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No Vaticano, rabino diz que Pio XII traiu os judeus

06 de outubro de 2008 16h51 atualizado às 17h17

No primeiro pronunciamento de um judeu a um sínodo no Vaticano, um rabino disse na segunda-feira que os judeus "não podem perdoar e esquecer" a omissão de alguns líderes religiosos a respeito do Holocausto.

O discurso do rabino Shear-Yashuv Cohen, diante do papa Bento XVI, foi uma clara referência a Pio XII, pontífice na época do conflito, que segundo muitos judeus não se empenhou em evitar o genocídio nazista.

Cohen, rabino-chefe de Haifa (Israel), dissera à Reuters horas antes que faria críticas indiretas a Pio XII durante seu discurso a mais de 200 prelados de todo o mundo.

"Não podemos esquecer o fato triste e doloroso de que muitos, inclusive grandes líderes religiosos, não levantaram suas vozes no esforço para salvar nossos irmãos, preferindo em vez disso manter o silêncio e ajudar secretamente. Não podemos perdoar e esquecer isso, e esperamos que vocês entendam", disse ele, de improviso, já ao final do discurso.

Em setembro, Bento 16 declarou que Pio XII "não poupou esforços" para salvar os judeus, atuando nos bastidores. Simpatizantes do falecido papa argumentam que declarações mais incisivas naquela época poderiam piorar a situação dos judeus na Europa.

Cohen também pediu ao sínodo que recrimine formalmente o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, por ter feito mais um virulento discurso contra Israel no mês passado na ONU.

"Estou aqui para lhes pedir, líderes das religiões, que ergam sua voz e com a ajuda do mundo livre protejam, defendam e salvem Israel das mãos dos nossos inimigos", afirmou, citando o recente discurso na ONU de "um certo presidente de um Estado do Oriente Médio".

"Esta infâmia anti-semita mos levou de volta às dolorosas lembranças da tragédia do nosso povo, as vítimas do Holocausto, o qual esperamos e rezamos para que nunca mais ser repita."

Na entrevista de segunda-feira à Reuters, Cohen, 80 anos, disse que Pio XII (Papa entre 1939 e 58) poderia ter se empenhado mais contra o Holocausto. Ele acrescentou que teria evitado o evento se soubesse que o sínodo coincidia com cerimônias em homenagem os 50 anos da morte do pontífice.

"Ele pode ter ajudado em segredo muitas das vítimas e muitos dos refugiados, mas a questão é se ele poderia ter erguido sua voz e se isso teria ajudado ou não. Nós, como vítimas, sentimos que sim. Não tenho procuração das famílias dos milhões de falecidos para dizer 'esquecemos, perdoamos'", afirmou Cohen.

Na quinta-feira, Bento XVI rezará missa pelos 50 anos da morte de Pio XII, e em novembro haverá uma conferência e uma exposição de fotos sobre seu pontificado, que é um dos temas mais espinhosos nas relações entre católicos e judeus.

"Preciso deixar muito claro que nós, rabinos, a liderança do povo judeu, não podemos concordar, enquanto os sobreviventes acharem que é doloroso, que este líder da Igreja num momento de crise deva ser homenageado agora. Não é a nossa decisão. Isso nos dói. Lamentamos que isso esteja sendo feito", declarou o rabino.

Pressionado por historiadores a abrir seus arquivos da Segunda Guerra Mundial, o Vaticano diz que alguns itens estão resguardados por razões organizacionais, mas que a maior parte dos documento relevantes daquela época já estão à disposição dos pesquisadores.

Em 2007, a Congregação da Causa dos Santos mostrou-se favorável a um decreto reconhecendo as "virtudes heróicas" de Pio XII, o que abre caminho para sua possível canonização, num processo iniciado em 1967. Bento XVI ainda não aprovou esse decreto.

Alguns grupos judaicos defendem a paralisação do processo de canonização, enquanto outros argumentam que se trata de um assunto interno da Igreja.

Reuters
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