Choe Sang-Hun
Estados Unidos
Os fatos que ninguém disputa são que, ao final da Segunda Guerra Mundial, os soviéticos ocuparam a porção norte da Coréia e instalaram nela um governo comunista leal a Moscou, enquanto na metade sul do país uma administração militar norte-americana assumia o controle.
Mas depois disso o livro escolar segue em uma direção que desperta ojeriza entre os conservadores. O texto argumenta que, depois da ocupação japonesa, em lugar de uma Coréia livre e autônoma, surgiu nova ocupação por potências estrangeiras.
"Não foi a nossa bandeira nacional que foi hasteada em substituição à japonesa", afirma o livro, publicado pela Kumsung Publishing. "A bandeira que subiu foi a dos Estados Unidos. Nossa libertação por intermédio da vitória das forças aliadas nos impediu de construir um novo país de acordo com os nossos desejos".
Os críticos incluem o governo do presidente Lee Myung Bak, conservador que chegou ao poder este ano prometendo reverter uma década de políticas liberais que, na opinião do novo presidente, tratam a Coréia do Norte com excessiva delicadeza e desconsideram a importância da aliança entre o país e os Estados Unidos - uma aliança que os liberais, de sua parte, acusam de manter no poder uma sucessão de ditadores, em nome do combate ao comunismo.
Em 30 de outubro, o Ministério da Educação Ciência e Tecnologia exigiu que os autores do livro da Kumsung e de cinco outros livros didáticos que estão hoje em uso no ensino sul-coreano de segundo grau eliminem ou revisem 55 trechos de seus textos que, segundo as autoridades, "solapam a legitimidade do governo sul-coreano". "Um livro moderno de História deve ser escrito de maneira a não ferir o nosso orgulho como nação", afirmou o ministério em comunicado.
Os autores rejeitaram a interferência, alegando que os críticos estavam tentando "embelezar" a problemática história do país, e desconsideravam a colaboração dos coreanos para com os ocupantes japoneses e para com as ditaduras do pós-guerra. A oposição liberal no Parlamento disse que a tentativa do governo de censurar livros de História despertava o espectro dessas ditaduras, que no passado controlavam completamente a vida nacional, dos livros que os sul-coreanos estavam autorizados a ler ao comprimento das saias femininas.
"Orgulho nacional? Patriotismo? Devem se basear em fatos históricos", disse Hong Soon Kwon, professor de História e um dos co-autores do livro da Kumsung.A Coréia do Sul costumava ensinar os adolescentes utilizando um único livro de História, redigido pelo governo. Mas em 2003, para encorajar a diversidade nas interpretações históricas, o governo aprovou seis livros de História produzidos por editoras privadas para uso no ensino secundário.
Desde então, os livros vêm atraindo críticas dos conservadores, o que aguça o debate mais amplo na Coréia do Sul sobre como se deve avaliar os antigos líderes do país - a exemplo de Syngman Rhee, o primeiro presidente sul-coreano, e do ditador militar Park Chung Hee - e o complicado relacionamento entre Seul e Washington.
Os conservadores alegam que os livros didáticos "de inclinação esquerdista" envenenam as mentes dos adolescentes ao dedicar atenção demasiada aos aspectos sombrios da História nacional. Os livros, afirmam, inspiram uma visão ¿masoquista¿ da história sul-coreana ao denegrir o papel das forças aliadas na eliminação do jugo japonês sobre a Coréia e ao insistir demais quanto aos defeitos dos ditadores do país, sem dar igual peso às suas realizações, por exemplo, a contribuição que fizeram para o rápido crescimento econômico do país.
"Os livros didáticos ensinam História patricida", diz Park Hyo Chong, professor de educação para a ética na Universidade Nacional de Seul e presidente do Fórum do Livro Didático, um grupo conservador que conduz campanhas contra os novos livros didáticos. "Eles ensinam que a Coréia do Sul é um país que não deveria ter nascido". Queixas como essas costumavam ser ignoradas pelos governos liberais anteriores. Mas depois que Lee assumiu, em fevereiro, agências do governo começaram elas mesmas a se queixar dos livros.
