O tempo está se esgotando para a geração Dia D

Soldados feridos pelo fogo nazista no desembarque nas praias da Normandia Foto: Reuters
Soldados feridos pelo fogo nazista no desembarque nas praias da Normandia
02 de junho de 2004
Foto: Reuters

Uma noite reservada para recordação começou com uma observação: quantos nessa sala viveram a libertação da França em 1944? De 400 pessoas, apenas três dúzias de mãos foram vistas erguidas. "Não há muitos de nós, não é?", disse uma voz no meio da multidão. Em Lisieuxm, assim como em qualquer outra cidade da Normandia que foi palco da invasão do Dia D, há 60 anos, o pequeno número de habitantes que viveram esse fato histórico busca preservar suas memórias em mundo transformado.

A diminuição da geração da II Guerra Mundial é, inevitavelmente, o fator principal das comemorações dos 60 anos do Dia D - cujo marco foi a 6 de junho de 1944, quando os aliados invadiram a França ocupada pelo exército nazista de Adolf Hitler. Acuados entre as forças soviéticas no leste e o avanço aliado no oeste, os alemães se entregaram 11 meses depois.

Para muitos, esse 6 de junho é o de maior comemoração - a cada dez anos os líderes mundiais se juntam para lembrar a data.

"Todos nós estamos ficando velhos", disse Michael Accordino, que tinha 20 anos quando desembarcou na primeira onda de tropas na praia de Omaha, com a Companhia A do 299º Batalhão de Engenharia do Exército dos Estados Unidos. Hoje ele está com 80 anos e não sabe quantos dos seus companheiros ainda estão vivos. "Há um tempo já, nós estamos perdendo de 10 a 15 por ano", disse por telefone da sua casa em Buffalo, Nova York. Por isso, ele fez questão de participar da celebração na França.

As comemorações deste ano tiveram como objetivo, em parte, passar a tocha da memória. Muitos estão trabalhando para garantir que os heróis, os assassinos e as lições da guerra mais mortal dos tempos modernos até hoje não sejam esquecidos.

A operação Overlord
Dirigida pelo general americano e futuro presidente Dwight David Eisenhower e pelo comandante britânico Bernard Law Montgomery, a chamada operação "Overlord", que inspirou anos depois vários filmes de Hollywood, mobilizou 156,2 mil homens: 132,7 mil pelo mar e 23,4 mil pelo ar.

No dia do desembarque, um total de 11,5 mil aparelhos sobrevoaram as praias normandas e jogaram quase 12 mil toneladas de bombas. Tudo isso para enfrentar 150 mil alemães posicionados na região, 50 mil deles na região de desembarque.

O desembarque dividiu a região ocupada pelo exército alemão em cinco praias que foram batizadas com os nomes de Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword, denominações usadas pelos habitantes locais até hoje. Segundo o plano traçado, os americanos desembarcariam nas praias de Utah e Omaha, muito próxima de Vierville-sur-mer, e os britânicos ficariam responsáveis pelas praias Gold, perto de Arromanches, Juno e Sword, esta última com a ajuda dos canadenses. Em Juno Beach, a 7ª e 8ª brigadas canadenses enfrentaram uma sólida resistência dos alemães na madrugada de 6 de junho.

Muitas embarcações aliadas foram afundadas ou seriamente danificadas antes de alcançar a praia, mas, graças ao bom conhecimento da região, os soldados canadenses conseguiram entrar na praia às 10h30 depois de terem reduzido a resistência alemã a cinzas.

Em 12 de junho de 1944, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill passou por Juno Beach. O líder da França livre, o general Charles de Gaulle, passou pelo mesmo local dois dias depois.

Sword Beach, perto da cidade de Ouistreham, foi cenário da única participação francesa no desembarque: o comando Kieffer, com 177 fuzileiros das Forças Francesas Livres (FFL), considerados verdadeiros heróis por seus compatriotas.

Batizado de "Port Winston" pelos britânicos, o porto artificial de Arromanches, perto da praia de Gold, foi o principal porto do mundo de julho a novembro de 1944. Por ele desembarcaram as tropas britânicas e transitaram 130 mil toneladas de material.

Na falta de portos naturais, já que Cherburgo foi liberado em 27 de junho e Le Havre em 11 de setembro, os idealizadores do Dia D decidiram construir um porto artificial. Os elementos necessários foram rebocados a bordo de navios pelo canal da Mancha.

Arromanches foi fundamental para o transporte, no menor tempo possível, de milhares de homens, munições e material de primeira necessidade para consolidar os avanços das tropas. Porém, sem dúvida, a memória coletiva lembra especialmente da praia de Omaha, conhecida como "Bloody Omaha" ("Omaha Sangrenta"), onde mais de 3 mil soldados americanos morreram e que serviu de cenário para filmes de grande sucesso como "O resgate do soldado Ryan" ("Saving private Ryan"), de Steven Spielberg.

