Peter Baker e Helene Cooper
Estados Unidos
A investigação acerca do ex-presidente parece mostrar que Obama estuda seriamente trazer ao gabinete sua antiga rival na nomeação democrata à corrida presidencial. Eles se encontraram secretamente em Chicago na quinta-feira para conversar sobre a possibilidade e a notícia logo se espalhou. Muitos democratas próximos de ambos disseram no domingo que parecia provável que Obama nomearia Hillary para o cargo, com o pressuposto de que algo poderia ser feito em relação ao papel de Bill Clinton.
Uma equipe de advogados que tenta facilitar a possível nomeação passou o fim de semana examinando a organização filantrópica do ex-presidente Clinton, suas negociações com governos estrangeiros e laços com companhias farmacêuticas, afirmou um assessor de ambas as partes. Os dois lados estão discutindo o que o ex-presidente necessitaria fazer para evitar um conflito de interesses com as responsabilidades de sua mulher, que estaria supostamente interessada no cargo.
"Este é o primeiro e mais importante obstáculo," disse outro assessor de Obama que falou sob condição de anonimato ao discutir o papel de Bill Clinton, mas que elogiou seu trabalho filantrópico no exterior através da Clinton Global Initiative. "Ele faz um bom trabalho. Ninguém quer impedi-lo, mas é preciso pensar em uma estrutura para evitar conflitos."
Mais de doze assessores de ambas as partes disseram no domingo que, embora não tivessem informações sólidas, eles consideravam improvável que Obama tivesse deixado vazar a nomeação de Clinton como secretária de Estado sem ter decidido, pelo menos em princípio, que desejava concretizar o plano. Rejeitá-la após deixar a possibilidade se tornar tão pública poderia causar uma nova cisão dentro do partido, que passou a maior parte do ano dividido entre Obama e os Clinton.
A possível nomeação de Hillary Clinton a secretária de Estado gerou reações positivas de democratas e republicanos no domingo. "Ela é uma mulher de grande inteligência, demonstrou uma determinação enorme e seria uma nomeação excelente," o ex-secretário de Estado Henry A. Kissinger disse a um fórum em Nova Déli, segundo serviços de notícias.
O senador Jon Kyl do Arizona, o republicano número dois no Senado, recebeu bem a possível nomeação. "Seria uma boa escolha, pelo menos por agora," ele disse ao telejornal Fox News Sunday." "Ela me parece experiente. Ela tem um bom temperamento para isso. Acredito que ela seria bem recebida ao redor do mundo. Por isso, minha reação inicial é a de que seria uma escolha muito boa."
Falando em uma conferência econômica no Kuwait, Bill Clinton abertamente reconheceu a possibilidade da nomeação. "Se ele decidir nomeá-la, e eles trabalharem juntos, acredito que ela será uma ótima secretária de Estado," afirmou. "Ela trabalhou muito pela sua eleição após enfrentá-lo nas primárias, e eu também. Ficamos muito felizes quando ele venceu e temos grande confiança de que ele fará um bom trabalho.
Outro indício da possível nomeação de Clinton foi a notícia de que Gregory Craig será escolhido como conselheiro da Casa Branca, em vez de conselheiro de Segurança Nacional ou sub-secretário de Estado, como alguns esperavam. Amigo de longa data dos Clinton, Craig estudou Direito com Bill Clinton e o representou durante o impeachment, mas cortou laços com o casal para apoiar Obama e foi um crítico ácido das alegações de Hillary sobre sua experiência em política internacional. Embora alguns assessores não tenham visto conexão entre os fatos, outros disseram que colocá-lo em um posto envolvendo política internacional dificultaria que Clinton assumisse o cargo de secretária de Estado.
Tanto Obama quanto Clinton mantiveram sigilo sobre suas conversas, mas o silêncio serviu apenas para convencer alguns associados de que a possibilidade é séria. "Ninguém ligou para dizer, 'não vá muito fundo nisso," disse James Carville, amigo de longa data e assessor dos Clinton. "Um telefone silencioso é às vezes um indício muito mais forte do que um telefone tocando."
Um ex-assessor de Hillary Clinton falou sob condição de anonimato que "se esse é um balão de testes, ele certamente parece estar flutuando." Outro falou, "não acredito que eles a exporiam com toda essa propaganda a menos que tivessem certeza disso."