Um dos livros didáticos mais populares, publicado pelo Instituto por Uma Educação Melhor, afirma que Rhee, reverenciado como fundador do país pelos conservadores mas detestado pelos liberais em função de sua impiedosa repressão à dissidência em nome do anticomunismo, explorou a ameaça militar que as Coréia do Norte representava a fim de "escorar seu regime ditatorial". O Ministério da Defesa Nacional exigiu que esse trecho fosse alterado para "ele fez o melhor que podia para conter o comunismo".
De acordo com o livro didático da Kumsung, Park Chung Hee, que tomou o poder em um golpe militar em 1961 e torturou dissidentes políticos, enquanto mobilizava o país para o crescimento econômico sustentado por exportações, foi "um presidente que se colocou acima da constituição nacional". O Ministério da Defesa quer que o trecho seja alterado para ¿um presidente que contribuiu para a modernização do país".
Quanto à "política da alvorada", promovendo uma melhora no relacionamento diplomático com a Coréia do Norte durante o governo do presidente Kim Dae Jung, cuja posse em 1989 tirou os conservadores do poder pela primeira vez e levou muitos dissidentes políticos a cargos importantes, o Ministério da Unificação Nacional agora sugere que o lema seja substituído nos livros didáticos pela expressão oficial, bem mais seca: "Política de reconciliação e cooperação".
Park, o professor universitário conservador, declarou que nos últimos 10 anos os estudantes haviam sido submetidos a uma doutrinação "nacionalista de esquerda" graças aos novos livros didáticos e a uma nova geração de professores que não viveram a guerra da Coréia, em 1950/3, e se sentem mais propensos a uma reconciliação com os comunistas do norte.
Esses professores amadureceram passando por outras experiências - muitos deles eram universitários durante os protestos estudantis contra Chun Doo Hwan, que tomou o poder em 1979 depois do assassinato de Park Chung Hee, e que, em 1980, usou unidades do exército em uma operação que matou centenas de manifestantes pela democracia em Gwangju, uma cidade no sul do país.
Quando os Estados Unidos, que tecnicamente detinham o comando das forças militares combinadas norte-americanas e sul-coreanas, optaram por não impedir a junta militar presidida por Chun de usar seus soldados contra os cidadãos do país, os estudantes passaram a rejeitar Washington. Da mesma maneira que a divisão da península teria gerado desconfiança com relação às grandes potências, os acontecimentos em Gwangju ajudaram a determinar as posições dos sul-coreanos quanto aos Estados Unidos, afirmam os historiadores.
O ressentimento persiste e ressurgiu em grandes manifestações contra a importação de carne bovina norte-americana, alguns meses atrás. A visão dos sul-coreanos jovens sobre a história de seu país foi bem resumida pelo ex-presidente Roh Moo Hyun, que substituiu o governo liberal de Kim em 2003. Naquele ano, quando os novos livros didáticos começaram a ser distribuídos às escolas, ele declarou que "nossa história moderna é dolorosa, com a justiça derrotada e o oportunismo vitorioso".
Os conservadores ficaram enfurecidos com os esforços dos governos Kim e Roh para esclarecer aspectos do passado mantidos ocultos por muito tempo ¿a colaboração com os colonizadores japoneses (Park Chung Hee foi oficial do exército imperial japonês), matanças de civis em massa durante a guerra da Coréia e abusos contra dissidentes políticos. Eles argumentam que os liberais desconsideram a dificuldade das escolhas que os líderes sul-coreanos tiveram de fazer.
Em julho, o Ministério da Defesa proibiu o porte de 23 livros sediciosos" nos quartéis do país, sob a alegação de que essas obras "pro-Coréia do Norte, antiamericanas e anticapitalistas", entre as quais dois livros do lingüista norte-americano Noam Chomsky, ameaçam o país.
Depois que a mídia descobriu sobre a lista, as vendas dos livros proibidos dispararam. Os militares sofreram novo embaraço em 22 de outubro quando sete advogados das forças armadas apelaram à Corte Constitucional, alegando que a proibição violava os direitos básicos dos soldados.
Até mesmo Chomsky interveio: "Talvez o ministério devesse portar o nome de Ministério da Defesa contra a Liberdade e a Democracia", ele declarou em entrevista ao Clube dos Livros Sediciosos, um site criado na Coréia do Sul para promover a discussão sobre os livros censurados.
Tradução: Paulo Migliacci ME
Herald Tribune