Omaha era defendida pela 352ª divisão de infantaria alemã e, ao sair da água, os soldados americanos foram recebidos por minas e outros obstáculos que bloqueavam o acesso à praia, abundante em dunas e encostas. As tropas americanas se viram tão dizimadas que a operação este a ponto de ser suspensa, mas os militares conseguiram abrir um foco na defesa alemã e chegaram à cidade de Vierville no final da tarde, deixando para trás milhares de mortos.

Hoje em dia, um monumento de pedra e um gigantesco cemitério militar, cujo solo foi cedido de modo perpétuo aos Estados Unidos, lembram o sacrifício dos soldados em Omaha.

As baixas em batalhas
Os aliados perderam 10 mil homens (entre mortos, feridos e desaparecidos). Do lado alemão, foram cinco mil baixas. A operação deu início à batalha da Normandia, semanas de intensa luta que terminaram com a libertação de Paris, no dia 25 de agosto.

Livrar a França do Exército alemão teve um preço muito caro. Quarenta mil soldados aliados morreram, 200 mil ficaram feridos e 16 mil foram dados como desaparecidos. Do lado alemão, 55 mil morreram, 140 mil ficaram feridos e 200 mil acabaram presos. O povo da Normandia se tornou mártir desta vitória: 20 mil civis perderam a vida sob os bombardeios que reduziram muitas pequenas vilas a montanhas de escombros.

Poderios militares
Efetivos do desembarque: A operação "Overlord" incluiu cinco divisões de infantaria e três aerotransportadas. Ao todo, os efetivos que desembarcaram nas praias normandas em 6 de junho de 1944 chegavam a 156,2 mil homens: 132.715 por mar (57,5 mil americanos e 75.215 britânicos e canadenses) e 23,4 mil por ar (15,5 mil pára-quedistas americanos e 7,9 mil britânicos).

Aviação aliada: Apenas em 6 de junho de 1944, 11,5 mil aviões - 3,5 mil de transporte, 5 mil caças e 3 mil bombardeiros - sobrevoaram as praias normandas e lançaram quase 12 mil toneladas de bombas contra os alemães. Ao todo, 127 aviões foram derrubados e 63 danificados.

Marinha aliada: A operação "Netuno", como foi batizado o ataque por mar, incluiu 6.939 navios de uso logístico, como transporte de alimentos e hospitais flutuantes, e de uso militar (137 navios de guerra, 23 cruzeiros, 221 destróieres e 287 navios-varredores (draga-minas), entre outros). A força usada no desembarque incluiu 4.126 navios organizados em 47 frotas. Uma parte dos barcos, os "Landing craft assault" (LCA), realizou a travessia a bordo de barcos mais potentes e entrou no mar a pouca distância das cinco praias de desembarque. O restante das embarcações atravessou o canal da Mancha por seus próprios meios.

Efetivos alemães: Cerca de 150 mil homens do VII exército estavam em toda Normandia, 50 mil deles na área do desembarque. Perto das praias havia apenas uma divisão blindada, a 21ª, e seis divisões de infantaria.

Aviação alemã: Menos de 500 aparelhos estavam disponíveis e uma boa parte foi enviada ao leste. Só ficaram nas praias algumas dezenas de bombardeiros e caças.

Marinha alemã: 30 lanchas, 4 destróieres, 9 torpedeiros e 35 submarinos.

Mágoas francesas
Mas além dos sobreviventes, das entrevistas, e dos tantos novos livros que estão sendo lançados para marcar esse aniversário, coloca-se grande ênfase na destruição que a Normandia sofreu com os ataques aliados para destruir as defesas nazistas.

Somente Lisieux perdeu 1,2 mil dos seus 16 mil habitantes e ficou com 12 mil desabrigados, de acordo com dados do museu Memorial Caen e a dor dessas perdas ainda é evidente na multidão reunida em um salão da cidade de Victor Hugo no mês passado.

O professor de história aposentado Jean-Denis Gautie tinha 9 anos quando os aliados invadiram a cidade. "Sessenta anos depois, eu ainda sinto um aperto no peito ao me lembrar daqueles aviões", disse, durante discurso para a audiência.

Até o Dia D, Lisieux havia escapado do pior da guerra, e quando os bombardeiros aliados sobrevoavam a cidade "nós nos sentimos satisfeitos - porque aquilo era para os alemães", disse. "Porque nós não tínhamos sido bombardeados e concluímos que não seríamos, que éramos invulneráveis".

Andree Plassart, 81 anos, disse: "Eu fui muito, muito, muito bruto com o primeiro americano que chegou ... Ele não parecia tocado pelas vidas das pessoas que tinham morrido".

