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Hostilidade secular e mútua ameaça paz no Cáucaso

24 de agosto de 2008 09h37 atualizado às 09h38

Como os heróis do conto de Tolstói, Estados Unidos e Rússia se tornaram "prisioneiros do Cáucaso", e as opções abertas a ambos estão restritas pelas posições irreconciliáveis de protagonistas cuja hostilidade mútua é secular. Mas enquanto os russos dispõem de dois séculos de experiência histórica, política, cultural e militar em que se basear, o governo Bush é novato na região.

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E isso fica evidente. O principal argumento do governo para apoiar a soberania da Geórgia parece ser o de que o país representa uma rara combinação de duas virtudes: um líder fortemente pró-americano, Mikheil Saakashvili, cujas decisões de usar a lei marcial contra a oposição e tomar o controle de estações de TV oposicionistas terminam convenientemente esquecidas; e o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceuhan (BTC), que conecta os campos de petróleo do Mar Cáspio ao Mar Negro.

Ao longo dos últimos quatro anos, essa combinação resultou em investimento desproporcional de dinheiro e prestígio norte-americanos no país, que jamais poderá ser compensado pelos eventuais benefícios que uma aliança com a Geórgia oferece.

Um dos motivos para isso é que nem o BTC nem o gasoduto Nabucco, que deve ser construído na região, servirão para saciar a imensa sede européia por energia. Foi por isso que, antes da atual crise, grandes investidores e governos da região haviam decidido transferir seu apoio discretamente ao projeto russo de expansão de gasodutos, conhecido como Southstream. E essas realidades econômicas não se alteraram.

Outro sinal perigoso é a retórica exagerada dos funcionários norte-americanos, que revela uma clara falta de compreensão quanto ao fato de que a crise atual, longe de representar exceção, constitui apenas o mais recente incidente em uma longa história de confrontos étnicos no Cáucaso.

Dadas a ignorância da mídia ocidental quanto ao Cáucaso e as ambições políticas do senador John McCain, para o qual atacar a Rússia é uma ferramenta conveniente com que demonstrar suas credenciais em política externa, não surpreende que a narrativa que emergiu pareça girar em torno de "invasão russa à Geórgia".

O perigo dessa narrativa simplista e enganosa é que impede que os norte-americanos reconheçam o perigo que acompanha um compromisso aberto para com a Geórgia, a saber, o fato de que isso torna a política externa dos Estados Unidos refém dos atores políticos regionais, o que faz de Washington prisioneira do Cáucaso, como Moscou o é.

Embora os líderes russos e norte-americanos talvez não percebam a situação dessa maneira, estão na mesma enrascada. A única saída para eles seria trabalharem unidos para promover um acordo abrangente quanto aos problemas regionais. Não fazê-lo pode ou não levar a um confronto direto com a Rússia, mas certamente fará com que os Estados Unidos terminem emaranhados pelas paixões nacionalistas do Cáucaso, como os impérios Otomano, persa e russo no passado.

No entanto, existe uma maneira de estabilizar a situação, promover a autodeterminação e a democracia e restaurar a credibilidade maculada do Ocidente na região. E depende de uma missão internacional de paz cujas atribuições sejam cuidadosamente definidas.

Crítico para o sucesso dessa missão seria um compromisso explícito do Ocidente quanto a acatar a independência da Ossétia do Sul e Abkházia, caso elas não cheguem a um acordo mutuamente aceitável com a Geórgia - como aconteceu no caso de Kosovo. Sob essas condições, tanto a Ossétia do Sul quanto a Abkházia provavelmente aceitariam forças de paz ocidentais.

Com o apoio das lideranças ossetianas do sul e da Abkházia garantido, a Rússia teria pouca escolha a não ser aceitar a presença de forças internacionais de paz. Com o tempo, é possível que os russos venham a vê-las como preferíveis, se a alternativa para Moscou for a de continuar como o único fator de proteção da paz militar e econômica da região, papel que os russos vêm sendo obrigados a cumprir nos últimos 15 anos.

O lado negativo inevitável dessa proposta é que seria descrita como traição por Saakashvili, cuja popularidade depende de sua promessa de estabelecer soberania sobre todo o território da Geórgia. Essa ambição conta com o apoio de muitos integrantes da elite política georgiana, do Mar Negro ao Mar Cáspio.

Mas abrir mão da Ossétia do Sul e da Abkházia, que já demonstraram desejo inflexível de secessão da Geórgia, e sacrificaram milhares de vidas de seus cidadãos para garanti-la, de 1991 para cá, pode ser a única maneira de salvaguardar a integridade territorial do restante da Geórgia.

É simplesmente inconcebível que, depois da mais recente blitzkrieg georgiana, qualquer uma das regiões aceite ser governada pela Geórgia, ainda que uma forma frouxa de confederação talvez ainda seja remotamente possível. E a Geórgia continua a ser um caldeirão de diversificadas nacionalidades, das quais os separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia são apenas o exemplo mais visível. A Svanétia, a Mingrélia e a Javakhetia também mostram inquietação entre as elites políticas locais. Em alguns casos, como o da Adjaria, será possível comprar essas lideranças, mas no Cáucaso arranjos como esse são sempre altamente pessoais, e nunca institucionais.

Em última análise, a única maneira de garantir a estabilidade política e a integridade da Geórgia seria que Estados Unidos, Rússia e União Européia coordenassem suas ações, como o fizeram para garantir que o ex-presidente georgiano Eduard Shevarnadze deixasse o posto pacificamente.

Chegar a um meio-termo quanto a uma identidade pós-imperial será um processo doloroso na Geórgia. Mas, como aconteceu na Rússia e na Sérvia, isso conduzirá a um consenso político interno muito mais estável.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Herald Tribune
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