Para alemães, Dia D mistura libertação e derrota

O veterano alemão Rolf de Boeser relembra seus tempos de soldado durante a luta na França
O veterano alemão Rolf de Boeser relembra seus tempos de soldado durante a luta na França
02 de junho de 2004
AP

Ele era apenas um jovem carpinteiro quando o exército de Hitler o convocou para lutar contra os aliados na França. Atirando em americanos e britânicos, aos 18 anos, Rolf de Boeser tinha apenas um objetivo: sair de lá vivo. Sessenta anos depois do desembarque do Dia D, os sentimentos são confusos para De Boeser e outros veteranos alemães ao refletirem sobre o dia em que viram a derrota e a libertação do nazismo.

A comemoração deste ano está muito voltada para a reconciliação, com a presença do chanceler alemão Gerhard Schroeder nas cerimônias na França. Ele é o primeiro líder alemão a ser convidado. Mas o passado ainda faz sombra.

De Boeser era um homem da infantaria jogado na batalha enquanto o nó se apertava em torno da Alemanha de Hitler, e mal podia ser acusado de cumplicidade nos crimes de guerra nazistas. Bombardeado por um avião americano, hospitalizado com fragmentos no estômago, ele acabou sendo prisioneiro de guerra por quatro anos.

Schroeder sugeriu que sua presença nas praias invadidas ao lado dos presidentes francês, Jacques Chirac, e americano, George W. Bush, e outros VIPs é um sinal de que a Europa está indo para frente e que é um confirmação de que a Alemanha é tratada como uma nação normal novamente.

Mas para De Boeser e sua geração, o aniversário traz de volta questões espinhosas sobre a relação com seus antigos inimigos, a responsabilidade enquanto soldados de Hitler, e o sentido de celebrar uma derrota esmagadora. "Nós éramos todos jovens homens. Nós não estávamos entusiasmados em sermos soldados, mas tínhamos que", disse De Boeser, em entrevista à agência AP.

Sobre o holocausto nazista que matou mais de 6 milhões de judeus, ele diz: "o que aconteceu me deixa envergonhado, lógico, mas eu não tinha nada a ver com aquilo". De Boeser acreditava que as pessoas mandadas para os campos nazistas eram criminosas e disse que só ficou sabendo do extermínio quando a guerra terminou. "Eu era amargo. Eu participei de uma guerra que eu não queria", lamenta-se.

Depois da guerra, De Boeser foi recomeçar a vida de onde parou e tornou-se um carpinteiro. Hoje, com 78 anos e viúvo, morando em Colônia, junto com outros sobreviventes de guerra, ele diz ter encontrado a reconciliação consigo mesmo.

Determinado a ser amigo dos franceses, ele visita anualmente a St. Mere Eglise, a primeira cidade da Normandia a ser libertada. Em casa, ele mostra um álbum de fotos e lembra a grande amizade de anos com um francês que conheceu ainda criança em Colônia.

Ele credita Hitler por ter salvado a economia alemã, dizendo que antes dos nazistas chegarem ao poder, seu pai estava desempregado por sete anos e sua família geralmente passava fome. Mas ele sabe que o ditador foi horrível.

Ele lembra de estar deitado na sujeira, com medo e desejando ser um inseto, voando em um celeiro, enquanto as bombas americanas zuniam em seus ouvidos.

Para De Boeser, com a perda da guerra e de milhares de jovens companheiros, a derrota não foi nenhuma libertação. Ele diz que o Dia D deveria relembrar sobre o horror da guerra para todos os lados. "Não há razão para celebrar", afirma. "É para se refletir que eram pessoas que morreram. Guerra é algo sem sentido".

Werner Kortenhaus estava na 21ª divisão de blindados alemã, perto de Caen, França, quando aviões de guerra britânicos começaram a atirar sinalizando o início do Dia D. Agora, aos 78 anos, não sente culpa por ter sido um soldado de 17 anos forçado a ir à luta, e não sabe o que uma cerimônia com políticos nascidos depois da guerra tem a ver com ele. "Eu não tenho desejo algum de vê-los falando ao microfone e escutar seus inteligentes discursos e nós apenas como pano de fundo", ironizou.

Alexander Uhlig, 85 anos, comparece aos aniversários na Normandia desde 1997 e vai estar lá este ano, mas não para aplaudir. Ele vai decorar os túmulos de soldados alemães, muitos ainda não identificados, e conhecer aqueles que lutou contra. Incluindo veteranos americanos que, de acordo com ele, o agradeceram por um nobre gesto no campo de batalha que foi ordenar um cessar-fogo para que os americanos pudessem recolher os corpos dos seus soldados mortos.

"Eu sei que nós perdemos a guerra. Nós não estamos indo para nenhuma celebração de vitória", disse. "Eu sinto muito orgulho de ter lutado pelo melhor exército do mundo".

O papel da Alemanha
A exceção do Memorial Day do Holocausto, nenhum aniversário relacionado com a II Guerra é tratado como evento nacional na Alemanha, ou com documentários de TV e edições especiais de revistas, e os 60 anos do Dia D não são diferentes.

Mas "é um dia muito importante para os americanos, franceses e britânicos, então, um alemão ser convidado, significa muito", disse Andreas Etges, historiador da Universidade Pública de Berlim.

