Elaine Dutch diz que se afastou dos amigos após os ataques de 11 de setembro |
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Em um dia quente de verão, ela usava atraentes sandálias de salto alto, calças brancas e uma blusa azul de manga longa, deixando expostos apenas seus pés e mãos. Boa parte de sua pele guarda diversas cicatrizes. "São as minhas tatuagens," ela disse com um sorriso triste, como se fossem uma lembrança permanente de uma juventude despreocupada. Só que no seu caso, salientou, elas não podem ser apagadas "com laser".
Em 11 de setembro de 2001, Manning - recém-casada, mãe de um menino de 10 meses e no auge de sua carreira em Wall Street - foi atingida por uma bola de fogo quando passava pelo saguão do World Trade Center.
Num dia em que os hospitais da cidade de Nova York aguardavam em vão uma avalanche de vítimas que, em sua maioria, acabaram morrendo no momento do desmoronamento das Torres Gêmeas ou perdidas no holocausto de cinzas, Manning estava entre os poucos, em geral esquecidos, que se feriram gravemente, mas sobreviveram.
Diante das 3.000 mortes, foi fácil deixar de prestar atenção na relativa minoria da qual fazia parte Manning, que sofreu queimaduras em 80% de seu corpo, passou semanas à beira da morte e meses internada no hospital New York-Presbyterian.
Embora o pior ataque terrorista aos EUA já esteja se apagando de muitas memórias às vésperas de seu sétimo aniversário de luto, para essas vítimas, ele continua sendo uma realidade rotineira, estando gravado na sua aparência, sua constante dor e na consciência de que são profundamente sortudas e inexoravelmente desgraçadas.
Manning, 47 anos, cuja história veio a público sob forma de um best-seller baseado em e-mails que seu marido Greg enviava à família e amigos, agora retorna a uma vida mais parecida com sua antiga. Mas ainda existem muitas coisas que ela não consegue fazer.
Ela não pode levar para passear sua cadela terrier, Caleigh, que pesa apenas 13kg, mas "puxa muito," nem cozinhar uma refeição elaborada, pois qualquer corte em sua pele cicatrizada poderia causar uma infecção. Ela também não pode aplicar glitter nem prender os ganchos dos enfeites durante as atividades de recreação natalina da primeira série, em que estuda seu filho.
"Graças às pessoas com quem convivo, consigo levar uma vida que, à primeira vista e sob muitos aspectos, parece mais normal do que de fato é," Manning disse recentemente. "Meu marido, ele tem sido as minhas mãos."
Uma longa jornada
Não há um cálculo exato de quantas pessoas foram seriamente feridas no dia do ataque. Dos US$ 7 bilhões distribuídos pelo Fundo de Compensação às Vítimas de 11 de Setembro, do governo federal, US$ 6 bilhões foram destinados a famílias de vítimas fatais do World Trade Center, do Pentágono e do avião que caiu na Pensilvânia
O US$1 bilhão restante foi para os feridos. A maioria deles eram bombeiros e a maior parte dos pagamentos foi para as vítimas de doenças respiratórias. Para as vítimas de queimaduras, foram destinados 40 dos 2.680 pagamentos a feridos. Dezoito pessoas com queimaduras de maior gravidade foram levadas para o hospital New York-Presbyterian. Doze delas sobreviveram.
Alguns, como Manning e Harry Waizer, ambos funcionários da Cantor Fitzgerald, recuperaram o senso de equilíbrio. Para outros, como Elaine Duch, que era assistente administrativa sênior do departamento imobiliário da comissão de transportes de Nova York e Nova Jersey, a vida antes e depois do ataque tem uma demarcação clara.
Duch, 56 anos, se afastou dos velhos amigos, em parte porque, como ela afirmou, "nunca mais serei a Elaine que costumava ser." De seus amigos atuais, Duch disse, "bom, veja só, eles não me conheciam antes, eles só me conhecem como a pessoa que se feriu."
Hoje em dia, ela vai até a costa de Nova Jersey com sua irmã gêmea e uma mulher que a viu no noticiário e lhe enviou cartões e cartas todos os dias durante os cinco meses em que passou na reabilitação.
Ela não pode mais dirigir porque suas mãos são muito fracas e ela se assusta com facilidade. Ela evita zíperes, botões pequenos e não abre caixas de cereal. Ela sofre no verão e no inverno porque sua pele queimada não tolera calor nem frio.
"Me sentia jovem quando tudo aconteceu e agora me sinto velha," Duch disse. "Sinto como se minha vida no passado tivesse sido outra."
Como não pode mais trabalhar, é como se sua alma profissional continuasse assombrando os andares da Torre Norte, onde ela estava quando as chamas atingiram o prédio; ela conseguiu descer, apenas para receber os últimos sacramentos de um padre assim que saiu do edifício. "Ainda estou presa no 88º andar," ela disse. "Lá é meu escritório."
Seus dias são preenchidos basicamente pela fisioterapia e psicoterapia. Duch agora pinta, segundo ela, numa busca por sua beleza interior. Ela vendeu sua casa e comprou um apartamento em Bayonne, Nova Jersey. Ela tingiu seu cabelo loiro de preto.
"Fico feliz em comemorar cada aniversário," Duch disse. "Nunca, mas nunca mesmo, voltarei a ser a Elaine que era, mas eu poderia ter morrido aos 49."
Diferente de Duch, Waizer, voltou a trabalhar como advogado fiscal na nova matriz da Cantor Fitzgerald em Manhattan. Devido aos seus ferimentos, ele reduziu o ritmo e as responsabilidades; ele não é mais o chefe do departamento fiscal, no entanto, afirmou, nunca ligou muito para títulos.