Marceau Grandin, que tinha 12 anos em 1944, se levantou para dizer que nunca entendeu "o interesse estratégico de esmagar uma cidade como Lisieux, quando sabíamos que todos os comboios alemães andavam ao redor dela, pelas estradas". Mesmo assim, ele acrescenta: "isso não diminui o agradecimento no meu coração aos soldados que morreram por nossa libertação".

Os eventos deste ano também são marcados pela guerra no Iraque. "Os americanos vieram para cá e venceram, então entendemos que eles gostariam de fazer o mesmo em outros lugares", disse o reverendo Rene-Denis Lemaigre, padre de Lisieux. "Mas, ao mesmo tempo, minha opinião é que não é dessa maneira que os problemas podem ser solucionados no século XXI".

Tragédia em números
A operação "Overlord" marcou também o começo de uma interminável onda de bombardeios aliados sobre cidades e infra-estruturas, com o propósito de acabar com o inimigo. Só na primeira semana de setembro, caíram 9.790 toneladas de bombas sobre o porto normando de Le Havre, deixando entre 2,5 mil e 3 mil mortos. Os números variam sobre a quantidade de civis mortos na Batalha da Normandia, que terminaria em 22 de agosto de 1944, com a captura de Falaise.

O balanço da Batalha da Normandia é de 24 mil civis mortos, segundo o especialista Eddy Florentin, e de 50 mil, segundo Henri Amouroux em "A grande história dos franceses sob a ocupação". Nunca se pôde estabelecer com precisão o número de vítimas civis. Se fossem 50 mil, ultrapassariam as baixas militares aliadas (41 mil, sendo 20 mil americanos, 16 mil britânicos e cinco mil canadenses).

Sabe-se que, durante a Batalha da Normandia, britânicos e norte-americanos soltaram 22,5 mil toneladas de bombas, ou seja, segundo Florentin, "o equivalente à bomba atômica de Hiroxima". Entre elas, as que começaram a cair sobre a cidade de Caen enquanto os mais de cinco mil navios cruzavam de noite o canal da Mancha para o litoral normando, em 6 de junho de 1944.

O chamado "martírio de Caen" durou 33 dias, até que os canadenses tomaram a margem esquerda do rio Orne, em 9 de julho. As bombas e os disparos de artilharia mataram em Caen pelo menos 2,3 mil civis (outros falam em 5,8 mil). Nove mil imóveis foram arrasados e outros quatro mil danificados, de um total de quinze mil. A cidade foi destruída em mais de 70%, com bairros inteiros apagados do mapa. E Caen não foi uma exceção.

Os historiadores assinalam que, salvo Bayeux, libertada sem danos em 7 de julho, não houve quase nenhuma cidade ou localidade normanda que escapasse dos bombardeios aliados. Saint-Lo, atual capital do Departamento da Mancha, foi destruída em 95%. Isto correspondia a uma estratégia global definida por militares britânicos e americanos em 1942: "nossa tarefa principal é o bombardeio. A melhor defesa é o ataque".

Diferente da Alemanha, onde os bombardeios pretendiam destruir alvos militares e econômicos mas também semear o terror entre civis, na França, o alvo deveria ser o inimigo, além das fábricas que participassem de seu esforço de guerra e as infra-estruturas ferroviárias ou viárias. É certo que fábricas e vias de transporte estavam próximas ou dentro dos centros de população, mas continua aberto o debate sobre se as "necessidades da guerra" exigiam tanta destruição e sofrimento.

Boas-vidas
Mesmo assim, esse debate não afetou a calorosa recepção aos veteranos americanos e a outros convidados na Normandia. "Bem-vindos nossos libertadores", aparece escrito em uma faixa em um restaurante de Lisieux.

Quando foi feito um chamado para abrigar 110 visitantes durante as comemorações, 750 moradores responderam. "Pessoas ligavam todos os dias", disse a responsável pelo comitê de boas-vindas da Normandia, Claire Thomine. "As famílias estão felizes em poder receber em suas casas os veteranos e ficam até desapontadas se não há nenhum para elas".

Lembrar os mortos
Na Normandia, as frias sepulturas em silenciosos cemitérios lembram os custos do conflito. No cemitério St.-Desir, fora de Lisieux, jazem 3.735 alemães. Os que não foram identificados têm em suas lápides uma cruz de pedra escrita em alemão: "Ein Deutscher Soldat" (um soldado alemão).

Apenas a um campo florido de distância, em um cemitério aliado, descansam 598 britânicos, canadenses, australianos, sul-africano, neozelandeses e americanos mortos na II Guerra, além de quatro bretões da I Guerra Mundial.

