haverá cortes importantes. De 70 estabelecimentos de ensino militar, somente 10 serão mantidos. Ninguém acredita nos cursos de "requalificação em quatro meses" prometidos no alto escalão. O anúncio da construção de moradias "na Sibéria e no Extremo-Oriente" para as famílias dos militares despedidos foi mal recebido, pois foi associado a um exílio forçado.

"Tudo se faz de forma escondida, sem consultas. Parece que o poder em exercício, que tem um grande número de representantes do serviço de segurança, tem medo do exército e, por isso, quer reformá-lo," lamenta um suboficial que preferiu conservar o anonimato. "Nosso povo está pronto para tudo, mas ele precisa, pelo menos, de uma explicação," afirma Edouard Vorobiev, general-coronel aposentado, que foi responsável pela evacuação do contingente soviético da antiga Tchecoslováquia.

O Estado-Maior assumiu uma postura firme e essas vozes não foram ouvidas. Em 11 de novembro, o general Nikolai Makarov, líder do exército, proibiu a difusão de informações sobre a reforma, assim como os contatos dos militares com a mídia. Exemplos da desaprovação, três generais de alto escalão - Valentin Korabelnikov, número um do serviço de informação; Vladimir Issatov, responsável das linhas de defesa e Vladir mir Gochkodera, do comando geral - já pediram suas demissões, afirma o jornal Kommersant de 29 de novembro. Recentemente, em Mourmansk, oficiais e suboficiais saíram às ruas e bloquearam o tráfego de uma grande via para gritar slogans contra a reforma. O Estado-Maior demente.

A reforma é uma verdadeira revolução. Ela prevê a supressão das divisões tradicionais, que serão substituídas por brigadas com efetivos reduzidos e com maior mobilidade. "A dupla rede de comando vai ser abolida. A guerra na Chechênia (1994-2004), assim como o conflito de agosto no Cáucaso (de 7 a 12 de agosto), mostrou que esse sistema, criado nos anos 60, é tão burocrático e tão complicado que impede qualquer tipo de decisão rápida," explicou Nikolaï Makarov numa coletiva de imprensa em Moscou.

A guerra na Geórgia foi reveladora. Graça à sua superioridade aérea, Moscou ganhou, mas lições foram aprendidas. "A infantaria, a aviação e a defesa antiaérea estão num estado deplorável," comenta Viktor Baranets. Ele lembra que seis aviões foram abatidos pela defesa antiaérea do inimigo, entre eles um Tupolev 22, um bombardeiro estratégico de longo alcance, verdadeira fortaleza voadora, mandada ao campo de batalha não para bombardeios, mas apenas para reconhecimento.

A vulnerabilidade do exército apareceu já nas primeiras horas da operação de agosto, quando o general Khroulev, no comando da coluna de blindados que ia em direção a Tskhinvali, capital da Ossétia do Sul, foi gravemente ferido pelos tiros dos soldados da Geórgia. Pouco tempo antes, sua unidade havia tentado entrar em contato com a hierarquia moscovita, sem sucesso. Os aparelhos de comunicação, antiquados, não funcionaram. Finalmente, a ligação foi feita graça ao telefone via satélite de um jornalista que acompanhava os soldados.

Um capítulo da reforma prevê a modernização dos equipamentos e do armamento. Na segunda-feira, 1º de dezembro, o vice-primeiro-ministro russo, Sergueï Ivanov, anunciou que a Rússia ia em breve produzir em série o seu novo míssil intercontinental, o "Boulava", projetado para equipar os submarinos da frota russa, apesar da arma, em testes desde 2005, ainda não estar pronta.

Nesse ponto, os patriotas do exército concordam. "Nós devemos ter a possibilidade de golpear o inimigo em seu território, a reforma militar deve ser feita nesse espírito," explica o general de reserva Leonid Ivachov, hoje presidente da Academia de Questões Geopolíticas. A qual agressor ele se refere? Dos Estados Unidos, da Europa? " O Ocidente nunca será o amigo da Rússia. É uma mentira divulgada por lá, mas a guerra de agosto mostrou o quanto isso é falso," afirma o velho general. Ele lamenta "os pobres habitantes dos países da OTAN, tão mal informados".

A condenação do Ocidente faz unanimidade. Segundo Viktor Baranets: "Sarkozy e Medvedev podem continuar se abraçando, nossos interesses serão sempre divergentes." Em relação aos países do antigo bloco soviético que entraram para a OTAN, como a Polônia e as repúblicas bálticas, "assim que o exército russo recuperar o poder da época soviética, eles voltarão de joelhos nos suplicar para serem de novo nossos aliados."

Tradução: Amy Traduções

Le Monde
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »