Queda do petróleo prejudica posição de Chávez

27 de novembro de 2008 • 15h53 • atualizado às 15h53

Na campanha para as eleições regionais e municipais venezuelanas que acontecem no domingo, dia 23 de novembro, um assunto crucial não vem sendo abordado com freqüência pelo presidente Hugo Chávez: o petróleo. As razões desse silêncio são compreensíveis: ele não quer falar do assunto em um momento no qual o único produto de exportação de seu país enfrenta queda livre de preços.

Quinto maior entre os produtores de petróleo integrados à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com 2,7 milhões de barris diários (os números oficiais são mais elevados), a Venezuela é a maior exportadora do produto no hemisfério ocidental. O petróleo responde por entre 90% e 95% das exportações do país e por mais de 50% das receitas do Estado.

Pesado e viscoso, o petróleo bruto venezuelano tem preço inferior ao da variante de referência internacional, conhecida como Brent, porque exige processo de refino mais complexo. Com preço atual da ordem de US$ 40 por barril, a queda o reduziu a um terço do valor recorde registrado em julho, bem como à sua cotação mais baixa em 22 meses.

Em uma avenida de Caracas, um mural mostra um Tio Sam feroz, portando um fuzil, com a legenda: "O petróleo venezuelano é o alvo do imperialismo". Mas a realidade se contrapõe a essa propaganda. Seria possível até mesmo alegar que os Estados Unidos são financiadores maciços da "revolução bolivariana", já que eles são o maior cliente do petróleo venezuelano.

Mais de um milhão de barris de petróleo bruto e de derivados refinados de petróleo venezuelanos se destinam aos Estados Unidos a cada dia, cerca de metade das exportações totais venezuelanas. O petróleo bruto é refinado em território norte-americano por refinarias controladas pela PDVSA, a estatal venezuelana de petróleo, e é distribuído em território norte-americano pela Citgo, uma subsidiária da PDVSA.

A dependência da Venezuela com relação aos Estados Unidos é ainda mais forte porque as características específicas do petróleo bruto do país complicam a busca por outros clientes. A retórica virulenta que Chávez adota contra o "imperialismo" norte-americano segue em companhia de uma busca por uma relação petroleira mutuamente benéfica.

As ameaças de suspender as exportações de petróleo aos Estados Unidos nunca são levadas a sério. Como resume um diplomata estacionado em Caracas, "no caso de Chávez, ele gosta de promover agitação na vitrine, mas nos fundos das lojas as coisas ficam sempre calmas". Canadá e México, dois outros grandes fornecedores de petróleo aos Estados Unidos, ficariam muito felizes com a oportunidade de compensar qualquer corte nas exportações venezuelanas. Os norte-americanos reduziram suas importações de petróleo da Venezuela, de 17% do total importado em 1996 a menos de 10% este ano.

Chávez terminou por reconhecer que a queda nos preços poderia afetar o seu país, mas de que maneira?

Tudo dependerá do mercado. Em 2008, o preço médio do barril de petróleo bruto venezuelano deve ficar na média recorde de US$ 95. Mas será muito difícil determinar a perspectiva de preços para 2009. Caso o preço médio se mantenha acima dos US$ 80, uma hipótese otimista, a Venezuela não sofrerá muito. Caso ele caia abaixo dos US$ 60, o governo poderá se ver forçado a colocar em questão seu modelo estatizante, a suspender sua política de nacionalização e a retomar as negociações com os investidores estrangeiros.

Em caso de um cenário intermediário, com preços médios oscilando entre os US$ 60 e US$ 80 por barril, a Venezuela terá de proceder a sérios ajustes, mesmo que adote um orçamento prudente para 2009. Chávez terá diversas opções. Poderá reduzir as despesas públicas, mas sua margem de manobra é limitada, porque elas correspondem a salários e subvenções sociais. Ou seja, são elas que sustentam o crescimento do país. Ele poderia adiar certas aquisições de armas ou restabelecer alguns dos impostos que eliminou. De toda forma, teria de evitar ao máximo qualquer desvalorização da moeda.

Será que ele continuará capaz de manter sua generosa "diplomacia petroleira", da qual se beneficiam cerca de 20 países da região aos quais ele oferece termos de pagamento favoráveis? Chávez corre o risco de ter de escolher entre dois males: perder partidários em seu país ou decepcionar seus amigos no exterior.

Tradução: Paulo Migliacci

Le Monde
 
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