Sarkozy busca mostrar serviço como líder europeu

18 de novembro de 2008 • 08h29 • atualizado às 08h29

John Vinocur

Estados Unidos


Entre os empregos temporários, ser líder da Europa por seis meses é um dos mais difíceis - batalhar pelo status de Mestre do Universo, mas sem o poder de fogo necessário e com apoio internacional incerto às grandes idéias em causa. Nicolas Sarkozy se esforça. Ele disparou conceitos, alguns dos quais oportunos, como uma metralhadora política que tome por alvo todas as questões e problemas internacionais.

Há momentos em que o presidente francês se prova audaz, comovente e refrescante. Mas se recuarmos a julho, quando a França assumiu a presidência rotativa da União Européia, o traço que o caracteriza como condutor da política européia talvez tenha sido institucionalizar a dispersão em lugar de uma estratégia coerente, com uma saraivada de ruidosos projetos ou planos que soam importantes mas em sua maioria não funcionam ou não parecem destinados a funcionar.

Na Europa, ao longo dos últimos meses, seu modus operandi encontrou reação reticente da parte dos países vizinhos.

Um plano de Sarkozy para a criação de uma União do Mediterrâneo, com a França como foco de poder, não foi acatado até que o controle francês excessivo sobre o projeto fosse removido. Seus apelos para que a Europa estabelecesse um "governo econômico" foram rejeitados bruscamente. E sua tentativa de se tornar presidente do grupo dos países que adotam o euro como divisa, depois que a República Tcheca assumir a presidência da União Européia, em 1° de janeiro, não mereceu nem resposta.

A abordagem de Sarkozy quanto aos palcos mais amplos oferecidos pela reunião do G20 sobre a crise financeira, no final de semana, e pela conferência de cúpula entre Rússia e União Européia em Nice, na sexta-feira, foi semelhante ¿uma avidez e uma energia imensas, mas desprovidas da influência ou, para citar Stálin, da força militar necessárias. Para começar, o esforço de Sarkozy para aproveitar o interregno presidencial nos Estados Unidos e transformar um encontro sobre as misérias financeiras mundiais em uma assembléia constituinte para a nova economia mundial fracassou de todo.

Sim, a inclusão de Rússia, China, Brasil e Arábia Saudita na escalação clássica do Ocidente em sua função de supervisor das finanças mundiais foi recebida com agrado universal, ainda que Sarkozy mesmo tenha classificado os detalhes como "não muito glamurosos".

Mas as recomendações regulatórias da reunião vieram acompanhadas de qualificações que permitiriam a países individuais impô-las a seu critério. E a realidade afirma que, em lugar do plano de ação de 100 dias que Sarkozy vinha insistindo uma semana atrás em que os norte-americanos aceitassem, o processo de reforma terá, de fato, de ser revisitado em maio, quando ele já não falará pela Europa e a voz de Barack Obama dominará o processo.

Como medida da influência internacional real do líder francês, isso era previsível. Mas não teria sido possível prever o esforço de Sarkozy para exercer o papel do que a imprensa francesa define como "mediador" entre Rússia e Estados Unidos.

Na sexta-feira, ele surpreendeu ao declarar que o plano dos norte-americanos (e tchecos e poloneses) para criar um sistema de defesa contra mísseis nucleares iranianos ¿nada traria para a segurança européia¿. Quando fez esse comentário, Sarkozy estava dividindo o palanque com o presidente russo Dmitri Medvedev, que uma semana antes havia ameaçado posicionar mísseis que teriam como ponto de mira países da União Européia e da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan). A agência de notícias Associated Press afirma que Medvedev sorriu e fez um gesto de concordância com Sarkozy.

Estamos falando do mesmo Sarkozy que definiu como "inadmissíveis" as armas nucleares iranianas, e que deseja que a França retorne ao comando militar integrado da Otan. No sábado, depois que tchecos e poloneses declararam em público que Sarkozy não falava pela Europa sobre o sistema de defesa contra mísseis, havia se pronunciado sem consultar os demais países e não influenciaria suas decisões, o líder francês mudou de curso e reconheceu que o sistema de defesa contra mísseis poderia servir de proteção contra mísseis iranianos.

Antes que o fizesse, Denis MacShane, o ministro para assuntos europeus do governo de Tony Blair no Reino Unido, que estava participando de uma assembléia de parlamentares dos países da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Valência, afirmou que o grupo estava "chocado" com a posição francesa, comentando que "parece que Medvedev conseguiu fazer com que Sarkozy engolisse uma isca e agora está recolhendo a linha lentamente".

De fato, uma interpretação mais generosa apontaria que a declaração é só mais um exemplo de Sarkozy sendo ele mesmo - sempre propenso a pronunciamentos grandiosos e a tentar demarcar um lugar importante para si mesmo na História, o que o leva a falar sem pensar ou sem consultar seus diplomatas.

Um assessor de Sarkozy ofereceu uma interpretação positiva: "As pessoas começam a compreender como ele funciona. Ele tem uma idéia, diz algo de sério mas não muito diplomático e depois, se necessário, se corrige. E não se incomoda muito se houver protestos".

Um representante norte-americano também tentou pintar o incidente em cores positivas: "Não creio que a França vá abandonar o apoio à defesa contra mísseis que expressou na mais recente conferência de cúpula da Otan. Acho que Sarkozy foi apenas um pouco exuberante no palanque".

De qualquer maneira, seria bom lembrar que o próximo semestre da França como ocupante da presidência rotativa da União Européia, caso a organização não altere as regras vigentes, só acontecerá em 2020.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Herald Tribune
 
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