Em despedida, Olmert apela por paz com palestinos

07 de outubro de 2008 • 15h15 • atualizado às 15h17

Uri Dromi

Israel


Em entrevista de despedida ao jornal Yediot Aharonot, na véspera do Rosh Hashana, o ano-novo judaico, o primeiro-ministro Ehud Olmert lançou uma bomba: "O que lhes digo agora", ele afirmou aos entrevistadores, "nenhum líder judaico anterior afirmou: temos de abandonar quase todos os territórios (na Cisjordânia), incluindo o leste de Jerusalém, e também as colinas de Golã".

Mas para aqueles de nós que vêm defendendo essas medidas há anos, as palavras dele não foram de fato uma bomba; simplesmente revelaram que enfim as lideranças começam a encarar a realidade. A fim de que Israel possa sobreviver como Estado judaico e democrático, o governo não pode governar milhões de palestinos. Interessa muito a Israel que surja um Estado palestino viável, um estado cujos cidadãos, ainda que forçados a abandonar seus sonhos de retornar às suas origens em Jaffa e Haifa, sintam ainda assim que, tendo em vista as circunstâncias históricas, eles podem viver em paz com o acordo que obtiveram.

Mas o que houve de notável naquela avaliação fria e realista é que ela tenha surgido dos lábios de Ehud Olmert.

Trinta anos atrás, quando o Knesset (Parlamento) se reuniu para ratificar os acordos de paz assinados em Camp David pelo primeiro-ministro Menachem Begin e pelo presidente egípcio Anwar Sadat, com a mediação do presidente norte-americano Jimmy Carter, o debate foi acalorado. A linha dura acusou Begin de trair sua idéia de um Grande Israel ao restituir o Sinai aos egípcios. Mas, quando chegou a hora de votar, 84 dos membros do Knesset aprovaram a medida, ante 17 votos contrários e 19 abstenções. A despeito da sensação dominante de que abandonar o Sinai que havíamos conquistado representava sério sacrifício, a maioria acreditava que a oportunidade de fazer a paz com o maior inimigo de Israel não podia ser desperdiçada.

Mesmo Yitzhak Shamir, um dos mais ferrenhos oponentes de quaisquer concessões, decidiu que se absteria em lugar de votar contra o acordo. Entre os parlamentares que votaram contra estava um jovem legislador chamado Ehud Olmert. Em sua recente entrevista, Olmert reverteu completamente sua posição, elogiando a coragem e a liderança que Begin exibiu 30 anos atrás.

Parece que Olmert começou a recuar de sua postura como adepto fervoroso da ideologia da direita na metade dos anos 90, quando se tornou prefeito de Jerusalém e começou a compreender que a vida em uma região complicada como a nossa requer flexibilidade.

Lembro-me de acompanhar o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, que seria assassinado anos mais tarde, em uma visita à cidade. Estávamos posicionados em um posto de observação que se voltava para o leste, para o deserto da Judéia, quando Olmert começou a explicar a Rabin que Jerusalém precisava de um anel viário em sua metade leste, a fim de aliviar os congestionamentos de trânsito. Rabin descartou a idéia com um sorriso. Todos nós sabíamos o que Olmert realmente tinha em mente: isolar Jerusalém fisicamente pelo seu lado leste, de modo a impossibilitar qualquer futura partilha da cidade.

Mas em suas palavras de despedida a Rabin, na sede da prefeitura, Olmert nos surpreendeu. Estávamos vivendo os dias do processo de paz de Oslo, e Rabin vivia sob constante ataque dos colegas direitistas de Olmert. No entanto, Rabin e eu trocamos olhares intrigados diante do discurso do prefeito, no qual ele elogiou o então primeiro-ministro por sua coragem e liderança ao dar uma oportunidade à paz com os palestinos. Em retrospecto, percebo que Olmert já havia iniciado sua transformação.

É lastimável que os líderes israelenses só consigam se expressar com franqueza quanto ao futuro do conflito entre Israel e palestinos ao deixar seus postos. Talvez a provável sucessora de Olmert, a ministra do Exterior Tzipi Livni, conhecida por sua coragem, se prove uma exceção.

Em lugar de tentar formar um governo instável, que poderia ser paralisado facilmente por seus próprios integrantes, ela deveria convocar uma nova eleição, e fazer campanha com base nas palavras de despedida de Olmert.

Quem quer que deseje que Israel seja uma democracia, predominantemente judaica, deveria votar nela, sabendo que isso representaria abandonar a maior parte da Cisjordânia e aceitar um compromisso sobre Jerusalém.

Por outro lado, quem votar em Benjamin Netanyahu, o líder do Likud, deve ter em mente que, ao rejeitar o compromisso com os palestinos, está optando pela criação de um Estado binacional. Com isso os árabes, com seus índices de natalidade superiores, logo se tornarão maioria e forçarão Israel a enfrentar um dilema: perder sua identidade judaica para manter a democracia ou se manter judaico e viver em apartheid.

Livni, como Olmert, vem de uma família linha dura da direita (o pai dela era oficial de operações do Irgun, um dos movimentos clandestinos que lutou pelo estabelecimento de Israel). Caso ela siga esse caminho para a paz, conquistará a confiança de seus compatriotas, que gostam de líderes basicamente duros. Se ela disse a verdade ao povo de Israel, poderá vencer nas urnas e nos liderar pelo caminho certo no futuro.

Tradução: Paulo Migliacci

Herald Tribune
 
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