Paul Steege*
Berlim
Passados 60 anos da data em que aviões norte-americanos e britânicos começaram a transportar suprimentos para Berlim Ocidental devido a um bloqueio soviético das rotas terrestres, até o Colbert Report, um programa de paródia humorística ao telejornalismo, vem repetindo o refrão da era da guerra fria, de que a ponte aérea salvou a população da fome e impediu que os soviéticos continuassem seu avanço pela Europa. Mas a ponte aérea jamais forneceu os componentes essenciais para a sobrevivência dos berlinenses ocidentais.
Embora ela tenha transportado mais de 2,3 milhões de toneladas de suprimentos para Berlim, esse volume não bastava de maneira alguma para atender as necessidades alimentícias dos berlinenses ocidentais, e os aviões nem mesmo tentaram fornecer o volume de carvão que teria sido necessário para manter os lares da cidade aquecidos. A vitória ocidental nessa primeira batalha da guerra fria aconteceu a despeito do fato de que a ponte aérea jamais atingiu seu propósito ostensivo: o de atender a todas as necessidades de suprimento de Berlim Ocidental.
Que o Ocidente tenha "vencido" dependeu, acima de tudo, das práticas de sobrevivência adotadas pelos moradores de Berlim Ocidental diante da escassez constante - práticas que as grandes potências não seriam capazes de controlar e que elas não conseguiram compreender. E essa vitória ocidental surgiu acompanhada por custos que não eram evidentes naquele momento e que vêm sido ignoradas no retrospecto.
Depois da Segunda Guerra Mundial, os quatro aliados vitoriosos -Estados Unidos, França, Reino Unido e União Soviética- dividiram a Alemanha em zonas de ocupação. Berlim, localizada na zona soviética e a mais de 160 quilômetros dos territórios ocupados aliados mais próximos, também foi dividida em quatro setores de ocupação. Por volta do segundo trimestre de 1948, as estruturas quadrilaterais criadas para administrar a Alemanha ocupada de forma unificada haviam desabado.
Em 24 de junho de 1948, os soviéticos suspenderam o tráfego rodoviário e ferroviário para os setores ocidentais de Berlim. Porque cada potência ocupante tinha a obrigação de fornecer comida e combustível aos moradores de seu setor, a maior parte dos relatos históricos presume que isso tenha cortado completamente as linhas de abastecimento de Berlim Ocidental, tornando a cidade dependente do transporte aéreo de suprimentos.
Mas os berlinenses ocidentais não se limitaram a apertar os cintos e esperar entregas de batatas desidratadas, e tampouco se limitaram a esperar na cabeceira da pista de Tempelhof pelas barras de chocolate que os criativos pilotos da ponte aérea lançavam para as crianças usando pára-quedas feitos de lenços.
Os moradores de Berlim faziam expedições de abastecimento à zona de ocupação soviética, organizavam arranjos sub-reptícios com lojas e barganhavam nas praças e ruas da cidade. Os moradores da cidade vinham praticando essas estratégias de mercado negro desde o final da guerra, e estavam acostumados a confiar nelas para sobreviver.
Eram práticas comuns, ainda que ilícitas, e se mantiveram em 1948/9, garantindo um fluxo constante, ainda que ocasionalmente perigoso, de bens que contornavam o bloqueio soviético. Mais de um mês depois de iniciado o bloqueio, um comunista alemão estava implorando às autoridades soviéticas que impedissem a entrada de legumes e verduras nos setores ocidentais da cidade, onde elas estavam disponíveis em maior quantidade e a preços mais baixos do que na porção soviética de Berlim.
Mesmo depois que as medidas de bloqueio foram ampliadas, em outubro de 1948, o bloqueio continuava a ser bastante permeável. Na metade de novembro, George Marshall, o secretário de Estado norte-americano, recebeu um relatório dos serviços de informações intitulado "Berlim está bloqueada?", e a avaliação oferecida pelos especialistas, e sustentada por informações obtidas em arquivos da Alemanha Oriental, foi: "apenas parcialmente".
Rejeitar a narrativa padrão de um bloqueio total não nega as incríveis realizações técnicas da ponte aérea ou o sacrifício dos aviadores britânicos e norte-americanos que morreram para transportar suprimentos à antiga capital alemã. E tampouco nega a crueldade dos soviéticos e dos comunistas alemães que não viam problemas em defender seu controle do sistema por meio de uma brutalidades. Mas a situação coloca em dúvida a posição de Berlim Ocidental como o calcanhar de Aquiles do Ocidente, e a opinião de que só um milagre poderia salvar a cidade dos soviéticos caso eles decidissem agir.
De fato, Berlim era um ponto de força para o Ocidente, e especialmente para os Estados Unidos. Mesmo no pico do bloqueio, os comunistas da cidade se queixavam repetidamente de que se sentiam sitiados.
O acordo internacional que resolveu a crise do bloqueio garantiu a independência de Berlim Ocidental mas também marcou a aceitação pelo Ocidente do Estado stalinista criado na outra metade da Alemanha. E isso ajudou a atenuar as ansiedades comunistas que haviam motivado a adoção de medidas de controle "expandidas", para começar.
Em 2008, corremos o risco de confundir as realizações simbólicas da ponte aérea com suas realizações materiais. A ponte aérea cimentou a aliança, e até amizade, entre alemães e norte-americanos, mas o bloqueio jamais ameaçou Berlim Ocidental de fome, ainda que tenha solidificado a determinação norte-americana de continuar o conflito que definiu o mundo em termos absolutos, e por fim destrutivos: a guerra fria.
Diante da guerra contra o terrorismo, que apresenta alegações universais semelhantes, aqueles que fazem apelos nostálgicos por soluções totais de política externa fariam bem em compreender as lições cautelares do Bloqueio de Berlim.
*Paul Steege é professor associado de História na Universidade de Villanova e autor de Black Market, Cold War: Everyday Life in Berlin, 1946-1949 ("Mercado Negro, Guerra-Fria: Vida cotidiama em Berlin, 1946-1949", em tradução livre.)
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Redação Terra