Ao longo da última semana em seus escritórios de transição em Chicago, Obama conduziu pelo menos seis entrevistas para possíveis membros de gabinete, focando nos cargos de secretário de Estado e secretário do Tesouro. Sua equipe de transição inicialmente havia planejado nomear o primeiro integrante do gabinete nesta semana, mas os assessores disseram no domingo que nenhuma decisão havia sido tomada. Nenhum anúncio foi programado para segunda e terça-feira, disseram os assessores, e não há mais nada marcado no calendário após isso.
Em entrevista ao programa "60 Minutes," transmitido no domingo, Obama disse que os primeiros membros de seu gabinete seriam anunciados em breve. Ele acrescentou, "acredito que temos uma boa idéia do que gostaríamos de ver, mas leva tempo para aprontarmos essas coisas."
Ele não quis dar esclarecimentos sobre sua conversa com Clinton no final da última semana, dizendo apenas, "ela é alguém que me deu assessoria e conselho."
Enquanto se acredita que Clinton continue sendo uma forte candidata a secretária de Estado de Obama, os democratas também consideram o governador Bill Richardson, do Novo México, e pelo menos outro candidato, talvez o senador John Kerry, de Massachusetts.
Clinton partilha de grande parte da abordagem de Obama em política internacional, mas os dois discordaram veementemente em algumas ocasiões durante as primárias.
Ela o acusou de não estar preparado para as complexidades do mundo e o caracterizou como ingênuo por dizer que ele falaria com o Irã sem condições pré-estabelecidas e autorizaria ataques contra terroristas no Paquistão mesmo sem permissão. Ele a acusou de exagerar suas credenciais em política internacional, dizendo que sua experiência na área se limitava a ter "tomado chá" com líderes internacionais.
Embora Clinton possa trazer uma voltagem política excepcional ao gabinete de Obama, a interação de seu papel com o do vice-presidente-eleito Joseph R. Biden Jr., que também tem grande interesse em política internacional, permanece uma incógnita. Sua nomeação também complicaria as escolhas para outros cargos, como o de conselheiro de Segurança Nacional ou secretário de Defesa, visto que Obama tenta encontrar uma mistura de personalidades que seja coerente, segundo assessores.
Mas Bill Clinton é aparentemente o maior obstáculo à nomeação e os advogados que analisaram suas atividades nesse fim de semana estão tentando depurar todos os registros da fundação de Clinton o mais rápido possível, segundo assessores democratas. Eles disseram que a análise estava sendo supervisionada pela conselheira pessoal da equipe de Obama, Christine A. Varney, que foi secretária do gabinete de Clinton e é sócia da Hogan & Hartson, uma firma de advocacia internacional.
Não ficou claro se Bill Clinton concordou formalmente em abrir seus registros pessoais, mas ele tem um grande incentivo para ceder. "Pela primeira vez em 16 anos, ele precisa cooperar com alguém, desde que ficou claro que ela deseja o cargo," disse um assessor democrata.
Desde que deixou a Casa Branca, Bill Clinton tem acumulado uma grande fortuna através de discursos, livros e negócios, também construindo uma organização filantrópica chamada Clinton Global Initiative, que ajuda a expandir o acesso à educação, saúde e nutrição de crianças e adultos carentes ao redor do mundo.
Ele viaja o mundo convocando líderes mundiais para a sua luta contra a aids, o aquecimento global e a pobreza.
Ao mesmo tempo, ele também aceitou milhões de dólares de autoridades e negócios estrangeiros sem divulgar muitos detalhes. Desde sua formação em 1998, a fundação de Clinton arrecadou mais de US$ 500 milhões, que custearam uma biblioteca presidencial enquanto ele sustentava sua imagem de filantropo global. A lei não exige que os doadores sejam identificados e ele se recusou a fazê-lo com firmeza.
Entre os doadores da Fundação de Clinton estão a família real saudita, o rei do Marrocos, uma fundação ligada aos Emirados Árabes Unidos, governos do Kuwait e Catar e um magnata ucraniano que é genro de um certo autoritário presidente soviético que foi expulso do poder.
Tradução: Amy Traduções
The New York Times