Geórgia é um pouco caótica, diz presidente do país

19 de outubro de 2008 • 10h24 • atualizado às 10h24

Deborah Solomon

Estados Unidos


O presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, fala sobre os motivos para que todos os candidatos à presidência estejam preocupados em ajudar seu país, sobre aquilo de que Putin pode ser culpado e da opinião do presidente Bush sobre os bolinhos de carne de seu país.

» Suspensa conferência Rússia-Geórgia
» CIJ ordena fim de discriminação étnica
» Diálogo no Cáucaso é o começo, diz Ban

O senhor assistiu aos debates presidenciais? Às vezes parecia que o único assunto sobre o qual os candidatos concordavam era a necessidade de apoiar seu país, um antigo membro da União Soviética que passou por guerra recente com a Rússia.
Fiquei muito surpreso por os candidatos demonstrarem tanto interesse pela Geórgia. John McCain esteve no país muitas vezes, claro, e conhece a situação de perto. Obama disse todas as coisas certas.

Com que freqüência o senhor fala com os candidatos ao telefone?
Muita freqüência. E creio que os dois sejam muito competentes.

Por que os políticos norte-americanos estão tão interessados na Geórgia?
Primeiro de tudo, a democracia é um interesse estratégico. E, segundo, existem questões de energia. Se a Rússia fechar o acesso à Ásia Central e ao Mar Cáspio para a Europa, os aliados europeus dos Estados Unidos dependerão completamente da Rússia para sua energia e gás natural.

Por que nossa amizade com vocês justificaria um possível rompimento entre os Estados Unidos e a Rússia?
Veja, o rompimento com a Rússia não se relaciona à Geórgia, mas sim a valores. A Rússia se tornou muito autoritária. Não aceita mais a liberdade de expressão ou eleições reais.

Qual é o problema desses russos?
Quanto mais inseguro você se sente, mais propenso fica a criar crises.

O senhor acredita que Putin deseje matá-lo?
Bem, me matar não faria sentido porque a Geórgia já está provida de uma classe política educada ao modo ocidental.

Os russos tentaram alguma coisa contra o senhor?
O presidente Medvedev me chamou de "cadáver político" publicamente por diversas vezes. Putin disse a diversos líderes ocidentais que "quero a cabeça de Saakashvili". Se eles querem minha cabeça, isso mais me diverte que preocupa.

O senhor tem conexões com a Agência Central de Inteligência (CIA)?
Não. Eu disse ao presidente Bush dois anos atrás que estou cansado de tentar convencer Putin de que não sou agente da CIA. Eu pedi a Bush que dissesse a ele que SOU agente da CIA, porque assim Putin talvez me leve mais a sério.

Apesar de sua retórica elevada sobre democracia, em novembro passado o senhor fechou um canal de TV oposicionista em Tbilisi.
A interferência com a Imedi TV foi uma exceção, não a regra. A ação foi realizada em meio a tumultos de massa, quando a Imedi TV começou a incitar a derrubada do governo democraticamente eleito. E é bom ressaltar que o governo pagou pelos danos.

O senhor estudou Direito na Universidade Colúmbia e chegou ao poder na Revolução Rosa, um movimento pacífico, em 2003. Qual é seu salário como presidente?
Quando me tornei presidente da Geórgia, me trouxeram dinheiro e eu perguntei o que era aquilo. "Seu salário mensal", foi a resposta. Equivalia a cerca de US$ 40. Eu respondi que "me desculpem, mas não consigo viver com isso. Quero um salário de verdade".

O senhor conseguiu aumento?
Hoje ganho cerca de US$ 6 mil por mês, e mais despesas. Continuamos a ser um país pobre.

Como o senhor descreveria a Geórgia, em termos gerais?
É espontânea. De mente aberta. Um pouco caótica. Um país de vinho e de belas paisagens. Um país de boa comida.

Que espécie de boa comida?
Por exemplo, "khinkali", um grande bolinho, com carne e molho no recheio.

Bem, não parece muito dietético.
Nem era para ser. O presidente Bush adorou. Sempre que eu ligo ele diz que continua pedalando para tentar perder os três quilos que ganhou em Tbilisi.

O senhor acredita que a Geórgia será admitida na Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) em dezembro, a data da próxima votação?

É a pergunta de US$ 100 milhões. O senador Obama me garantiu que teríamos um plano de ação para admissão à Otan. Se isso virá, teremos de ver.

O que o senhor pensa de Sarah Palin?
Quando foi indicada, ela me telefonou. Muito animada, muito interativa, muito envolvida.

Ela consegue ver a Geórgia da varanda de sua casa?
Não, estamos olhando em direções diferentes. Mesmo com os mais poderosos binóculos, não consigo ver o Alasca.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times Magazine
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »