Analista não crê em golpe, mas vê Evo ameaçado

14 de setembro de 2008 • 08h19 • atualizado às 08h21
Evo Morales acena para o público durante parada militar em Cochabamba Foto: Reuters
Evo Morales acena para o público durante parada militar em Cochabamba
12 de setembro de 2008
Foto: Reuters

Moreno Osório

Porto Alegre


A escalada de violência vivida na Bolívia em função do descontentamento de Departamentos que fazem oposição ao governo de La Paz não deve evoluir para um golpe de Estado. Mesmo assim o mandato de Evo Morales está ameaçado. Segundo especialista ouvido pelo Terra, as elites da região da chamada "meia-lua" boliviana conhecem as conseqüências de derrubar um presidente eleito e ratificado democraticamente, mas estão atentas em qualquer "tropeço" de Morales para retirá-lo do poder.

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"O mandato de Morales corre perigo, mas um golpe de Estado pegaria mal. Seria complicado derrubá-lo porque as elites de Santa Cruz estariam diretamente ligadas à iniciativa. O objetivo dos governos oposicionistas é criar uma situação de ingovernabilidade, forçar um erro que possa tirá-lo do poder", afirma o pesquisador Daniel Chaves, do Laboratório de Estudos do Tempo Presente, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para o especialista, os oposicionistas estão sempre "esticando e encurtando a corda" do diálogo.

Na opinião de Chaves, as elites da Bolívia estão sendo irresponsáveis, desrespeitando o Estado, as instituições civis, a polícia e o exército. Segundo ele, enquanto o diálogo era feito entre os ricos, tudo estava bem. "Mas quando surge o projeto indígena de Evo Morales, uma idéia que visa à refundação do Estado boliviano, os problemas começam a aparecer". O especialista lembra que foram os subsídios e a mão-de-obra da região do altiplano dois dos grandes responsáveis pelo processo de industrialização das regiões que hoje são o foco da revolta.

"Reter os recursos nos Departamentos ajuda a manter o quadro de miséria do país, perpetua uma situação de injustiça social. Donos de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, as elites de Santa Cruz ignoram o altiplano e investem na agricultura industrializada voltada para a exportação", analisa. Para o analista, não há interesse dessas regiões em uma agricultura voltada para o mercado interno, o que ajudaria a promover um desenvolvimento sustentável do país. "As elites não legitimam um governo com um projeto social", afirma.

O histórico de baixa institucionalidade do país e as decisões às vezes radicais tomadas por seus líderes podem contribuir para o desgaste do governo Morales. Nesse sentido, Chaves diz que a expulsão do embaixador dos Estados Unidos em La Paz, Philip Goldberg, pode ter sido precipitada. No entanto, ele chama a atenção para os movimentos políticos que não vêm à tona. "Não sabemos o que acontece por baixo dos panos, mas a expulsão levantou os ânimos. Foi uma atitude radical, mas há de se esperar que Morales tenha bons argumentos".

Influência americana

Mesmo com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ameaçando tomar atitudes mais drásticas, como o corte de petróleo aos Estados Unidos, a influência direta de Washington na Bolívia representa uma ameaça maior ao governo Morales, segundo a análise de Daniel Chaves. "Talvez fosse a hora de Chávez ficar calado e ele voltou a falar, mas muito mais complicado que ele é a atuação dos Estados Unidos. Em primeiro lugar por causa das inúmeras ONGs americanas estabelecidas na região da meia-lua. Depois, pela atuação de Goldberg".

Para o especialista da UFRJ, até ser expulso, a presença do embaixador americano era um fator complicador. "Há indícios de que os governadores oposicionistas estavam negociando com Goldberg. Além disso, o diplomata já atuou na Colômbia e no Kosovo, dois países que viveram situações de desgaste do Estado parecidas com a vivida pela Bolívia". Na última semana, ao justificar a expulsão do embaixador, Evo Morales citou a atuação de Goldberg nos Bálcãs. Os Estados Unidos, por sua vez, disseram que as acusações de que seu diplomata estaria incentivando os distúrbios separatistas na Bolívia são infundadas.

Diálogo

Diante da crise, o Brasil tem desempenhado um bom papel, segundo Chaves. "Falta apenas o governo Evo Morales permitir a entrada dos países vizinhos no diálogo. Somente por meio da conversa a situação na Bolívia pode ser solucionada", acredita o especialista. O problema, segundo ele, é a dificuldade de se chegar a um consenso político no país vizinho. "A pressão das elites vai continuar, pois querem criar uma situação de ingovernabilidade". Tal cenário coloca Morales em uma encruzilhada por seu envolvimento com movimentos sociais.

"Os movimentos sociais já deixaram claro que defendem um movimento democrático indígena de esquerda, e não apenas a figura de Morales. Portanto, não vão hesitar em virar as costas ao governo de La Paz se ele não atender aos seus interesses", analisa o especialista. O dilema do presidente está em apaziguar os ânimos e em explicar aos governadores oposicionistas "as razões, e não as imposições" que o levaram a cortar os repasses para os Departamentos do dinheiro obtido dos impostos sobre o gás e o petróleo, entre outras ações do governo.

Redação Terra
 
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