Hillary está indecisa sobre aceitar cargo de Obama

19 de novembro de 2008 • 20h08 • atualizado às 20h08

Raymond Hernandez e Michael Luo

São Paulo


A senadora Hillary Clinton, de Nova York, tem reservas quanto a aceitar o convite para se tornar secretária de Estado no governo de Barack Obama, disse um assessor de Clinton que conhece as idéias dela sobre o assunto, na terça-feira.

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O assessor afirmou que a senadora Clinton se sente lisonjeada pelo interesse do presidente eleito em contar com seus serviços, mas disse que chegar a uma decisão sobre o assunto era doloroso para ela. Clinton prefere controlar suas próprias ações, e reluta em abrir mão da independência que a caracteriza, disse o assessor, que falou sob a condição de que seu nome não fosse revelado porque o processo atravessa um momento delicado.

"O secretário de Estado é alguém que trabalha para o presidente", afirmou o assessor em um e-mail, em resposta a perguntas apresentadas pelo New York Times. "Já um senador não deve satisfações a ninguém, a não ser a ele mesmo e às pessoas que o elegeram".

Não estava claro se a hesitação que Clinton vem declarando representa uma tática de negociação, enquanto a equipe de transição de Obama pondera se deve ou não apontá-la para o posto; se ela representa um genuíno momento de indecisão ou se Clinton está agindo assim apenas como forma de preparar o terreno para retirar seu nome da disputa.

Philippe Reines, porta-voz da senadora Clinton, se recusou a comentar, e encaminhou todas as perguntas sobre esse assunto à equipe de transição de Obama.

Os aliados de Clinton tentaram refutar, na terça-feira, alegações de que os interesses financeiros e de outra ordem do ex-presidente Bill Clinton poderiam bloquear a indicação de sua mulher.

Os assessores de Obama estão revisando esta semana as atividades de negócios do ex-presidente Clinton, com foco em seus envolvimentos posteriores à presidência, detalhes sobre os quais não são de conhecimento público.

Os dados em estudo incluem a identidade de todos os doadores de recursos para a fundação do ex-presidente, a origem de alguns dos pagamentos por suas palestras - Clinton chegou a ganhar US$ 425 mil por uma palestra de uma hora - e o trabalho que ele realiza para o bilionário investidor Ronald Burkle.

"As questões sobre W. J. C. as iniciais de Bill Clinton não serão obstáculo", afirmou o assessor da senadora Clinton em e-mail ao New York Times. "Ela ainda não decidiu se deseja ou não deixar o Senado". O assessor acrescentou que os advogados que estão conduzindo o processo de verificação em nome de Obama e a equipe de Hillary Clinton haviam avançado na terça-feira quanto à solução de certas questões relacionadas aos interesses de Bill Clinton.

Os assessores de Hillary Clinton não acreditam que participar do governo de Obama impediria que ela disputasse novamente a presidência, caso seja essa sua intenção, ainda que a senadora venha negando a possibilidade de voltar a tentar a Casa Branca.

"Eu poderia afirmar que as chances dela aumentariam, nesse caso", disse o assessor, afirmando que participar do governo ofereceria "completa imersão na ala Obama do Partido Democrata".

Clinton está se recuperando de sua derrota diante de Obama nas primárias democratas, e expressou interesse por mergulhar em algumas das maiores propostas de política interna que o Congresso debaterá no próximo mandato, especialmente as referentes à saúde.

Mas na última quinta-feira o ex-oponente a procurou e Clinton viajou a Chicago, onde eles discutiram a possibilidade de que ela se tornasse secretária de Estado.

"Ela acredita que Obama foi generoso ao fazer o convite e que tenha sido tratada com todo respeito durante o processo", disse o assessor da senadora. "Mas não está segura a respeito".

Uma complicação que Clinton enfrentaria caso venha a se tornar secretária de Estado seria a montanha de dívidas que ficaram de sua campanha presidencial.

Clinton ainda tem US$ 7,6 milhões em contas a pagar de sua campanha nas primárias, informou Reines, e isso não inclui os empréstimos pessoais que fez ao seu caixa de campanha.

A Lei Hatch, que rege as atividades políticas de funcionários do governo federal, proíbe que eles solicitem ou recebam doações para fins políticos. Anthony Guglielmi, porta-voz da Procuradoria Especial dos Estados Unidos, encarregada de fiscalizar o cumprimento da lei Hatch, mencionou os termos de um parecer sobre o assunto que a agência divulgou em 2001.

O parecer determina que um funcionário federal que esteja tentando pagar dívidas de campanha contraídas antes que começasse a trabalhar para o governo fica impedido de solicitar doações pessoalmente, mas "a organização de campanha de um candidato que mais tarde se torne funcionário federal poderia continuar organizando e promovendo eventos de arrecadação de fundos para pagar dívidas de campanha".

O parecer prossegue afirmando que o ex-candidato não pode "auxiliar na promoção do evento e não pode realizar qualquer participação ativa". Por outro lado, o parecer autoriza o ex-candidato a comparecer aos eventos de arrecadação de fundos, ser anunciado aos presentes e "agradecer brevemente por todos os esforços empreendidos para ajudar a pagar suas dívidas de campanha", mas afirma que qualquer participação que vá além desse "papel passivo" representaria violação da lei.

Também a questão óbvia da participação pessoal do candidato em eventos. Michael Toner, antigo presidente da Comissão Eleitoral Federal, disse que membros do gabinete em geral tinham certa liberdade de ação quanto a participar de atividades políticas, mas apontou que os postos de secretário de Estado e da Defesa envolviam questões especialmente sensíveis.

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
 
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