Katrin Bennhold
Paris
A aposentadoria do homem que um dia descartou as câmaras de gás nazistas como "um detalhe histórico" marca o final de uma carreira que influenciou os políticos mais centristas da França durante um quarto de século e conquistou manchetes em toda a Europa.
Le Pen, que chegou ao ponto mais alto de sua carreira ao conquistar vaga no segundo turno da eleição presidencial de 2002, anunciou na quinta-feira que estava pronto a renunciar à liderança de seu partido, a Frente Nacional, e que o faria em 2010 ou no começo de 2011, permitindo que seu sucessor disputasse a presidência pela legenda em 2012. Ele não ocultou sua preferência por sua filha Marine, 40 anos, como sucessora.
"Sou um octogenário vigoroso, mas também sou realista", disse Le Pen em entrevista por telefone na quinta-feira. "Campanhas eleitorais requerem o maior grau de capacidade física e mental, de modo que acredito que seja razoável colocar a próxima geração no comando".
Ele acrescentou que "salvo em circunstâncias excepcionais" - como uma eleição antecipada que parece improvável antes da data que anunciou para sua renúncia -, "eu não disputarei mais a presidência". Le Pen fez o anúncio em uma entrevista à revista semanal Valeurs Actuelles, que saiu na quinta-feira.
Nos 27 anos transcorridos desde que ele primeiro disputou a presidência, o líder da Frente Nacional foi condenado por diversos delitos, entre os quais incitar o ódio racial e bater em uma candidata durante as eleições legislativas de 1997.
Mas ele também aprimorou sua mensagem nacionalista, temperada de lemas antiimigração, pedidos pelo abandono do euro e referências à imoralidade das elites, e tudo isso caiu bem junto ao eleitorado temeroso quanto à globalização e cada vez mais desiludido com a liderança do país. Estimulado pela esquerda para solapar a força da direita mais convencional nos anos 80 e por fim derrotado pelo nacionalismo do presidente Nicolas Sarkozy na eleição do ano passado, Le Pen presidiu a uma ascensão e queda extraordinárias de seu partido.
A primeira oportunidade política da Frente Nacional foi criada por François Mitterrand, o presidente socialista francês que substituiu o sistema de voto distrital francês que mantinha a extrema direita fora do Legislativo por um sistema de representação proporcional, nas eleições legislativas de 1986.
Com as pesquisas demonstrando que os socialistas estavam em desvantagem diante de seus rivais gaullistas, de centro-direita, Mitterrand foi acusado de estimular deliberadamente a ascensão da Frente Nacional, a fim de gerar divisão no voto de direita. Ainda assim, os socialistas saíram derrotados da eleição legislativa, e os gaullistas alteram de novo a lei para sua forma anterior. Mas durante cinco anos o movimento de Le Pen contou com 35 representantes no Legislativo, e isso bastou para transformar sua voz antes marginalizada em um fator estabelecido da política francesa, e cimentou uma base eleitoral de cerca de 10% dos votantes para o partido.
O mais espetacular sucesso de Le Pen aconteceu nas eleições presidenciais de 2002, quando ele inesperadamente superou o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin, conquistando 16,8% dos votos no primeiro turno, antes de ser derrotado de maneira esmagadora pelo presidente Jacques Chirac no segundo turno.
Na campanha presidencial do ano passado, havia quem temesse uma nova surpresa vinda de Le Pen. Mas Sarkozy, que como ministro do Interior pregou tolerância zero contra o crime e fez aprovar diversas leis de restrição à imigração, cortejou abertamente o eleitorado da Frente Nacional, e conquistou entre eles votos suficientes para devolver Le Pen à marca dos 10% e os votos do seu partido a menos de 5% do total de votos válidos, o mínimo requerido para que o governo reembolse as despesas de campanha eleitoral de uma agremiação.
Como resultado, a Frente Nacional tem dívidas de oito milhões de euros e teve de vender sua sede histórica nos subúrbios de Paris - a uma universidade chinesa que pretende instalar lá uma escola de idiomas. De acordo com reportagens, Le Pen mesmo vendeu o carro blindado que era uma de suas marcas registradas, como forma de ajudar o partido a arrecadar fundos.
A derrota esmagadora não deixou dúvida na mente de Le Pen quanto ao principal inimigo da Frente Nacional na próxima eleição. "O homem que representa o maior risco", disse Le Pen na quinta-feira, "é sem dúvida Nicolas Sarkozy". Mas ainda se refere com orgulho a um termo que ganhou espaço no vocabulário francês: a "lepenização" da política. "Sarkozy se saiu bem", ele disse, "porque falava como eu".
Marine Le Pen conta com o apoio não só de seu pai mas de 76% dos eleitores da Frente Nacional, como nova líder, de acordo com uma pesquisa. O estilo dela difere muito do paterno. Ela passou os últimos cinco anos tentando se aproximar das mulheres, dos eleitores mais jovens e até do eleitorado de origens imigrantes. O objetivo é atenuar a imagem extremista e xenófoba do partido e reformá-lo como uma agremiação que poderia chegar ao governo.
"Os cidadãos franceses de origens imigrantes são os primeiros a exigir lei e ordem em seus bairros", disse Marine Le Pen este ano. "Eles amam os valores franceses. São como filhos adotivos - muitas vezes se apegam mais a família que os filhos reais, porque foram eles que a escolheram. Vocês se surpreenderiam se soubessem quantos deles gostam de nós".
Tradução: Paulo Migliacci ME
Herald Tribune