Sarkozy e Papa reafirmam raízes cristãs da Europa

12 de setembro de 2008 • 08h33 • atualizado às 11h34
O presidente Nicolas Sarkozy (esq.) cumprimenta o papa Bento XVI no aeroporto de Orly, nas proximidades de Paris Foto: Reuters
O presidente Nicolas Sarkozy (esq.) cumprimenta o papa Bento XVI no aeroporto de Orly, nas proximidades de Paris
12 de setembro de 2008
Foto: Reuters

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, afirmou nesta sexta-feira que abrir mão das religiões seria uma "loucura" e que a França assume suas "raízes cristãs", durante um discurso pronunciado no palácio do Eliseu diante do Papa Bento XVI, pouco depois de sua chegada a Paris. O discurso de Sarkozy foi confirmado pelo Papa.

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"Seria uma loucura nos privarmos das religiões, simplesmente uma falta contra a cultura e o pensamento. Por isso defendo um laicismo positivo", disse Sarkozy.

"Não colocamos ninguém diante de ninguém, mas assumimos nossas raízes cristãs", completou. "É legítimo para a democracia e respeitoso com o laicismo dialogar com as religiões. As religiões, e sobretudo a religião cristã, com a qual compartilhamos uma longa história, são patrimônios vivos de reflexão", acrescentou.

"O laicismo positivo, o laicismo aberto, é um convite ao diálogo", insistiu Sarkozy.

Já o papa Bento XVI foi além e disse que, tanto as raízes da França quanto as da Europa "são cristãs", e defendeu uma "laicidade positiva" para uma "compreensão mais aberta" da Igreja e do Estado, após indicar que "a desconfiança do passado se transformou em um diálogo sereno e positivo".

Bento XVI também tocou no tema na França laica das relações da Igreja com o Estado, destacando que a Igreja neste país tem um "regime de liberdade", e que "a desconfiança do passado se transformou gradativamente um diálogo sereno e positivo que se consolida cada vez mais".

"O senhor presidente utilizou a expressão 'laicidade positiva' para designar esta compreensão mais aberta e, neste momento histórico no qual as culturas se entrecruzam cada vez mais, estou convencido de que uma nova reflexão sobre o significado autêntico e a importância da laicidade é cada vez mais necessária", afirmou Bento XVI.

Segundo o papa, "é fundamental insistir na distinção entre o âmbito político e o religioso para tutelar tanto a liberdade religiosa dos cidadãos quanto a responsabilidade do Estado em relação a eles" e, por outro lado, ter "uma clara consciência das funções insubstituíveis da religião para a formação das consciências".

O papa se mostrou convencido da contribuição da religião para a criação de um "consenso ético" na sociedade.

Bento XVI disse também que os jovens são sua maior preocupação e, após ressaltar as dificuldades de alguns para encontrar uma orientação que lhes convenha ou o sofrimento por uma perda de referência familiar, disse que é necessário oferecer-lhes um bom marco educativo e que a Igreja pode dar neste campo uma contribuição específica.

O pontífice também expressou sua preocupação com a situação social do Ocidente, "infelizmente marcada por um avanço da distância entre ricos e pobres".

Sobre isso, disse que é preciso encontrar soluções justas que vão proteger os fracos e promover sua dignidade.

Assim como em viagens anteriores, o papa se referiu também ao meio ambiente, ao indicar que se "preocupa" com a situação do planeta, e disse que "é preciso aprender a respeitá-lo e a protegê-lo ainda mais".

Bento XVI também falou sobre a União Européia, e indicou que, quando o europeu experimentar pessoalmente que os direitos inalienáveis do ser humano, de sua concepção até a morte natural, assim como os que concernem à educação, vida familiar, trabalho e direitos religiosos, são promovidos e respeitados, então compreenderá "a grandeza da construção" do bloco europeu.

Nessa parte do discurso, o papa voltou a defender a vida e a condenar o aborto e a eutanásia.

Além disso, Bento XVI expressou sua preocupação com o ressurgimento de velhos receios, tensões e contraposições entre nações, "das quais hoje somos testemunhas, com preocupação".

Embora não tenha dado nomes, os observadores políticos viram nessas palavras do papa uma referência implícita ao conflito no Cáucaso.

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