Tamar Enukidze, 29 anos e grávida de três meses, chora ao lado do corpo do seu marido, Mamuka Katsadze, morto em um bombardeio russo em Poti, na costa do Mar Negro |
Anne Barnard
Estados Unidos
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Saakashvili e o presidente Dmitri Medvedev, da Rússia, aceitaram na manhã da quarta-feira as bases de um acordo que poria fim à guerra que irrompeu cinco dias atrás, depois que a Rússia reafirmou seu tradicional domínio sobre a região.
Mas os antagonismos continuam fervilhando, e Saakashvili declarou na quarta-feira que o cessar-fogo não estava sendo respeitado. "Neste exato momento, tanques russos estão atacando a cidade de Gori", ele disse, em companhia de outros líderes de antigos satélites e repúblicas soviéticos que foram a Tbilisi, a capital da Geórgia, a fim de demonstrar apoio ao seu governo.
As alegações georgianas não puderam ser verificadas de imediato, e a Rússia negou que seus tanques estivessem atacando Gori, informou a agência oficial de notícias russa RIA-Novosti. Mas fumaça escura podia ser vista subindo da cidade e da direção de uma base militar georgiana por lá. Declarando que "o agressor foi punido", Medvedev havia anunciado na manhã de terça-feira que a Rússia suspenderia sua campanha, ainda que ataques aéreos russos tenham continuado ao longo do dia enquanto mediadores tentavam negociar os detalhes do acordo.
Por volta das 2h da quarta-feira, Medvedev e Saakashvili haviam chegado a um acordo quanto a um plano que envolveria a retirada das tropas de ambos os países às posições que ocupavam antes que irrompessem os combates.
Mas a situação continuava complicada na quarta-feira, e a confusão que parecia existir quanto ao cessar-fogo estar ou não sendo respeitado colocava em destaque a fragilidade do acordo, que foi fechado sob pressão dos países ocidentais, ansiosos por prevenir o ressurgimento de conflitos na instável região do Cáucaso.
No oeste da Geórgia, na cidade de Senaki, cerca de cinco transportes blindados de pessoal e um tanque russos podiam ser vistos estacionados no interior de um quartel, do qual eles haviam se retirado anteriormente. Moradores e um policial informaram que os soldados russos haviam saqueado geladeiras e despensas nas moradias da cidade. Um tanque russo aparentemente havia derrubado uma cerca em um acidente, e estava parado no jardim de uma casa enquanto soldados trabalhavam para consertá-lo.
Não importa que o acordo seja ou não respeitado, a Rússia na prática atingiu os seus objetivos e efetivamente criou uma nova realidade concreta na região, humilhando as forças armadas georgianas e reforçando a pressão sobre Saakashvili, um antagonista já antigo da liderança do país.
As autoridades russas não ocultam seu desejo de ver Saakashvili processado por crimes de guerra em Haia, e é bem possível que tentem outras medidas para solapar sua autoridade. Medvedev também autorizou os soldados russos a disparar "contra ninhos de resistência e focos de outras ações agressivas". À medida que o conflito esfria mas se torna mais arraigado, cresce a possibilidade de que as duas regiões separatistas, a Ossétia do Sul e a Abkházia, venham a ser anexadas pela Rússia.
Mas ao assinar o acordo a Rússia parece ter recuado diante da possibilidade de uma invasão em larga escala que teria deflagrado um confronto mais amplo, e possivelmente uma renovação da guerra fria, com o Ocidente. As ações do país já causaram alarme generalizado quanto à alteração do mapa geopolítico pelos russos, e há quem tema que isso possa solapar os avanços democráticos em uma região que no passado era parte da esfera soviética. Mas o ataque das forças armadas de Saakashvili contra a Ossétia do Sul, que deflagrou a crise na última quinta-feira, também atraiu críticas, por ter constituído uma provocação desnecessária.
"Os tanques precisam partir. Espero que o façam", disse Saakashvili na terça-feira, ao emergir de uma reunião com o presidente francês Nicolas Sarkozy, que levou o documento de cessar-fogo de Moscou a Tbilisi.
"Há um grau de ambigüidade construtiva" no documento, o que permitiu que um anúncio fosse realizado, disse um importante diplomata europeu, que pediu que seu nome não fosse mencionado. Os negociadores ocidentais, que têm intermediado os contatos entre os governos russo e georgiano há dias, disseram que estavam otimistas quanto à retomada de controle sobre a crise.
"Se as coisas transcorreram da maneira tradicional, teremos algumas escaramuças, mas ataques frontais e manobras para ganhar posições serão suspensos", disse o ministro do Exterior da Finlândia, Alexander Stubb, que presidente a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).
O governo Bush deve cancelar um exercício naval conjunto com a Rússia que estava marcado, e pressionar a Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) a que proíba belonaves russas de participar de um exercício semelhante da aliança. O cancelamento seria a primeira represália concreta contra a Rússia por suas ações militares na Geórgia.
À medida que as notícias sobre o cessar-fogo iminente começavam a se espalhar pela Geórgia, na terça-feira, os cidadãos reagiam com alívio e posturas desafiadoras. Em um comício em Tbilisi, uma multidão eufórica portava cartazes de "detenham a Rússia" e Saakashvili anunciou que a Geórgia estava saindo da Comunidade dos Estados Independentes, "dominada pelos russos".
"Vi aviões russos bombardeando nossas aldeias e matando nossos soldados, mas não havia o que eu pudesse fazer, e isso ficará comigo para sempre", ele afirmou. "Prometo que farei com que eles se arrependam disso". Os presidentes de cinco antigos países satélites ou repúblicas integrantes da União Soviética - Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia e Ucrânia - voaram a Tbilisi e apareceram em público com Saakashvili, para demonstrar solidariedade.
"Sou georgiano", disse Toomas Hendrick Ilves, presidente da Estônia. Em Gori, os cidadãos arriscaram abandonar seus esconderijos e começar a varrer os cacos de vidro e destroços. Os primeiros carros começaram a retornar às ruas da cidade. Izmar Chivolidze estava sentado em uma calçada manchada de sangue e recoberta de vidro quebrado. "Putin é o responsável", ele afirmou, citando o primeiro-ministro russo Vladimir Putin. "Putin criou esse circo"
Outras áreas do país continuavam em pé de guerra. No porto de Poti, bombardeios continuavam a ser ouvidos uma hora depois da declaração de Medvedev, na manhã de terça-feira. Sob ataques de forças russas e da Abkházia, a Geórgia retirou os últimos soldados que mantinha na garganta de Kodori, depois de quatro dias de combate, disse Shota Utiashvili, porta-voz do Ministério do Interior georgiano. Ele informou que 22 civis haviam sido mortos depois do momento em que Medvedev declarou o final da campanha militar.
"Rússia anunciou que havia encerrado sua invasão, mas isso não é verdade" declarou Utiashvili. "Devemos todos nos preparar para o pior" A longa disputa entre a Rússia e a Geórgia chegou ao ponto de ebulição na quinta-feira, depois que Saakashvili ordenou que forças georgianas entrassem no território da Ossétia do Sul, uma região separatista que mantém fortes vínculos para com a Rússia. As autoridades russas alegam que duas mil pessoas foram mortas nos combates em torno de Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul, e que mais de 30 mil refugiados fugiram para o lado de lá da fronteira russa.
Não há como confirmar esses números de maneira independentes, e alguns analistas acreditam que os russos os estejam citando para sustentar suas alegações de crimes de guerra contra Saakashvili.
Durante as negociações entre Saakashvili e Sarkozy ao longo do dia, o presidente francês teve de ligar duas vezes para Medvedev a fim de esclarecer pontos que preocupavam o presidente georgiano. Saakashvili insistia em que as forças de paz russas que ficariam estacionadas nos territórios separatistas fossem as mesmas que lá existiam previamente, e não as novas tropas que as substituíram quando os combates se tornaram iminentes.
Ele também insistiu em que não haveria nem discussões sobre a possibilidade de uma secessão das regiões separatistas. Assim que as forças militares russas e georgianas recuarem, os mediadores internacionais terão de enfrentar uma série de problemas. Os soldados da Rússia e da Geórgia se retirarão às posições que detinham na última quinta-feira, antes que os mais recentes combates irrompessem, ou às suas posições de 1991, quando começou a disputa sobre os enclaves georgianos?
Quem fiscalizará o cessar-fogo - a OSCE, que no momento responde pela monitoração da Ossétia do Sul, ou as Nações Unidas que respondem pela Abkházia? Ou, ainda, uma possível terceira organização, como a União Européia? A França está procurando apoio de seus parceiros na União Européia para enviar forças de paz da organização à região, de acordo com a agência de notícias Associated Press.
Os diplomatas tentaram manter as partes em conflito concentradas em medidas práticas de curto prazo - primeiro um cessar fogo; segundo, a entrada de assistência humanitária na região em conflito; e, terceiro, a retirada das tropas. Só então, disse Stubb, da OSCE, funcionários russos e georgianos começariam a conduzir um esforço de paz para tentar resolver as causas reais do conflito.
Sergei Markov, do Instituto de Estudos Políticos de Moscou, disse que a pressão ocidental teve algum efeito, mas que os estrategistas do Kremlin estavam mais preocupados com a possibilidade de causar danos permanentes ao relacionamento já conturbado entre Moscou e a Geórgia. "Nosso relacionamento com a Geórgia é mais importante, de modo que a Rússia possa exercer influência sobre todo o sul do Cáucaso, como vem fazendo há século", disse ele.
As negociações de cessar-fogo coincidiram com bombardeios e barragens de artilharias que atingiram principalmente as cercanias da cidade de Gori e aldeias nas planícies georgianas ao norte. Cinco pessoas, entre as quais um jornalista holandês, foram mortas quanto um míssil atingiu a Praça Stálin.
Enquanto Medvedev fazia seu anúncio, na manhã de terça-feira, quanto à suspensão da campanha militar, tropas russas foram avistadas em outras áreas do interior da Geórgia, na frente ocidental, ao sul da Abkházia. As tropas estavam avançando em direção ao porto de Poti e escavando posições de combate nas cercanias da cidade.
Houve informações de que outros soldados russos estavam envolvidos em atividades semelhantes nas cidade de Zugdidi e Kareli, no oeste da Geórgia, informou um funcionário do governo norte-americano.
Uma dúzia de veículos blindados estavam protegendo uma ponte que liga Poti a Batumi, outro porto no Mar Negro. Os soldados, que falavam russo e usavam distintivos que os identificavam como pára-quedistas, disseram que eram parte de forças de paz.
Um policial georgiano, que não revelou seu nome porque não tinha autorização oficial para falar, parecia deprimido. Ele afirmou que não manteve contato com os russos. "Temos ordens de não falar com eles", afirmou. "Vieram para cá sem nosso convite".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times