Etges destaca que, até recentemente, o fato de a Alemanha ter começado a guerra dificultou lamentar as mortes alemãs ou buscar por justiça para os alemães expulsos do leste da Europa ao final da guerra. "Os alemães mal podiam condenar a destruição de suas cidades pelas bombas aliadas sem serem lembrados que quem começou os bombardeios em cidades foi Hitler".

Em 1985, o presidente americano Ronald Reagan causou comoção internacional ao se juntar a Helmu Kohl, o então chanceler alemão, em uma visita ao cemitério de guerra alemão em Bitburg, onde entre os mortos haviam soldados da SS.

Nove anos depois, os alemães se ofenderam com a recusa dos poderosos aliados em convidar Kohl, que promovia arduamente a reconciliação França-Alemanha, para o aniversário de 50 anos do Dia D.

O irmão mais velho do ex-chanceler alemão foi ferido na Normandia e acabou morrendo mais tarde. Nesta semana, Kohl revelou ter deixado claro para a França que não desejava ser convidado, mesmo diante do fato de a Alemanha reunificada ter se transformado em uma aliada importante dos EUA, da Grã-Bretanha e da França.

Para muitos alemães, no entanto, a lição da II Guerra Mundial foi o profundo período de pacifismo, que fez a Alemanha um dos maiores oponentes da guerra no Iraque. Os alemães, disse Schroeder em um pronunciamento antes da guerra do ano passado, sabem que ditadores precisam ser derrotados, mas "nós também sabemos o que bombardeios, destruição e perda de casas significam para as pessoas". E acrescentou: "os alemães devem a sua história buscar alternativas à guerra".

"Dia D é símbolo de liberdade", diz Schroeder
O chanceler da Alemanha, Gerhard Schroeder, afirmou que os desembarques do Dia D libertaram tanto a Alemanha como a França da tirania nazista. Segundo o dirigente, a data era um símbolo da liberdade e não da vitória ou da derrota.

Schroeder transformou-se no primeiro líder alemão a comparecer a uma cerimônia para celebrar a data, no domingo, dia 6. A invasão, feita pela Normandia (norte da França), acelerou o fim do regime nazista e da Segunda Guerra Mundial (1939-45).

O chanceler disse à Reuters que desejava prestar tributo aos 60 anos de reconciliação na Europa. "A França foi libertada da ocupação alemã e nós, os alemães, fomos libertados da tirania nazista", afirmou Schroeder. "Esse dia é algo mais que uma questão de vitória ou derrota. Ele se transformou em um símbolo da liberdade, da democracia e dos direitos humanos. É natural que os alemães tomem parte das celebrações".

O chanceler, que tinha apenas 2 meses de idade quando as forças aliadas desembarcaram nas praias da Normandia, em 6 de junho de 1944, recebeu o convite para a cerimônia do presidente francês, Jacques Chirac. "Esse foi um gesto generoso e tocante pelo qual sou muito grato e cuja importância histórica não pode ser subestimada", afirmou Schroeder. "Esse convite mostra que o período do pós-guerra está acabado, de uma vez por todas."

Nenhum dos antecessores de Schroeder compareceu a celebrações pelo Dia D, em parte porque alguns alemães viam na data o símbolo de uma derrota militar de grandes proporções.

Cerca de 132.500 soldados aliados desembarcaram nas praias da Normandia para expulsar as forças alemãs da França. Cerca de 8 mil soldados alemães foram mortos no Dia D e 4,5 milhões durante a guerra.

Mas o sentimento mudou nas últimas décadas e a maior parte dos alemães agora vê na derrota nazista a libertação de seu país. Uma pesquisa publicada pela revista Der Spiegel mostrou que 71% dos alemães acreditavam ser correto que seu líder participasse das celebrações pelo Dia D.

"Pessoalmente, acho ser uma grande honra o fato de ter sido o primeiro chanceler alemão convidado para participar (das celebrações)", declarou Schroeder. "Aceitei o convite em nome de todos os que, nos últimos 60 anos, devotaram sua energia à reconciliação, ao perdão e à cooperação".

Schroeder se aproximou de Chirac nos últimos anos, em especial depois de os dois dirigentes terem se oposto aos EUA devido à guerra declarada pelo país contra o Iraque. "O desembarque aliado não foi apenas o ponto de virada da guerra no Ocidente, mas também o ponto de partida para a Europa de hoje", afirmou.

Schroeder nunca conheceu o pai, morto em combate na Romênia aos 32 anos, quatro meses depois do Dia D. Ele viu uma foto do soldado Fritz Schroeder em uniforme militar, pela primeira vez, três anos atrás e ficou assombrado com a semelhança física. "Nasci em 1944, de forma que não me lembro da guerra", afirmou. "Mas perdi meu pai na guerra e isso me tocou de uma forma muito pessoal".

Enquanto líderes de outros países visitarão cemitérios de seus militares na Normandia para homenagear os mortos, Schroeder comparecerá a um cemitério de soldados britânicos, onde 200 militares alemães foram enterrados. O dirigente deve evitar o cemitério de La Cambe, onde há 21 mil soldados alemães enterrados, porque muitos deles pertenciam à odiada SS, a polícia nazista.

Redação Terra
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »