Gregor Peter Schmitz e Gabor Steingart
Estados Unidos
Senhora secretária, os soldados russos continuam na Geórgia, Moscou reconheceu a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia, ambas províncias georgianas, e lhes prometeu assistência militar caso necessitem. Estamos assistindo ao início de uma nova guerra fria?
Bem, não é possível que estejamos no início de uma nova guerra fria, porque isso representaria um imenso retrocesso. Por outro lado, não podemos simplesmente nos manter inertes em uma situação complicada como essa. Com a invasão de uma nação soberana, os russos cruzaram um limite. O que preocupa é que a Rússia esteja se comportando de maneira que nos lembra o império russo no século 19 - o que é inaceitável no século 21.
Se a senhora ainda fosse secretária de Estado dos Estados Unidos, o que diria aos russos?
Primeiro, teria ido a Moscou, ao contrário do que fez Condoleezza Rice, a atual detentora do posto. É importante ser direto. Diria a eles que o comportamento exibido não é aceitável, mas também os reasseguraria quanto às ameaças de segurança que sentem sofrer em suas fronteiras. Diria que simplesmente julgaram a situação erroneamente e que é preciso corrigir esse erro.
A quem a senhora entregaria essa mensagem? Ao presidente Dmiti Medvedev ou ao primeiro-ministro Vladimir Putin?
Putin, não importa que nome dê ao seu posto, está no comando. Muita gente questiona que ele tenha mesmo deixado a presidência. E se tornou muito claro agora que ele decide, e de muitas maneiras criou uma Rússia incompatível com o século 21. Queremos uma relação colaborativa com os russos, mas os russos complicam muito esse desejo.
Moscou compara a situação da Geórgia ao reconhecimento da independência de Kosovo pelos Estados Unidos e alguns países europeus, este ano. A analogia se aplica?
A comparação é completamente improcedente. O presidente sérvio Slobodan Milosevic e seus capangas haviam ordenado a limpeza étnica da Sérvia e de Kosovo. Trabalhamos por meio de diversas resoluções da ONU para acabar com isso, tentando descobrir uma forma de colaborar com os russos. A situação era bastante diferente. E não existe comparação entre o que Milosevic estava fazendo e os georgianos fizeram ao tentar preservar a unidade de seu país.
A reação do Ocidente teria sido diferente caso a Geórgia já fosse membro da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan)?
A pergunta é hipotética, porque uma conferência de cúpula da Otan em Bucareste decidiu em abril que isso não aconteceria. Mas a necessidade de que a Otan aceite a adesão da Geórgia agora se tornou clara. Não podemos demonstrar qualquer hesitação a esse respeito.
Ampliar a Otan foi uma das histórias de sucesso do governo Clinton pelas quais a senhora foi ao menos em parte responsável, como secretária de Estado. Em retrospecto, isso foi um erro? Pode ter levado os russos a invadir a Geórgia?
Continuo orgulhosa por termos ampliado a Otan. A divisão da Europa surgiu como resultado acidental da Segunda Guerra Mundial. Quando começamos a ampliar a Otan, garantimos aos russos que os novos membros não representariam ameaça à segurança deles. Criamos toda espécie de mecanismo para permitir que Otan e Rússia cooperassem. Estou certa, completamente certa, de que a Otan nada apresenta que possa ser visto como ameaça pela Rússia.
Isso pode ser dito igualmente sobre os planos do governo Bush para usar a Polônia e a República Tcheca como base de seu sistema de defesa contra mísseis?
A tecnologia de defesa contra mísseis não foi comprovada. Não se sabe se realmente funcionaria. Acredito, pessoalmente, que o sistema de defesa contra mísseis não esteja pronto para uso.
Assim, o novo governo dos Estados Unidos deveria suspender o projeto?
O debate ficou muito mais complicado devido às ações russas na Geórgia. Mas creio que o verdadeiro problema no relacionamento com a Rússia nada tenha a ver com os planos de defesa contra mísseis. Tudo começou quando o presidente Putin passou a fazer coisas ridículas - comparar os Estados Unidos ao Terceiro Reich ou ameaçar seus vizinhos que pensam em aderir à Otan ou outras instituições internacionais. E quando isso acontece, precisamos reagir com vigor.
Muitos líderes europeus relutam em adotar um curso firme de oposição à Rússia - em parte porque a Europa depende do petróleo e do gás natural russos. O que a senhora espera dos europeus?
A União Soviética não conseguiu dividir a Europa e a aliança. Não deveríamos permitir que a Rússia separe Estados Unidos e Europa. Creio que deveria haver mais consultas transatlânticas sobre o tema. É pena que sejamos reféns da energia - muitas vezes fornecida por países perigosos. Por isso é tão essencial buscar novas fontes de energia.
Qualquer novo governo dos Estados Unidos herdará um relacionamento complicado com a Rússia. A senhora apóia Barack Obama. Como as reações dele difeririam das de John McCain?
Quanto à Geórgia, McCain vem sendo muito belicoso e parece propor nova guerra fria. Obama reconheceu a seriedade da situação e fez uma declaração forte quanto os russos reconheceram a independência das províncias georgianas. Ele pediu ação da ONU. Creio que esteja certo: caso Putin não mude seu comportamento, temos de procurar maneiras de isolar a Rússia internaciona.
Der Spiegel