Análise: EUA pretendem colocar Rússia "na linha"

09 de setembro de 2008 • 12h45 • atualizado às 16h41

John Vinocur

Rússia


John McCain causou reação entusiástica na convenção do Partido Republicano, na semana passada, ao convocar os Estados Unidos a "erguerem-se em defesa" de uma lista de reformas e causas aparentemente nobres e/ou necessárias. Um item que não constava da lista era a República da Geórgia, invadida, ameaçada e agora rapidamente se transformando em símbolo da impunidade com que a nova era de agressão russa vem sendo recebida.

Em lugar disso, McCain ofereceu à Geórgia "nossas orações e nossa solidariedade". Vindo de um homem que estava declarando seu credo diante do país (e que afirmou meses atrás que seu primeiro ato como presidente seria criar uma liga internacional de democracias das quais a Rússia estaria excluída), isso representa um recuo - de remédio forte a uma mistura de banhos de sol, águas minerais e meditação.

E a atitude de fazer praticamente nada que imprimisse na consciência de Moscou a idéia de que a invasão é intolerável - e, mais, que repeti-la nos países bálticos, na Ucrânia ou na Moldova seria inconcebível em termos do preço imenso que os russos teriam de pagar - conta além de McCain com a adesão de Barack Obama.

"Agora é o momento da ação, e não apenas de palavras", disse Obama (em sua terceira tentativa), logo depois da invasão. Mas, nos 30 dias transcorridos desde então, ele vem evitando repetir essa declaração ou definir de que maneira os Estados Unidos poderiam demonstrar que estão resolutos em conter a agressão.

Punição? Com certeza. Em 17 de agosto, um artigo da agência de notícias Associated Press transmitido de Crawford, Texas, onde o presidente George W. Bush estava de folga em sua fazenda, afirmava que "funcionários do governo norte-americano afirmam que não se pode permitir que a Rússia invada um país vizinho e escape impune".

Oh, sim. O fato é que a maioria da classe política dos Estados Unidos e dos integrantes da equipe de governo do presidente Bush se transformaram, no que tange a esse assunto, em uma assembléia de falastrões irresolutos. Vladimir Putin certamente previu o fato, ao olhar Bush nos olhos, por exemplo em seu encontro de junho, e encontrar lá não decisão, mas fraqueza, fadiga e incompetência.

Com os medidores de cinismo prático acionados ao máximo, seria possível racionalizar a atitude dos candidatos e dizer que a cautela de McCain e Obama significa que não existem vantagens em encarar a Rússia em meio à campanha eleitoral.

Mas o governo Bush, apesar da verborragia, oscilou entre a passividade e o recuo. Em lugar de uma política norte-americana clara - e nenhuma existe - o trabalho de remover os russos da Geórgia, e ao que parece o de decidir, posteriormente, como eles serão penalizados pela invasão, foi entregue aos europeus.

Trata-se de um momento extraordinário de abdicação de responsabilidade, da parte dos Estados Unidos. A responsabilidade por ele cabe a um presidente que se apegou à crença em uma Rússia benévola, e a uma noção misteriosa e equivocada de que Putin é um homem de bom coração, apesar dos três anos de nacionalismo intensificado, de agressões de toda ordem, do estrangulamento dos esforços democráticos e de ameaças aos aliados dos Estados Unidos.

Terceirizar para os europeus a responsabilidade por reagir à invasão, parece indicar que o governo norte-americano, incapaz de liderança, está tentando rebater aos esforços russos de separar Europa e América atribuindo a responsabilidade por negociar ou lidar com Moscou a uma União Européia que não tem retrospecto algum de forçar o recuo de Estados agressores. Isso é tanto patético quanto irônico.

Patético porque os ineficazes dirigentes norte-americanos, que até hoje não hesitavam em descrever seus aliados europeus como frouxos e irrecuperáveis, dessa vez receberam um alerta vindo da Europa, na semana retrasada, vindo do homem que comanda as relações exteriores da União Européia. Chris Patten disse que a "Rússia sabe que, quando se trata de conduzir uma política externa e de segurança séria, a Europa só fala".