Eles representam apenas uma pequena fração do alto preço humano do Dia D e dos três meses seguintes que os aliados levaram para assegurar a captura da Normandia. Cerca de 215 mil aliados foram mortos ou feridos e, aproximadamente, o mesmo número do lado alemão. Mais de 19 mil civis franceses morreram.

"Todas as gerações aqui são profundamente marcadas", disse Michel Frilley, um fazendeiro francês, ao visitar o cemitério alemão com sua mulher e amigos. Ele nasceu dois dias depois de seu pai ir lutar contra os nazistas em 1939 e só o conheceu seis anos depois, quando retornou após ser feito prisioneiro de guerra. "Mesmo quando todos os veteranos morrerem, a memória continuará viva".

Contadores de histórias
Onze mil pessoas de todas as idades participam dos eventos em dezenas de cidades da Normandia. Os jovens vêem esse momento como uma última oportunidade de ouvir as histórias, e a geração Dia D sente-se entusiasmada em contar suas memórias.

"Eu nasci em 1948 e achei que já tinha ouvido tudo", disse o prefeito de St.-Lo, Francois Digard, outra cidade duramente bombardeada. Mas "este ano há quem sinta, talvez pela idade avançada, um grande desejo de falar de histórias que são novas, desconhecidas até agora".

Na escola Boris Vian, em Mezidon-Canon, a 25 quilômetros de Lisieux, uma sala cheia de atentos adolescentes enchia o veterano Jacques Vico de perguntas: como os tanques aliados chegaram na costa? Você se machucou? Qual o papel das mulheres na Resistência?

Após duas horas, o professor pergunta se os alunos já não tinham ouvido tudo, seguido de um unânime "Não!". Muitos, inclusive, seguiram na sala após o término da aula. Vico disse que a luta da sua geração foi contra o nazismo e a da geração de hoje é contra o racismo e o anti-semitismo na França. "A Resistência nunca termina", disse. "Há injustiças hoje que vocês não devem aceitar".

Cerimônias e convidados ilustres
O presidente francês Jacques Chirac celebra a cerimônia de 6 de junho em Arromanches, cidade onde as tropas desembarcaram por uma das cinco praias e conta com a presença do presidente norte-americano George W. Bush, do primeiro-ministro britânico Tony Blair, bem como do chanceler alemão Gerhard Schroeder e do presidente russo Vladimir Putin.

Para alguns, a presença de um líder alemão entre os VIPs é algo chocante. Outros, no entanto, acham que a atitude é encorajadora - um símbolo da paz, de uma Europa unida renascida das cinzas da II Guerra Mundial.

Vico está entre os que criticam essa presença. "É inapropriado, não é nem o momento, nem o lugar", diz. "Nós não devíamos ser feitos de bobos". O desembarque, ele acrescenta, foi apenas o começo; os alemães não se renderam até 8 de maio de 1945.

Mas na União Européia, França e Alemanha são aliadas no papel central, e representantes bem como cidadãos franceses, acham que já está na hora de deixar o passado descansar. "Nós temos que evoluir", diz o fazendeiro Frilley.

O fim da Guerra Fria também vai ser destacado pela primeira vez que um líder russo, o presidente Vladimir Putin, participa das cerimônias na Normandia, enquanto a atual realidade do Iraque fará com que o presidente Bush esteja no grupo dos VIPs menos populares, mesmo que o seu país tenha conduzido a libertação da França.

Frases famosas sobre o Dia D
"Povo da Europa Ocidental: um desembarque foi feito na manhã de hoje na costa francesa pelas tropas da Força Expedicionária Aliada. Esse desembarque é parte do plano das Nações Unidas para libertar a Europa, feito em conjunto com os grandes aliados russos ... Eu convoco a todos que amam a liberdade a ficarem conosco. Mantenham a fé sólida. Nossas armas são determinantes. Juntos nós conseguiremos alcançar a vitória", transmissão do discurso do General Dwight D. Eisenhower, em 6 de junho de 1944

"Que plano! Esta vasta operação é, sem dúvida, a mais complicada e difícil já realizada", palavras do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, na Câmara dos Comuns, em 6 de junho de 1944.

"Nós atiramos em tudo que se mexia. A praia estava logo coberta de corpos de soldados americanos", soldado alemão Franz Gockel, ao escrever para sua família em 10 de junho de 1944, sobre os quatro dias de luta na praia de Omaha.

"Havia outro rapaz ao meu lado e nós fomos os primeiros a descer do barco. Eu fui, imediatamente, para a água. Era raso o suficiente para eu me levantar. Não havia nada. Nenhum corpo, porque nós éramos os corpos", Michael Accordino, que desembarcou na primeira leva com a Companhia A do 299º batalhão de combate do exército americano, na praia de Omaha.

Redação Terra
 
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