Analista vê ecos da Guerra Fria em postura russa

14 de novembro de 2008 • 16h59 • atualizado às 16h59

Judy Dempsey

Rússia


Os poloneses tiveram seus altos e baixos com o governo Bush. Mas uma coisa que Varsóvia conseguiu obter foi um acordo para que partes do controvertido sistema de defesa contra mísseis balísticos norte-americano sejam baseadas na Polônia.

O acordo foi fechado dias depois da invasão da Geórgia pela Rússia, em agosto, e isso alimentou suspeitas do Kremlin quanto às intenções norte-americanas. O presidente Dmitri Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin vêm alegando repetidamente que interceptores norte-americanos estacionados na Polônia e radares norte-americanos posicionados na República Tcheca não teriam por objetivo impedir ataques por mísseis lançados do Oriente Médio, e sim solapar a segurança nacional russa.

Em seu discurso sobre o estado da nação, pronunciado horas depois da vitória eleitoral de Barack Obama, Medvedev ameaçou posicionar mísseis de curto alcance e alta precisão em Kaliningrado, um enclave russo entre a Polônia e a Lituânia, dois países membros da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Até mesmo sob os padrões rudes de etiqueta e protocolo que os russos vêm seguindo, discurso de Medvedev se destacou pela beligerância e aspereza desnecessárias. Obama não assumiu compromissos de manter o programa de defesa contra mísseis, como deixou claro em telefona ao presidente polonês Lech Kaczynski na semana passada.

"A posição de Obama continua a ser a que ele manteve durante toda a campanha: apóia a criação de um sistema de defesa contra mísseis quando a tecnologia provar que funciona", disse Denis McDonough, o principal assessor de política externa do presidente eleito.

O discurso de Medveved foi revelador por outro motivo. Demonstrou como o discurso do desarmamento e do controle de armas que prevalecia durante os anos 80 e começo dos 90 em Washington e Moscou foi substituído por duas coisas: um Kremlin disposto a usar a força contra os vizinhos e as políticas adotadas pelo presidente George W. Bush, que em larga medida descartou as negociações multilaterais de controle de armas como forma de conter a proliferação.

"Embora a proliferação venha ocupando posição de destaque na agenda internacional com ênfase no Irã, Coréia do Norte e Paquistão, o desarmamento não tem prioridade alta", disse Eckart von Klaeden, porta-voz da chanceler primeira-ministra alemã Angela Merkel para assuntos internacionais. "Espero que a presidência de Obama gere mudanças quando a isso. Reduzir o número de ogivas nucleares - a Rússia tem mais de 5 mil - também reduz os riscos de proliferação nuclear".

A equipe de Obama não só está estudando em detalhes a eficiência e custo do projeto de defesa contra mísseis como Obama já disse que "é hora de enviar uma mensagem clara, de que os Estados Unidos desejam um mundo sem armas nucleares". Também existe crescente consenso bipartidário em Washington quanto a reiniciar as negociações de desarmamento. John McCain, o senador republicano derrotado na eleição presidencial, disse que "os Estados Unidos deveriam liderar um esforço mundial pelo desarmamento nuclear".

Existe alguma chance de que o Kremlin se una à Casa Branca na abertura de um novo capítulo no controle de armas? Rússia e Estados Unidos somados têm mais de 10 mil ogivas nucleares. Durante a Guerra Fria, os russos enfatizavam mais o desarmamento nuclear, mas hoje, porque o país ficou muito para trás dos Estados Unidos em termos de armas convencionais, quer reter seu arsenal nuclear como forma de compensar esse desequilíbrio, diz Mark Fitzpstrick, analista militar do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, organização fundada 50 anos atrás em Londres com foco nas questões de dissuasão nuclear e controle de armas.

O Kremlin vem pagando um preço elevado por essa política, como o confirma o acidente no qual 20 pessoas morreram a bordo do submarino nuclear Nerpa, no final de semana passado. "A construção do Nerpa demorou 15 anos; a tecnologia do submarino está desatualizada, e não resta ninguém na fábrica com experiência direta na construção de submarinos nucleares", afirmou o especialista em defesa russo Aleksandr Golts na edição de terça-feira do Moscow Times.

Além disso, a recriação de um vínculo entre as negociações de desarmamento e a proliferação nuclear poderia servir aos interesses russos. As instáveis regiões meridionais do país não ficam longe do Irã, que está desenvolvendo capacidade nuclear, e a Rússia precisa considerar sua grande rival, a China, bem como Índia e Paquistão, ambos potências nucleares.

Mas apesar de tudo é difícil determinar se o Kremlin está blefando com a ameaça de basear mísseis Iskander em Kaliningrado. O Kremlin prometeu produção em massa desses mísseis oito anos atrás, mas até agora apenas um esquadrão, com seis lançadores de mísseis, foi estabelecido, em lugar de cinco brigadas completas, de acordo com Golts.

A versão do Iskander em questão tem alcance de 400 km, que poderia ser estendido a 500 km. Isso permitiria que a Rússia atingisse praticamente todo o território polonês, de Kaliningrado.

Mas um alcance de 500 km representaria violação do Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermediário assinado pelos Estados Unidos e pela antiga União Soviética em 1987, que requeria que os dois lados destruíssem seus mísseis balísticos e de cruzeiro, convencionais ou nucleares, com alcance de entre 500 e 5,5 mil km. O Kremlin talvez esteja disposto a se envolver em uma nova corrida armamentista - ainda que atribua a culpa por ela ao governo Bush, com sua decisão de instalar o escudo de defesa contra mísseis na Europa Oriental.

Tanto Washington quanto Moscou precisariam demonstrar grande visão de Estado a fim de chegar a um compromisso que dê ao controle de armas prioridade na agenda de segurança de ambos os países. Obama parece pronto para uma mudança. Mas e quanto a Medvedev?

Tradução: Paulo Migliacci

Herald Tribune
 
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