Karadzic: conheça detalhes de uma fuga de 11 anos

30 de julho de 2008 • 11h13 • atualizado às 11h31

Christophe Châtelot

Paris


Detido depois de quase 11 anos como foragido, Radovan Karadzic esperava, no dia 28 de julho em Belgrado, a ordem que o transferiria à custódia do Tribunal Internacional sobre Crimes de Guerra na Antiga Iugoslávia, sediado em Haia e afiliado à ONU, pelo qual ele será julgado sob acusações de genocídio durante a guerra da Bósnia em 1992/5.

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A oposição nacionalista sérvia saiu em manifestação de apoio ao antigo líder político dos sérvios da Bósnia, em Belgrado. Karadzic, transformado em doutor Dragan David Dabic, guru da nova era e da medicina alternativa, passava despercebido no Ruda Kuca, um bar cujo nome pode ser traduzido como "manicômio" e no qual ele costumava beber seu vinho em um bairro deselegante na nova Belgrado.

Desde o final do ano que precedeu sua detenção, em 21 de janeiro, o falso doutor Dabic testou muitas vezes a eficácia de seu disfarce, iludindo perseguidores do mundo inteiro, conversando com uma freguesia decerto embriagada mas de maneira alguma cega. É certo que identificar o Dr. Dabic, um terapeuta alternativo de 63 anos, barbudo e cabeludo, e o retrato de Karadzic que decorava o bar do qual ele se tornou freqüentador.

Posicionada entre fotos do antigo presidente sérvio Slobodan Milosevic e do general Ratko Mladic, que comandava as forças militares dos sérvios da Bósnia, Karadzic aparecia de cabelos ao vento, vestindo um terno elegante, em seu período como líder da comunidade sérvia da Bósnia. "Eu não conhecia Karadzic; conheci Dabic, o médico falastrão que costumava contar sobre sua infância de autismo", jura Misko Kovijanic, o dono do bar. "Ele é bom ator", considera o sociólogo Zarko Trebjecanin.

Nada permite datar com exatidão a foto que decora o bar. Ela decerto foi tirada durante a guerra, mas será que antes, durante ou depois do massacre de sete mil muçulmanos em Srebrenica pelo qual Karadzic foi indiciado como genocida pelo tribunal de Haia, em 1995? "Não conheci Karadzic, mas um médico que me mostrou o mundo da medicina alternativa¿, respondeu Mila Cicak, uma mulher morena que reportagens na imprensa local identificavam como amante de Karadzic.

Um dos homens mais procurados do mundo, com a cabeça a prêmio sob recompensa de US$ 5 milhões, por oferta do governo norte-americano, Karadzic parece ter conseguido desaparecer entre os moradores desse bairro popular, reduto do Partido Radical, uma agremiação ultranacionalista -distante das montanhas da Bósnia ou dos mosteiros ortodoxos onde as forças da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) o procuraram depois que ele se refugiou na clandestinidade, no começo de 1998.

Em Novi Beograd, seu apartamento ficava perto do Ruda Kuca, no terceiro andar de um edifício de concreto de 14 andares. "Havia 14 andares, 97 famílias - o lugar ideal para um criminoso como ele desaparecer no anonimato", explica um dos moradores. "Havia pelo menos quatro edifícios do tipo em Belgrado que estavam sujeitos a vigilância já há algumas semanas", confirmou um agente de um serviço ocidental de informações.

De acordo com a versão oficial, o doutor Dabic foi interpelado em 21 de julho por três membros do serviço secreto sérvio, em uma parada de ônibus em seu bairro. O advogado de Karadzic, Svetovar Vujacic, disse que seu cliente "foi detido no ônibus e conduzido de olho vendados a um destino desconhecido, onde foi bem tratado durante três dias, por homens que queriam sem dúvida obter a recompensa de US$ 5 milhões".

O advogado revelou que, no momento da detenção, Karadzic estava de saída para férias na costa da Croácia, e tinha consigo um computador portátil, uma mochila contendo livros e 600 euros. "Houve muitos rumores antes da detenção, e o objetivo do advogado agora é suscitar dúvidas quanto à legalidade da detenção e alimentar uma contestação popular que não parece provável", disse Bruno Vekaric, porta-voz do promotor especial para crimes de guerra da Justiça sérvia. A oposição nacionalista convocou uma manifestação para a terça-feira em Belgrado.

Dejan Anastasijevic, jornalista especializado em questões de segurança na revista semanal Vreme, não aceita integralmente a versão oficial da detenção. Eles deseja saber, por exemplo, que serviço secreto realizou a detenção - o de segurança interna, conhecido como BIA, ou a unidade de operações especiais do exército, cujos integrantes são conhecidos como "os cobras"?

Anastasijevic também sugere que a interceptação de uma conversa telefônica entre pessoas do círculo de Karadzic e Mladic, dois meses atrás, permitiu localizar o paradeiro de Karadzic. "Os agentes provavelmente não sabiam qual dois eles encontrariam como resultado dessa informação, mas por uma vez realizaram bem o seu trabalho", disse.

Por que, apesar de seu talento como ator, Karadzic certamente contou com pelo menos cumplicidade passiva de parte do governo anterior - ou até mesmo cumplicidade ativa, o que lhe teria permitido, por exemplo, obter uma carteira de identidade com o nome de Dragan Drabic, um aposentado que ainda vive. "Os tempos mudaram", diz Oliver Dulic, antigo presidente do Legislativo sérvio e ministro do Meio Ambiente no governo do presidente Boris Tadic, de quem ele sempre foi confidente. "Pela primeira vez desde a queda de Slobodan Milosevic, em outubro de 2000, temos unidade no poder. Tadic e seu Partido Democrata têm todas as cartas nas mãos, agora", confirmou um diplomata ocidental.

Quando o partido de Tadic venceu as eleições legislativas, ele substituiu o comandante do BIA, Rade Bulatovic, um sobrevivente da era Milosevic, por um jovem profissional acima de qualquer suspeita, Sacha Vukadinovic, e o encarregou de conduzir uma investigação sistemática para capturar os acusados de crimes de guerra que continuam a solta: além de Karadzic, Mladic e Goran Hazic, o líder autoproclamado de uma "república autônoma sérvia" em Krajina, na Croácia.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Le Monde
 
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