Patrícia Armani, prima de Jean Charles, participou de manifestação que lembrou a morte do brasileiro em Londres
Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
"Até hoje os policiais se comportam como se o Jean fosse responsável pela própria morte." O desabafo de Patrícia Armani, prima de Jean Charles de Menezes, mostra que a família ainda não superou o que aconteceu na manhã de 22 de julho de 2005, quando o eletricista foi considerado suspeito de ser um homem-bomba e acabou sendo executado por dois policiais dentro de um metrô de Londres.
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Após três anos, ninguém foi punido pelo crime. O pedido de desculpas feito pelo chefe da Scotland Yard, Ian Blair, não foi suficiente para os familiares e os parentes de Jean Charles ainda aguardam justiça pela morte do brasileiro.
No dia 22 de setembro, se iniciará um novo inquérito do caso, com duração máxima de 12 semanas e durante o qual os familiares têm esperança de chegar às respostas sobre a encruzilhada que resultou na morte do eletricista brasileiro.
"Não sei o que pode ser considerado como justiça neste caso, mas quero ao menos poder ouvir as respostas que aguardo há três anos. Talvez eu finalmente possa perguntar, através dos nossos advogados, por que o Jean não foi abordado e impedido de entrar no metrô, já que ele era um suspeito", disse Patrícia.
Atualmente, ela mora no interior da Inglaterra, com o namorado e trabalha como garçonete. "Eu precisei sair de Londres. Gosto muito de lá, e adoro morar na Inglaterra, mas até hoje me dói passar pela estação onde o meu primo foi morto."
Para Patrícia, houve um grave erro de comunicação entre os agentes responsáveis pelo combate ao terrorismo. "A coordenadora da operação disse que ordenou que impedisse o Jean de entrar na estação, mas os policiais não receberam essa ordem. O resultado é que ele acabou sendo morto sem nem saber por quê."
Apesar do drama vivido pela família, a garçonete diz que adora o país e que confia muito na polícia. "O problema é que quando surge uma ameaça de terrorismo, eles endurecem muito os procedimentos habituais e toda a população fica vulnerável. Nestas épocas, uma pessoa que sai de casa não sabe se voltará viva, seja por causa de supostos terroristas ou pela reação da própria polícia. Outros inocentes podem morrer se a forma de controlar as ameaças não passar por mudanças."
Embora considere a polícia inglesa melhor do que a brasileira, ela evita compara-las e elogiou o fato de, no Brasil, os policiais com má-conduta serem investigados e afastados ou punidos. "O mesmo homem que matou o Jean continua trabalhando na divisão de terrorismo. Aqui, eles defendem a corporação até as últimas conseqüências", diz.
Patrícia conta que logo depois crime, tinha medo das sirenes policiais e que a simples aproximação de agentes a provocava tensão. Hoje, ela afirma ter se re-habituado ao cotidiano inglês, depois de ter alterado pequenos detalhes da sua rotina. "Eu sou muito mais cuidadosa hoje em dia. Sempre penso se as minhas ações não podem ser mal-interpretadas por algum policial que esteja me observando."
Aos 34 anos, ela não pretende voltar ao Brasil tão cedo. "Apesar de toda essa tragédia, a vida aqui é muito boa. Ficarei pelo menos até todo este processo terminar e eu me sentir finalmente satisfeita."
Outros quatro primos de Jean moram em Londres e arredores. Jean Charles era o que primeiro havia imigrado, há seis anos. No último dia 22, os familiares e apoiadores da causa promoveram uma manifestação em que montaram uma bandeira do Brasil de flores.
No círculo azul, 1.093 flores representavam o número de dias passados após a morte do jovem e sem que houvesse justiça, apesar de Scotland Yard ter admitido que Jean Charles não possuía nenhuma relação com o terrorismo.
- Redação Terra

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