John Tagliabue
França
Agora, enquanto o presidente eleito Barack Obama contempla uma expansão da infra-estrutura a fim de manter os norte-americanos trabalhando a despeito da severa desaceleração econômica, os bondes podem ser uma das peças fundamentais da recuperação econômica e da promoção de um uso mais eficiente da energia.
"Os bondes foram inventados nos Estados Unidos", diz Jean-Noel Debroise, vice-presidente de planejamento de produtos da Alstom, uma fabricante francesa de bondes que está tentando vender seus esguios modelos Citadis a cidades como Houston e Toronto. "O mercado é grande", disse.
Empresas européias como a Alstom, a alemã Siemens, a italiana AnsaldoBreda, a espanhola CAF e a tcheca Skoda estarão na dianteira da fila. São elas, acompanhadas por grupos não europeus como o Bombardier, do Canadá, e o Kinki Sharyo, do Japão, que representam os maiores fornecedores mundiais de bondes, ou veículos de transporte leve sobre trilhos.
"Se obtivermos verbas para um programa em nível federal, muitas cidades expressarão interesse", disse Jeffrey Boothe, um advogado de Washington que se especializa em transporte público. "Porque, afinal, é apenas a falta de verbas federais que as impede de adotar esses programas".
Continuam a existir muitos obstáculos a superar, especialmente as dificuldades que governos estaduais e municipais terão de superar para colocar no mercado títulos de dívida durante uma contração de crédito.
Mas isso não impede que os europeus estejam observando um dos poucos mercados de rápido crescimento no mundo, o dos Estados Unidos. No segundo trimestre de 2008, o uso do transporte coletivo cresceu em 5,2% e o de transporte ferroviário leve em 12,3%, de acordo com a Associação Americana de Transporte Público.
Até o ano passado, cerca de 2,9 mil km de vias para bondes estavam em operação ou em planejamento em cidades norte-americanas.
Em maio, a Siemens, líder nesse mercado, obteve um contrato de US$ 277 milhões para fornecer bondes à Autoridade de Transporte do Utah. Os veículos estarão prontos para serviço em 2012, e serão fabricados nas instalações da Siemens em Sacramento.
Este ano, a Siemens conquistou um contrato de US$ 184 milhões para um novo serviço ferroviário leve em Denver.
"O projeto de Denver não foi atípico", disse Oliver Hauck, presidente-executivo da Siemens Transportation Systems. "Começamos com uma pequena ordem inicial" que mais tarde se transformou em compromisso bem mais substancial. A Siemens começou a atender Denver com a entrega de oito bondes em 1993; a mais recente encomenda foi de 55 veículos, e Hauck espera novos pedidos.
Mas o recente tumulto nos mercados financeiros ameaça o mercado. Os governos municipais e locais foram excluídos do mercado de títulos, para todos os fins práticos. Na reunião da Associação Americana de Transporte Público, no mês passado, as discussões foram intensas.
"Por um lado, o evento teve o maior comparecimento que já registramos", disse Boothe, que participou. "Mas por outro lado, quando você conversava com os amigos, todo mundo estava preocupado com os preços das ações".
Os contratos norte-americanos servem como sustentação crucial aos construtores europeus de bondes,e compensam a desaceleração em seus mercados internos. Essas empresas estão em larga medida excluídas dos mercados do leste europeu e da Ásia, controlados por empresas locais. E nos países da Europa ocidental, o mercado de transporte público está saturado.
Uma recente pesquisa conduzida pela consultoria Roland Berger para a Associação Européia da Indústria Ferroviária previa crescimento anual de cerca de 1% para os sistemas ferroviários leves na Europa, nos próximos 10 anos, ante mais de 10% na América do Norte.
A maioria das cidades européias, mesmo as equipadas com extensos sistemas de metrô, utiliza linhas de bonde. Em cidades norte-americanas, os bondes são cada vez mais vistos como alternativa à dispendiosa construção de metrôs.
A Siemens colocou os bondes para rodar na América do Norte em 1975, quando assinou contratos para fornecer sistemas modernos de bondes a Calgary e Edmonton, no Canadá. Cinco anos depois, entregou seus primeiros bondes nos Estados Unidos, destinados a San Diego.
"Nós vendíamos um produto europeu existente, um veículo importado", diz Hauck. "Mas de lá para cá ampliamos o conteúdo local".
As empresas européias tinham muitos obstáculos a superar. Por exemplo, uma lei federal dispõe que a compra desse tipo de equipamento só pode receber verbas federais caso 60% de seu valor provenha dos Estados Unidos. A Siemens atendeu ao requerimento abrindo uma linha de montagem em Sacramento.
"Agora temos 70% de conteúdo local, e existe o potencial de chegarmos a 90%", disse Robin Stimson, vice-presidente da Siemens. A empresa forneceu bondes para Charlotte, Houston, Norfolk e muitas outras cidades.
E outros concorrentes europeus tornaram o mercado ainda mais competitivo. O grupo tcheco Skoda (que não tem relação com a subsidiária Skoda da Volkswagen) vendeu bondes a Portland e Tacoma, e está disputando um contrato em Toronto. A AnsaldoBreda, da Itália, vendeu bondes a Cleveland, San Francisco e Los Angeles. A espanhola CAF vendeu veículos a Pittsburgh e Sacramento. E a Alstom, além dos bondes, vendeu vagões de metrô a diversas cidades dos Estados Unidos, entre as quais San Francisco, Chicago e Washington.
Tradução: Paulo Migliacci
The New York Times