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Atualizada às 16h48
Elaine Sciolino e Steven Lee Myers
» EUA querem enviar diplomatas ao Irã
» EUA vão à reunião com Irã para "escutar"
Primeiro, o governo decidiu abandonar a posição de que se encontraria com o Irã apenas após o país suspender o enriquecimento de urânio, conforme resoluções do Conselho de Segurança da ONU.
Segundo, a presença americana na mesa dá nova importância aos rumos das negociações entre as seis potências globais que confrontam o Irã - França, Inglaterra, Alemanha, Rússia, China e Estados Unidos - apesar de suas posições oficiais, que proíbem conversações substantivas até que o enriquecimento de urânio seja interrompido.
O crescente engajamento traz o receio de que posicionamento do governo Bush em relação ao Irã se altere radicalmente, como aconteceu com a Coréia do Norte, o que provocaria um novo cisma com conservadores que acusam a Casa Branca de oferecer concessões a Estados delinqüentes sem obter nada em troca.
O governo Bush descreveu as conversações como uma continuação da estratégia que sempre seguiu: interromper as atividades nucleares do Irã sem recorrer à força militar.
A presença de William J. Burns, subsecretário de Estado para assuntos políticos, no encontro de sábado em Genebra com Saeed Jalili, negociador iraniano sobre a questão nuclear, "envia um forte sinal ao governo iraniano de que os Estados Unidos estão comprometidos com a diplomacia," afirmou a repórteres o porta-voz do Departamento de Estado americano Sean McCormack, que negou mudanças na política externa.
Todos os parceiros diplomáticos do governo Bush, assim como Javier Solana, chefe de política externa da União Européia e líder das conversações, têm pressionado Washington há algum tempo para se juntar às negociações. Eles argumentam que os iranianos levarão qualquer proposta a sério se os Estados Unidos se mostrarem comprometidos.
Oficiais europeus saudaram a decisão americana como uma importante mudança, um sinal de que, com apenas seis meses de gabinete, Bush procura evitar uma guerra com o Irã.
"Estamos muito satisfeitos com a decisão do governo americano," disse Cristina Gallach, porta-voz de Solana, em entrevista por telefone. "É um sinal claro aos iranianos de que os Estados Unidos estão engajados e comprometidos com as negociações de uma solução. Ao mesmo tempo, é uma clara mensagem aos iranianos da seriedade desse exercício."
Um alto oficial europeu diretamente envolvido na diplomacia também celebrou a decisão de enviar Burns, um oficial do terceiro escalão do Departamento de Estado americano, chamando-a de "grande mudança" na política americana.
Dana M. Perino, porta-voz da Casa Branca, disse que foi a secretária de Estado Condoleezza Rice quem pediu ao presidente o envio de Burns. Um oficial, falando sob condição de anonimato, disse que Rice havia decidido testar a disposição do Irã em examinar um pacote internacional de incentivos em troca de concessões em seu programa nuclear.
A combinação de diplomacia e pressão por sanções, inclusive as da União Européia contra o maior banco iraniano no mês passado, produziu sinais de que talvez o Irã esteja abrandando sua posição, o que levou Rice a "decidir que era a chance de aproveitar a oportunidade," segundo o oficial. O vice-presidente Dick Cheney e outros assessores seniores também discutiram a idéia, disse o oficial, que não quis se identificar por estar tratando de discussões internas do governo.
A extensão do envolvimento americano permanece pouco clara. McCormack descreveu a participação de Burns nas conversações como a "única oportunidade de acordo." Perino não descartou encontros adicionais com os iranianos, que dependerão dos resultados da última reunião.
Alguns oficiais do governo ainda cogitaram enviar oficiais americanos ao Irã sem restabelecer relações diplomáticas, como em Cuba, mas nenhuma decisão havia sido tomada ainda.
A presença de um americano nas conversações deste final de semana pode ajudar a acalmar as crescentes pressões tanto nos Estados Unidos quanto em Israel por ataques militares contra o Irã devido à sua recente expansão do programa de enriquecimento de urânio e à recusa em dar satisfações a respeito das atividades nucleares do passado à Agência Internacional de Energia Atômica.
Em Teerã, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, disse na quarta-feira que seu país tinha "claramente definido os limites" que deveriam ser respeitados nas negociações, em referência à insistência do país em afirmar que tem o direito à energia nuclear com fins pacíficos.
Mas "se as partes iniciarem as negociações respeitando a nação iraniana" e "observando esses limites, nossos oficiais vão negociar," disse o aiatolá em discurso transmitido pela rádio estatal, segundo a Reuters.
Perino disse que se o governo iraniano rejeitar o pacote de incentivos, os Estados Unidos criarão mais sanções contra os líderes do país e contra companhias estatais, além de encorajar outros países a fazer o mesmo.
Entretanto, a decisão de comparecer às conversações foi atacada por alguns conservadores que criticaram a Casa Branca por não manter sua posição de condicionar o início das negociações à suspensão do programa de enriquecimento de urânio do Irã.
"Quando você pensa que essa administração não pode mais dar reviravoltas, eles fazem mais uma," disse John R. Bolton, ex-embaixador americano nas Nações Unidas, que tem sido um crítico ferrenho da decisão do mês passado de remover a Coréia do Norte da lista de países que patrocinam o terrorismo. "Essa é mais uma evidência do completo colapso intelectual desse governo."
Do lado oposto do espectro político, o senador John Kerry, oponente democrata de Bush nas eleições de 2004, disse que a decisão pode ser "a mais importante virada diplomática da história recente."
Enviados de médio escalão americanos e iranianos, inclusive o embaixador americano no Iraque Ryan C. Crocker, se encontraram periodicamente em diversas conversas diretas em Bagdá, discutindo preocupações em comum sobre o Iraque.
Mas fora isso, poucos foram os encontros entre oficiais americanos e iranianos desde que a relação entre os dois países foi abalada com o cerco iraniano da embaixada dos EUA no final de 1979, quando americanos foram mantidos reféns por 15 meses.
Durante a crise dos reféns, o presidente Jimmy Carter enviou secretamente Hamilton Jordan, seu chefe de gabinete, disfarçado de negociador potencial.
Em 1986, no esforço para libertar diversos reféns americanos no Líbano, o presidente Ronald Reagan mandou seu conselheiro de segurança nacional, Robert C. McFarlane, em uma missão secreta ao Irã para trocar armas por reféns. Ele apareceu com um bolo de chocolate em forma de chave e uma Bíblia, em que Reagan escreveu uma passagem do Novo Testamento.
O presidente George Bush, pai do Bush atual, estava tão ávido por iniciar um diálogo com o Irã que uma vez atendeu ao telefone esperando encontrar o então presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani do outro lado. Era um trote.
Uma série de contatos não divulgados entre oficiais americanos e iranianos de médio escalão também aconteceu em paralelo a conversações dos seis países sobre o Afeganistão em Genebra há alguns anos.
Um fator determinante da decisão americana em participar do encontro de Genebra desta semana parece ter sido a reação positiva do Irã ao fato de Rice ter assinado uma carta que acompanhava o pacote de incentivos políticos e econômicos apresentado pelas seis potências em Teerã no mês passado.
Participantes do encontro disseram que o primeiro-ministro do Irã, Manouchehr Mottaki, ficou visivelmente surpreso ao ver a assinatura de Rice entre as de seus colegas.
Mottaki respondeu formalmente à proposta em uma carta neste mês, direcionada a Rice, Solana e aos ministros das Relações Exteriores dos cinco outros países. O gesto de incluir Rice foi visto como um sinal da disposição do Irã em conversar diretamente com os Estados Unidos.
A carta iraniana ignorou a importante questão das atividades de enriquecimento de urânio, mas afirmou que o Irã está procurando "encontrar uma base comum por meio de ações lógicas e construtivas," de acordo com oficiais que a leram.
Sob a proposta de incentivos oferecida ao Irã, as duas partes concordariam em discutir uma interrupção mútua - o Irã de aumentar as atividades de enriquecimento de urânio e as seis potências de levantar sanções internacionais adicionais.
Para que negociações substantivas se iniciem oficialmente, o Irã precisa primeiro interromper sua produção de urânio enriquecido que, dependendo do nível de enriquecimento, pode ser usado para produzir eletricidade ou bombas.
No entanto, alguns diplomatas europeus admitem que as negociações já começaram e que o Irã foi bem-sucedido em iniciá-las sem interromper suas atividades nucleares.
Tradução: Amy Traduções
The New York Times
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