Cercado pela UE, território russo está receoso quanto ao futuro

01 de maio de 2004 • 13h44 • atualizado às 13h40

O território russo de Kaliningrado, entre a Lituânia e a Polônia, está, a partir de hoje, cercado pela União Européia (UE) e enfrenta um futuro incerto apesar dos esforços de Moscou para transformá-lo em uma "ponte" para a Europa ampliada.

"Cercados, mas não dentro", era o comentário repetido pela imprensa de Kaliningrado depois da entrada, nesta meia-noite, de Lituânia e Polônia na UE, em uma reflexão que expressa o temor de que a região russa fique excluída.

Poucos em Kaliningrado ainda acreditam na velha propaganda de Moscou que queria que este território fosse sua "Hong Kong" do Báltico depois de sua conversão em zona econômica especial para os investimentos ocidentais.

A opinião das autoridades locais agora é que a entrada das três repúblicas bálticas na UE pode arrebatar parte desse fluxo de capital, que, apesar de sua importância, não conseguiu melhorar a qualidade de vida dos habitantes de Kaliningrado.

Este território de 15.100 quilômetros quadrados e um milhão de habitantes continua sendo um exemplo de como a corrupção, o crime organizado e a miséria podem arruinar as tão sonhadas reformas.

Antiga área da Prússia Oriental, Kaliningrado recebeu este nome no dia 4 de junho de 1946 quando, por ordem de Stalin, perdeu sua denominação alemã, Koenigsberg, e foi rebatizada em homenagem ao bolchevique Mikhail Kalinin.

Pouco antes, graças à Conferência de Postdam que dividiu a Europa em ruínas da II Guerra Mundial, a União Soviética se apropriou de Koenigsberg, tomada a sangue e fogo dos nazistas.

Fundada em 1255 sobre um assentamento dos cavalheiros teutões no Báltico, foi quase sempre alemã, menos entre 1758 e 1762, quando pertenceu ao Império russo.

Em Kaliningrado, por exemplo, pode ser encontrado um dos lugares mais sagrados da cultura alemã: o túmulo do filósofo Emmanuel Kant, enterrado na catedral capitalina.

Hoje, ele é recordado em Kaliningrado como uma das poucas atrações turísticas da destrambelhada cidade de mesmo nome e capital do território, pelo qual, no entanto, o interesse da Alemanha nunca acabou.

Kaliningrado foi escolhido pelo gigante automobilístico BMW como sede de uma de suas principais fábricas no exterior, pois a montagem de um de seu modelos custa 15 por cento a menos lá que na Alemanha.

Além de empresas alemãs, em Kaliningrado há várias firmas francesas, italianas, polonesas e inclusive lituanas.

Embora estes investimentos tenham conferido a Kaliningrado um crescimento industrial maior do que de outras regiões russas, seu caráter de zona econômica especial que permitia a sobrevivência de milhares de pequenas empresas dedicadas à importação -e contrabando- de bens livres de impostos procedentes principalmente da Polônia.

Com a ampliação da UE, a incerteza já está espantando investimentos e deixando muitos de seus habitantes nas garras do álcool e da droga, cujo consumo faz da velha Koenigsberg o lugar com maior porcentagem de aidéticos da Rússia.

Os empresários de Kaliningrado torcem para que o Parlamento russo aprove em breve a ampliação do status de área de livre comércio por mais dez anos, mas Moscou quer se valer do valor geopolítico dessa região, até às custas de seus habitantes, para transformá-la em "ponte" para a Europa ampliada.

Embora o governo de Moscou tenha previsto 3,2 bilhões de dólares para readquirir em seis anos as arruinadas infra-estruturas e indústria agropecuária locais, a crença é que a maior parte desse programa nunca será aplicado ou cairá nas mãos das máfias.

É neste panorama, que podem aumentar em Kaliningrado as simpatias, principalmente entre os jovens, a uma progressiva autonomia da Rússia ou, inclusive, a seu retorno à mais acolhedora Alemanha.

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