Quando os europeus decidiram adiar, e não cancelar, as negociações sobre a renovação da chamada Parceria Estratégica com a Rússia, na semana passada (o que parece indicar que a invasão representa apenas um contratempo momentâneo), a Casa Branca reportou a apreciação de Bush "pelas fortes mensagens que a União Européia" estava enviando a Moscou.

Isso ignora, evidentemente, o fato de que a Europa prometeu coisa alguma de imediato e específico quanto a medidas concretas que poderiam tomar, agindo rapidamente e em bloco para quebrar o domínio russo sobre a energia do continente.

Temos uma imensa ironia em ação, aqui. Comparem a reação dos membros da União Européia diante da invasão da Geórgia ao que aconteceu em 2005, quando a Rússia decidiu embargar as importações de carne polonesa, uma decisão que envolvia queixas possivelmente legítimas sobre a qualidade de alimentos vindos do exterior.

Naquela altura, e porque a Polônia ameaçou vetar a parceria estratégia, as negociações sobre sua renovação foram adiadas de 2005 a 2007! E agora os Estados Unidos parecem estar preenchendo o formulário de inscrição para o clube dos tigres de papel.

Isso é triste porque os Estados Unidos e a Europa não precisam iniciar uma nova guerra fria para encontrar maneiras de reprimir o comportamento inadmissível da Rússia e para evitar a perda completa de credibilidade de seus líderes.

Quanto à liderança desbotada dos Estados Unidos, a Europa já percebeu que, com a alta do dólar e as projeções de crescimento dos Estados Unidos superando as dos demais países do Grupo dos 7 (G7) este ano, o poderio norte-americano não parece estar entrando em colapso.

E isso oferece os elementos básicos de uma iniciativa. A reação mais segura e mais retumbante que os Estados Unidos poderiam oferecer a uma invasão russa seria responder em um campo de jogo diferente, e contornar os esforços de bloqueio que Moscou vem realizando para ajudar os esforços do Irã quanto a obter armas nucleares.

Os Estados Unidos estariam, em resumo, reafirmando uma verdade: que os invasores da Geórgia se desqualificaram a tal ponto - ei, Putin insiste em que o programa nuclear de Teerã é pacífico, e não militar - que não se pode mais permitir que a Rússia continue a fornecer equipamento nuclear e armas a Teerã, e que continue a bloquear quaisquer sanções sérias, em seu papel de goleira no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Para fazê-lo, o governo Bush teria de iniciar negociações diretas com os iranianos. Isso não seria apenas um presente do governo Bush a McCain, que tem de fazer campanha defendendo um "não" rigido a negociações enquanto Obama propõe negociações diretas.

O mais importante é que a medida poria fim à paralisia norte-americana, solaparia a posição russa e serviria como melhor demonstração possível da vontade e capacidade de ação dos Estados Unidos.

A abordagem oferece uma forma de escapar a imagem de reações apenas retóricas à invasão da Geórgia que faz de Jacques Chirac e Gerhard Schröder visionários póstumos no que tange a avaliar a redução da influência norte-americana no mundo.

Quaisquer que venham a ser as muitas outras medidas que norte-americanos e europeus terão de tomar para proteger a Geórgia e repelir a Rússia, isso ofereceria um caminho e uma perspectiva quanto ao problema mais premente do mundo, daqui até 20 de janeiro de 2009 (o dia da posse do novo presidente norte-americano).

De fato, a tragédia da Geórgia resulta em parte da análise russa quanto à passividade dos Estados Unidos com relação ao Irã.

Se os Estados Unidos decidirem insistir agora em que todas as opções disponíveis estão em consideração, incluindo negociações com os mulás, romper o molde atual, que magnifica a importância de Moscou, representaria, para Washington, uma maneira de enviar uma mensagem construtiva e inconfundível a Moscou: já basta.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Herald Tribune
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »