A Rússia lançou um ultimato às forças georgianas na segunda-feira, pedindo o desarmamento das tropas do país ao longo da fronteira da Abkházia, uma região separatista no oeste do país, em um sinal de que os combates podem se expandir a uma segunda frente, na porção ocidental da Geórgia.
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O presidente Dmitri Medvedev, da Rússia, disse que suas forças haviam "concluído parte significativa das operações para obrigar a Geórgia, as autoridades georgianas, a restaurar a paz na Ossétia do Sul", um enclave pró-russo no leste da Geórgia, de acordo com uma transcrição disponível no site do Kremlin de suas declarações, apresentadas em companhia do ministro da Defesa Anatoly Serdyukov.
A Rússia anunciou, em separado, que estava solicitando uma reunião de emergência com a Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) para discutir a crise georgiana.
Mas o Ministério da Defesa da Geórgia anunciou que veículos blindados russos haviam capturado uma base militar na cidade de Senaki, oeste da Abkházia, o que sugere que as tropas russas já começaram a se movimentar em direção ao oeste, do enclave ao interior do território da Geórgia propriamente dita, de acordo com a agência de notícias Associated Press.
O ultimato russo, apresentado pelo major-general Sergei Chaban, comandante das forças russas na Abkházia, solicitava o desarmamento das tropas georgianas no distrito de Zugdidi, ao longo da fronteira entre a Abkházia e a Geórgia.
A Rússia enviou reforços ao enclave ocidental, onde agora dispõe de pelo menos 9 mil soldados e 350 veículos blindados. Giga Bokeria, um funcionário do governo georgiano considerado como bem próximo ao presidente, disse que o ultimato havia causado alarme diante da possibilidade de que as tropas russas invadam territórios georgianos no oeste do país.
Muitas tropas georgianas estão ocupadas com os combates no extremo leste do país, perto da Ossétia do Sul. Uma questão central do conflito, que tem envolvido combates pesados desde a semana, é determinar se a Rússia - que despejou reforços na Abkházia e na Ossétia do sul - optará por ações militares fora dessas regiões e em território georgiano.
O presidente georgiano Mikheil Saakashvili denunciou furiosamente a Rússia na segunda-feira, acusando o país de promover "limpeza étnica" e alegando que as ações do Kremlin constituem "o assassinato premeditado, a sangue frio, calculado, de um pequeno país".
Ele equiparou as ações russas aos crimes de guerra cometidos nos Bálcãs nos anos 90. "O que mais precisa acontecer para que o mundo desperte e veja o que está em jogo? Será que a experiência que tivemos nos Bálcãs não basta para que saibamos o que virá?", ele declarou durante uma entrevista coletiva em Tbilisi, a capital da Geórgia.
Funcionários do governo russo afirmam que a Geórgia provocou a ação ao atacar a Ossétia do Sul na semana passada, causando pesadas baixas entre civis.
O Kremlin disse que suas ações tinham por objetivo atingir as forças militares georgianas que haviam disparado contra as forças de paz russas estacionadas na Ossétia do Sul e que não havia planos para uma ofensiva militar mais ampla em território georgiano.
No entanto, funcionários georgianos disseram que, ao longo do final de semana, a Rússia havia expandido seus ataques na Geórgia, movimentando tanques e soldados na direção da Ossétia do Sul e avançando na direção da cidade de Gori, no centro do país.
A manobra que eles mencionam - e o bombardeio russo contra Tbilisi - parece sugerir que os objetivos russos no conflito, depois de quatro dias de combate, haviam crescido para além de garantir a Ossétia do Sul e a Abkházia e agora incluíam enfraquecer as forças militares da Geórgia, uma antiga república da União Soviética e hoje aliada dos Estados Unidos.
As inclinações ocidentais do país há muito são causa de irritação para os dirigentes russos. Na segunda-feira, em conversa telefônica com jornalistas, Saakashvili informou que tropas georgianas e russas haviam travados ferozes batalhas durante a noite, com tanques russos avançando em direção a Gori até que fossem repelidos; as baixas de ambos os lados foram pesadas.
Aviões russos também bombardearam alvos em toda a Geórgia na segunda-feira, entre os quais pontes e rodovias, disse Saakashvili, antes de se refugiar em um abrigo contra bombas porque havia aviões russos sobrevoando o palácio presidencial em Tbilisi.
Um repórter em Gori, no centro da Geórgia - cidade que deveria receber na segunda-feira o ministro do Exterior francês Bernard Kouchner, que viajou como parte de um esforço europeu para mediar o conflito -, reportou ter visto explosões nos campos que cercam a cidade.
Não havia indícios de ataques aéreos contra áreas civis em Gori, uma importante base militar e centro de transportes na Geórgia. Mas, das colinas próximas, se podia ver colunas de fumaça branca e outros sinais de combate perto da cidade.
Não se sabe se as explosões foram causadas por bombardeio aéreo ou disparos de artilharia. Koucher vai tentar promover um cessar-fogo e Saakashvili disse que a Geórgia havia assinado para tanto.
Mas o Ministério do Exterior da Rússia anunciou que o país só assinaria um cessar-fogo se a Geórgia retirasse suas tropas da Ossétia do Sul e assinasse um acordo que proibiria o uso da força contra o território.
Saakashvili fez da integração da Ossétia do sul e Abkházia ao território georgiano uma plataforma central de sua presidência. Enquanto isso, as tensões cresciam na Abkházia, onde pára-quedistas russos e seus aliados locais estavam combatendo forças especiais georgianas e onde as forças russas haviam sido ampliadas para 9 mil soldados e 350 veículos blindados.
Na segunda-feira, forças da Abkházia haviam ameaçado eliminar as tropas georgianas caso estas não abandonassem a garganta de Kodori, o único ponto em que a Geórgia mantém uma guarnição militar no território em disputa.
Tropas da Abkházia se movimentaram para bloquear a área e propuseram a formação de um corredor humanitário que permitiria a saída pacífica dos soldados georgianos e civis, anunciou Mirab Kishmariya, ministro da Defesa da Abkházia, à agência de notícias russa Interfax.
"Caso as tropas georgianas decidam não tirar vantagem dessa oportunidade, daremos início à operação que as eliminará", o ministro afirmou.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

- The New York Times


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