Egito: boatos sobre 11/9 ganham peso de verdade

09 de setembro de 2008 • 16h57 • atualizado às 16h57

Michael Slackman

Estados Unidos


Passados sete anos, a opinião dominante no Oriente Médio continua a ser a de que Osama bin Laden e a Al-Qaeda não podem ter sido os únicos responsáveis pelos ataques de 11 de setembro de 2001, e que os Estados Unidos e Israel também estiveram envolvidos em seu planejamento, se não em sua execução.

Não se trata de uma conclusão científica, mas é a opinião que surge rotineiramente nas conversas da região - em um shopping center em Dubai, em um parque em Argel, em um café em Riad e em qualquer lugar do Cairo.

"Veja, não acredito no que seus governos e imprensa dizem. Não pode ser verdade", diz Ahmed Issab, 26 anos, um engenheiro sírio que vive e trabalha nos Emirados Árabes Unidos. "Por que eles diriam a verdade? Acredito que os Estados Unidos tenham organizado isso de modo a ter uma desculpa para invadir o Iraque em busca de petróleo".

É fácil para os norte-americanos desconsiderar esse tipo de raciocínio como bizarro. Mas isso equivaleria a ignorar um ponto de que as pessoas dessa região do mundo acreditam os líderes ocidentais, especialmente em Washington, deveriam compreender: o de que a persistência de idéias como essas representa o primeiro fracasso na luta contra o terrorismo - a incapacidade de convencer as pessoas do Oriente Médio de que os Estados Unidos estão travando de fato uma campanha mundial contra o terrorismo, e não uma cruzada contra os muçulmanos.

"Os Estados Unidos deveriam estar preocupados porque, a fim de que possam dizer aos povos da região que existe um perigo real, é necessário que esses povos acreditem na mensagem, ou de outra forma eles não se disporão a ajudar", disse Mushairy al-Thaidy, colunista do Asharq al Awsat, um jornal saudita vendido em toda a região. "De outra maneira, sua capacidade de combater o terrorismo ficará diminuída. Não se trata do tipo de batalha que seja possível travar sozinho. É uma batalha coletiva". Existem muitos motivos para que as pessoas aqui digam acreditar que os ataques do 11 de setembro sejam uma conspiração contra os muçulmanos. Alguns desses motivos nada têm a ver com as ações ocidentais, e outros são completamente dependentes das políticas adotadas pelo Ocidente.

As pessoas do Oriente Médio não se cansam de repetir que simplesmente não acreditam que um grupo de árabes - pessoas como eles - tenham sido capazes de conduzir uma operação de tamanho sucesso contra uma superpotência como os Estados Unidos. Mas eles também afirmam que a política externa norte-americana posterior ao 11 de setembro representa prova de que os Estados Unidos e Israel estavam por trás dos ataques, e esse sentimento é especialmente forte no que se refere à invasão do Iraque.

"Talvez as pessoas que executaram a operação sejam árabes, mas o s cérebros por trás dela? De jeito nenhum", diz Mohammed Ibrahim, 36 anos, dono de uma loja de roupas no bairro de Bulaq, Cairo. "Isso foi organizado por outras pessoas, pelos Estados Unidos ou pelos israelenses".

Os rumores que começaram a circular depois do 11 de setembro foram tão difundidos e repetidos que as pessoas nem se recordam mais quando os ouviram pela primeira vez. Hoje, elas já os ouviram tantas vezes, até mesmo na televisão, que acreditam que devam ser verdade.

O primeiro deles é que os judeus não foram ao World Trade Center no dia do ataque. Perguntados de que maneira os judeus teriam sido notificados a permanecer em casa, ou sobre como eles teriam mantido o segredo com relação ao ataque diante de seus colegas de trabalho, os cidadãos do Oriente Médio que acreditam nos boatos simplesmente desconsideram as dúvidas, porque elas contrariam a sua crença primordial e mais sólida, a de que os judeus estão por trás de muitos de seus problemas, e que muitos judeus do Ocidente se disporiam a qualquer coisa para proteger Israel. "Por que os judeus daquele edifício não foram trabalhar no 11 de setembro?", questiona Ahmed Saied, 25 anos, que trabalha como motorista para um advogado, no Cairo. "Todo mundo sabe disso. Vi a notícia na TV, e as pessoas todas falam sobre isso".

