Nicolas Bourcier
Estados Unidos
A expectativa seria de encontrar uma mulher colérica, uma porta-voz típica dos opositores de Fidel radicados em Miami, petrificada de rancor. Seria possível imaginar uma tentativa de explicação que envolveria lamentação da parte de uma filha exilada, tanto da revolução quanto do líder. Mas não é isso que de fato encontramos. Alina Fernandez, filha rebelde de Fidel Castro instalada na metrópole da Flórida, oferece uma imagem de leveza, tranqüilidade.
Ela fuma seus cigarros pela metade - "tento me cuidar", diz - tem um piercing na língua e fala de si mesma com modéstia. "Sempre provoco reações extremas nas pessoas", afirma. Nascida três anos antes da revolução de 1959, de um relacionamento extraconjugal entre Fidel - "ele também bastardo, como eu" - e Natalia Revuelta - "mulher sublime e distante" - ela diz ter se criado à sombra dessa casal impossível, sempre sujeita às contingências do poder. Parte de uma família da melhor burguesia da Havana, ela recorda a mãe como "uma militante entusiasmada", e de uma casa muitas vezes repleta de homens barbudos entre os quais a figura central era sempre a de Fidel.
Na época, Alina considerava que fosse filha de Orlando Fernandez, o marido de sua mãe. Esse primeiro pai rompeu os laços familiares e deixou a ilha, e foi substituído gradativamente pelo barbudo onipresente na televisão e visto na casa em visitas ocasionais. "Eu e minhas amigas esperávamos todos os dias que ele acabasse logo o discurso, reprisado pela televisão à tarde, para que a gente pudesse assistir aos desenhos animados. Mas que nada".
Em 1964, Fidel enviou Revuelta a Paris como primeira secretária da embaixada cubana, e Alina acompanhou a mãe. Elas viveram lá por um ano e meio, e ao voltarem a Havana a mãe lhe contou pela primeira vez que o barbudo era seu pai real.
"Foi um choque", admite Alina. "Na escola, eu precisava preencher longas fichas de matrícula detalhando tudo que acontecia à minha família. Até aquele momento, eu costumava escrever que meu pai havia se exilado do país, um momento sempre humilhante". Fidel impunha seu ritmo, e orquestrava a vida cotidiana das duas. "Ele não era ausente; pelo contrário, mesmo que estivesse cada vez menos presente em termos físicos", diz Alina.
Mas com o tempo Fidel rompeu seu relacionamento com Revuelta, que caiu em desgraça. Ela procurou refúgio no partido, trabalhando sem descanso em diversos dos ministérios do regime. "Os Castro a tratavam bem melhor quando ela era a puta do barbudo do que quando se tornou a ex-amante do comandante", escreveu Alina em sua autobiografia, Fidel, Meu Pai.
Com a separação entre sua mãe e Fidel, ela continuou vivendo no coração da revolução, mas isolada. Cresceu sem muito contato com o pai, e quando precisava de ajuda recorria ao irmão deste, Raúl, "sempre disponível para ajudar a família".
E a pressão sobre ela não parava de crescer. Seus colegas de escola, seus amigos, pessoas que ela mal conhecia, lhe pediam que encaminhasse cartas a seu pai. Ela começou a ler esses textos, e descobriu neles como que um resumo de todos os sofrimentos que afligiam a ilha. "As pessoas me usavam como intermediária. Essa é o outro lado da moeda", diz Alina.
Casou-se pela primeira vez aos 17 anos, e voltaria a se casar três outras vezes. Ela começou a procurar uma maneira de escapar, e diz que começou a tomar consciência e a denunciar "a duplicidade no discurso tão característica de Cuba".
Ela diz: "Criticávamos os Estados Unidos porque promoviam a guerra contra nós, mas nós promovemos a guerra em Angola por 10 anos". Ela conta que se tornou impossível suportar essa "dupla moralidade" mesmo no seio de sua família, na qual sua existência era reconhecida mas a de sua mãe era relegada ao esquecimento.
Na faculdade, Alina voltou a se aproximar de Fidel, pela última vez. Ia todos os dias a seu escritório, e foi apresentada a todos os seus assessores mais próximos, mas sem que ninguém explicasse os motivos dessa súbita proximidade.
Quando ela se afastou do círculo do chefe, caiu sob a vigilância dos serviços de espionagem e se tornou objeto de conspirações. Aos 23 anos, ela rompeu o relacionamento com o pai. "Uma separação sem dramas. Nós até tentamos, mas não conseguimos criar um bom relacionamento", diz, categórica.
Alina teve de esperar 15 anos para conseguir deixar Cuba - 15 anos que passou tentando "me adaptar à minha inadaptação". Trabalhava como modelo para uma casa de moda de Havana. Mais tarde, se tornou dissidente, mas sem se tornar parte de uma organização política, porque não podia se aproximar de outros dissidentes - "uma vida de cão", ela diz.
Com a queda do muro de Berlim, em 1989, as coisas pioraram ainda mais: havia falta de comida, as pessoas se matavam por uma bicicleta, a angústia era permanente. Ela conseguiu um falso passaporte e comprou passagens de avião para três turistas espanhóis que viriam a Cuba.
No dia em que saiu da ilha, em 1993, ela se maquiou, passou pela alfândega falando com sotaque espanhol e conseguiu chegar a Madri. Lá, depois de uma campanha internacional de pressão diplomática, sua filha Mumin foi se juntar a ela algumas semanas mais tarde.
Elas viveram em Barcelona e Nova York, onde Alina se manifestou contra a presença de Fidel na ONU (a foto correu mundo). Depois de oito anos de exílio, se radicou em Miami. Quanto a Fidel, ela se mostra reservada com relação a sua doença: "É algo natural para alguém com mais de 80 anos".
Alina pensa que a transição em Havana será demorada. O plano de Alina é se tornar cidadã dos Estados Unidos: "Não sei se quero voltar à ilha, e os últimos anos foram difíceis". Algumas semanas atrás, ela assinou contrato com o diretor e roteirista norte-americano Bobby Moresco, que quer adaptar sua autobiografia. "Adoro imagens", ela diz.
Tradução: Paulo Migliacci ME
Le Monde