Katrin Bennhold
Paris
Mitterrand, que era presidente no período em que aconteceu o genocídio, e Villepin, então assessor importante do Ministério do Exterior, estão entre os 13 líderes franceses acusados de "cumplicidade" no "preparativo e execução de genocídio".
Ruanda há muito vinha acusando a França de oferecer treinamento às milícias que lideraram o massacre em massa da minoria étnica tutsi. Mas o mais recente relatório, um documento de 500 páginas lançado pelo Ministério da Justiça de Ruanda na terça-feira, pela primeira vez vincula funcionários específicos - e muito importantes - às alegações, e indica possíveis indiciamentos futuros.
Nenhum dos funcionários respondeu individualmente. Mas Romain Nadal, porta-voz do Ministério do Exterior francês, classificou o relatório como distorcido. "Poderíamos questionar a objetividade do mandato" da comissão, declarou Nadal em uma entrevista coletiva online. Ele afirmou que o relatório contém "acusações inaceitáveis contra políticos e líderes militares franceses". A questão de uma participação francesa no genocídio em Ruanda há muito perturba as relações entre os dois países.
Em 1998, uma investigação parlamentar francesa inocentou as autoridades do país de toda responsabilidade pelas mortes. Mas os legisladores também reconheceram que, antes de 1994, a França era um dos grandes fornecedores de equipamentos militares a Ruanda. Em 1990, tropas francesas foram despachadas para reprimir uma rebelião dos tutsi, organizada com base na vizinha Uganda. Os soldados ficaram no país em 1993, quando um acordo internacional os substitui por uma força de paz da ONU.
Dado o fato de que o crime de genocídio recai nas leis internacionais, especialistas em assuntos jurídicos alegam que, ao menos teoricamente, Ruanda poderia indiciar cidadãos franceses e exigir sua extradição ao país para julgamento. Mas acrescentam que o objetivo do relatório parece mais político do que jurídico.
O texto surgiu menos de dois anos depois que um alto juiz francês, Jean-Louis Bruguiére, tentou levar o presidente de Ruanda, Paul Kagame, a julgamento por um tribunal da ONU, em função de seu suposto envolvimento em um complô que derrubou o avião do ex-presidente e pôs fim à frágil paz entre o governo dominado pelos hutus e os rebeldes tutsis sob o comando de Kagame, o que provocou a matança.
As alegações de Ruanda também surgem em um momento de reforço na pressão para que o Tribunal Criminal Internacional para Ruanda dedique atenção a algumas das atrocidades cometidas pela Frente Patriótica Ruandesa, de Kagame, logo depois do genocídio, quando se acredita que até 30 mil hutus tenham sido mortos.
"O momento do relatório não é coincidência", disse Kenneth Roth, presidente da Human Rights Watch. "Em um momento em que a pressão internacional por julgamentos em Ruanda está em alta, isso representa um esforço para mudar de assunto e colocar a comunidade internacional na defensiva".
Desde que Kagame rompeu relações diplomáticas com a França, em 2006, Paris vem tentando diversas abordagens para restaurar os elos. Em dezembro, o presidente francês Nicolas Sarkozy se reuniu com Kagame durante uma conferência entre a União Européia a África, e em janeiro o ministro do Exterior francês Bernard Kouchner visitou Kigali, a capital de Ruanda.
Tradução: Paulo Migliacci ME
Herald Tribune