O eletricista Zein al-Abdin, 42 anos, estava tomando chá e fumando uma sucessão de cigarros Cleopatra, uma marca barata, no Al Shahat, um café no bairro de Bulaq, e sua animação foi crescendo à medida que ele expunha seu raciocínio sobre o que aconteceu no 11 de setembro.

"O que importa é que nos acreditamos que tenha sido um ataque contra os árabes", ele disse sobre as colisões entre os jatos de passageiros e alvos nos Estados Unidos. "Por que é que ele nunca foi apanhado, Bin Laden? Como é que eles podem não saber onde ele está, quando sabem de tudo? Não o apanham porque não foi ele que comandou a operação. O que aconteceu no Iraque confirma que isso nada teve a ver com Bin Laden ou a Al-Qaeda. Eles decidiram atacar os árabes e o islamismo, e tudo isso a serviço de Israel, se você quer saber o motivo".

Existe um motivo para que muitas pessoas aqui falem com um tom de completa certeza - e sem qualquer sinal de embaraço - sobre um suposto ataque norte-americano contra os Estados Unidos mesmos como pretexto para uma agressão contra os árabes a serviço de Israel. Isso é um reflexo de como eles encaram os líderes governamentais, e não só em Washington, mas aqui no Egito e no restante do Oriente Médio. Não acreditam neles. Os veículos de mídia estatal também são alvo de desconfiança. Ou seja, os moradores do Oriente Médio acreditam que, se um governo insiste em que Bin Laden foi o responsável pelo ataque, isso prova com toda certeza que não é ele o culpado.

"Mubarak diz qualquer coisa que os norte-americanos desejem que ele diga", disse Ibrahim sobre o presidente egípcio Hosni Mubarak.

Os norte-americanos poderiam começar a compreender melhor a região, afirmaram especialistas locais, caso simplesmente se dispusessem a ouvir o que o povo está dizendo - e tentassem compreender o motivo para essas opiniões, em lugar de se ofenderem. A visão dominante na região é a de que, mesmo antes dos ataques do 11 de setembro, os Estados Unidos não estavam agindo como um intermediário honesto no conflito entre árabes e israelenses, e que aproveitaram os ataques como pretexto para reforçar ainda mais a posição israelense e solapar o mundo muçulmano árabe.

A maior prova isolada disso tudo, aos olhos das pessoas comuns, é a invasão ao Iraque. Tentar convencer os moradores do Oriente Médio de que ela não representou uma tentativa de capturar fontes de petróleo ou uma guerra contra os muçulmanos é tarefa equivalente a de tentar convencer muitos norte-americanos de que a guerra representa exatamente isso, e de que os ataques de 11 de setembro foram o primeiro passo no processo.

"Isso resulta de uma desconfiança generalizada e da crença, entre os árabes e muçulmanos, de que os Estados Unidos têm preconceito contra eles", disse Wahid Abdel Meguid, diretor assistente do Centro Al Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos, uma organização financiada pelo governo egípcio e uma das instituições acadêmicas mais respeitadas do país. "Por isso, elas jamais imaginam que os Estados Unidos tenham boas intenções, e sempre sentem que existe algo de oculto por trás".

Hisham Abbas, 22 anos, estuda turismo na Universidade do Cairo e espera, no futuro, ganhar a vida trabalhando com estrangeiros. Mas não hesita nem um pouco, diante de uma pergunta sobre o 11 de setembro. Afirma que não faz sentido algum que Bin Laden tenha executado os ataques, do Afeganistão. E como todos os demais entrevistados, ele vê os eventos dos sete últimos anos como prova conclusiva de que tudo não passou de um plano norte-americano para agredir os muçulmanos.

"Existem árabes que odeiam os Estados Unidos, e muitos deles, mas isso é demais", disse Abbas, mexendo nervosamente em seu celular. "E vejam o que aconteceu depois disso: os norte-americanos invadiram dois países muçulmanos. Usaram o 11 de setembro como desculpa para invadir o Iraque. Mataram Saddam, torturaram pessoas. Como se pode confiar neles?"

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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