"Quando você fica no hospital o tempo que fiquei e depois em casa por mais um longo período, você pensa sobre o que quer fazer com a sua vida," disse Waizer, 57 anos, que passou cerca de dois anos e meio se recuperando de queimaduras antes de voltar para o trabalho. "Percebi depois que, embora ainda me fizesse essa pergunta, e como muitas pessoas, ela permanecerá comigo, gostava do que fazia."
Em testemunho à Comissão do 11/09 no seu primeiro dia de audiência em 2003, Waizer contou que, ao subir até seu escritório no 104º andar, sentiu uma explosão e o elevador começou a despencar. Waizer sofreu queimaduras enquanto vencia as chamas, chegou ao 78º andar e desceu até o térreo pelas escadas, vendo horror e compaixão nos rostos daqueles que o deixavam passar.
Ele tinha 5% de chance de sobreviver. Fora a dor nas costas, as cicatrizes e os danos nos nervos, Waizer recuperou o senso de normalidade física e, com um humor gentil, diferencia sua recuperação da de Manning dizendo, "nunca fui tão bonito quanto ela."
Talvez o vestígio mais notável de seus ferimentos seja sua voz suave e sussurrada, possivelmente decorrente da inalação do combustível do avião, que o deixou com "um pouco de paralisia nas cordas vocais."
Waizer vive em Edgemont, no condado de Westchester, Nova York, e tem três filhos, de 17, 19 e 20 anos. Ele disse que a experiência de 11/09 fortaleceu os laços com sua esposa, Karen, e ampliou seu senso moral. " Para mim, é mais importante ser uma boa pessoa," Waizer disse.
Após os pesadelos
Love, Greg & Lauren (Com Amor, Greg & Lauren) é uma narrativa dos três meses seguintes aos ataques terroristas, sob o ponto de vista do marido de Lauren Manning. Greg Manning, que na época era vice-presidente sênior da Euro Brokers, na Torre Sul - mas que estava em casa com o bebê naquela manhã - mandava e-mails diários aos amigos, descrevendo seus esforços para se conectar com a esposa em coma por meio de música, poesia e beisebol.
O diário íntimo também detalha os momentos críticos da recuperação de Lauren Manning após voltar à consciência - suas primeiras palavras foram "Oi, Greg,", dia 12 de novembro - e lentamente entender o que havia acontecido.
O relato termina em meados de dezembro de 2001, quando Lauren Manning deixou o hospital para um centro de reabilitação. O casal concordou em falar sobre suas vidas desde então, dando seqüência ao diário, mas pediram que o encontro acontecesse na sede da Random House, a editora do livro, ao invés de sua casa.
Lauren Manning adentrou a sala de conferência envidraçada meio passo à frente do marido, sorrindo e oferecendo uma de suas mãos, que foram seriamente queimadas ao empurrar as portas do saguão em sua fuga.
Ela afirma que passou o primeiro mês em coma induzido, tendo visões em que caía pelo espaço em direção a uma escuridão fria e assustadora, quase sendo atravessada por estalagmites, só se salvando, repetidamente, no último minuto, ao aterrissar em terra firme. Agora os pesadelos acabaram. "Durmo bem," Manning disse. "Sonho com o que preciso fazer no futuro."
Ela é pequena como um pássaro. Seu rosto é sutilmente diferente da fotografia de capa do livro, como se fosse o reflexo em um espelho levemente embaçado, mas ainda reconhecível, da mulher chamada pelo marido de "a princesa loira da rua Perry" quando moravam em Greenwich Village. Sua maquiagem é discreta, suas sandálias de tiras, uma conquista (não mais os calçados ortopédicos que davam suporte aos tornozelos).
Segundo ela, as piores cicatrizes estão em suas costas, ainda que não a impeçam de usar roupa de banho. O marido afirma que a personalidade dela parece apagar as cicatrizes físicas: "As pessoas olham para ela e não as vêem."
Compassivamente, o passado se distancia. Greg Manning disse que não se lembra mais de todas as palavras de My Love Is Like a Red, Red Rose, o poema que recitava para sua esposa como um hino enquanto ela estava inconsciente.
Eles se recusaram a dizer quanto receberam do Fundo de Compensação às Vítimas, mas se mudaram para um bairro melhor no ano passado. Lauren Manning, diretora de dados do mercado global na Cantor Fitzgerald antes do ataque, disse que estava "em marcha lenta agora" e que não se sentia bem por não estar trabalhando, pela primeira vez em sua vida. "Você pode," disse seu marido.
Ela ainda acompanha os mercados como hobby, trabalha com o fundo de assistência de 11/09 da Cantor Fitzgerald e coleciona arte. Ela se entusiasma ao falar sobre John Wesley, e admira o "humor astuto" e erotismo do artista pop.
Greg Manning deixou seu trabalho em Wall Street em julho para se dedicar exclusivamente a escrever; ele disse que ainda não havia definido o primeiro projeto.
O filho, Tyler, está aprendendo a tocar Led Zeppelin no violão, seguindo os passos de seu pai, que toca baixo em uma banda chamada Rolling Bones. Tyler quer que sua banda se chame Bloody Eyes ou Flaming Togas. Ele quer ser médico quando crescer. Lauren Manning não analisa demais as coisas.
Ela se deleita com pequenos prazeres, como ler para Tyler (o fantástico mundo apocalíptico de "Gregor the Overlander" é seu atual favorito) e levá-lo para brincar com os amigos e para o futebol. Às vezes, o menino pergunta à mãe, "Por que você tinha que trabalhar naquele lugar?"
Seu pai responde. "Foi algo que só acontece uma vez na vida," Greg Manning diz a seu filho. "Ela superou isso. Ninguém pode prever o futuro."
Tradução: Amy Traduções
The New York Times