José-Alain Fralon
França
Esta semana, a rainha Elizabeth II, da Inglaterra, festejou o 55° aniversário de sua coroação. Assim como Sua Graciosa Majestade, os soberanos do Velho Continente estão solidamente instalados em seus tronos e servem como bússola aos seus súditos ocasionalmente desnorteados.
Os monarcas europeus podem estar seguros: eles não estão de forma alguma próximos de sofrer destino semelhante ao de seu "primo" nepalês Gyanendra, que foi forçado a deixar o trono. Aliás, excetuado Alberto II, da Bélgica, que enfrenta dificuldades em um país cujo futuro está em risco devido ao separatismo flamengo, os reis da Europa jamais pareceram tão firmemente instalados em seus palácios.
Os militantes holandeses dos anos 60 que gritavam "viva a república!" e jogaram tomates durante o casamento da princesa Beatrix, herdeira do trono dos Países Baixos - alguém sabe o que foi feito deles? E o que aconteceu aos comentaristas que previam, quando da morte da princesa Diana, a queda inevitável da dinastia Windsor? E o que pensar da profecia de François Mitterrand, que em 1975 escreveu que "jamais acreditei em Juan Carlos, esse rei de terceira mão; consigo antever facilmente a crise que o derrubará".
Hoje, Beatrix reina tranqüila sobre o país das tulipas, aconselhando os políticos, sempre respeitada, administrando uma das mais sólidas fortunas mundiais e uma coleção assaz extravagante de chapéus. Elizabeth II soube dar tempo ao tempo e esperar que o país esquecesse o caso da "angelical" Lady Di. Quanto a Juan Carlos, depois de ter contribuído vigorosamente para o restabelecimento da democracia na Espanha, ele recentemente se permitiu criticar publicamente o presidente venezuelano Hugo Chávez.
Na Escandinávia, a rainha Margrethe, da Dinamarca, sem dúvida a mais popular dos soberanos europeus, sempre defende suas opiniões feministas e de oposição ao racismo, e mantém uma vida cultural ativa, tendo, por exemplo, traduzido Simone de Beauvoir para o dinamarquês. Harald V, da Noruega, passou por momentos turbulentos em 2002, devido a escândalos políticos. O Parlamento chegou a cogitar uma solução republicana, mas a idéia parece ter sido abandonada. O rei da Suécia, enquanto isso, vive em permanente bom tempo; defensor da ecologia como a maior parte dos soberanos, ele reduziu em uma hora ao dia o período de uso de eletricidade em três de seus castelos, para demonstrar seu apoio à luta contra o aquecimento global.
Mesmo que as modelos, os jogadores de futebol e os apresentadores de televisão se tenham tornado mais célebres do que os soberanos, eles continuam sempre a ocupar a primeira página dos jornais populares. Um casamento de príncipe ou o enterro de um membro da família real servem para elevar as tiragens. A etiqueta resulta em bons negócios no setor de turismo - muita gente continua a assistir à troca da guarda diante do palácio de Buckingham. E, de Stefan Zweig a Sofia Coppola e Robert Hossein, a velha Maria Antonieta parece longe do esquecimento.
É necessário perguntar: no século XXI, como é que esses anacronismos - aos quais poderíamos somar outros monarcas e príncipes reinantes europeus, tais como o grão-duque de Luxemburgo, ou os príncipes de Mônaco, Liechtenstein ou Andorra - conseguem sobreviver, e até mesmo prosperar? Como personalidades de relativo carisma, especialmente depois que os paparazzi substituíram os pintores da corte, de inteligência muitas vezes mediana (e sem que eles tenham grande necessidade de se servir dela), de fortunas hereditárias e despesas pesadas aceitas sem grandes hesitações morais - a rainha Beatrix anda recebendo críticas da imprensa holandesa pelo custo de suas viagens aéreas -, o que os torna ainda populares? Sem dúvida o fato de que os monarcas servem de referência a seus súditos inquietos. Eles estão onde estão porque estão, e nada mais ou nada menos.
É quase tão impossível que a França de volta o trono ao Conde de Paris quanto que a Dinamarca deponha sua rainha. Na verdade, em uma interessante reviravolta histórica, perguntar aos jovens da Holanda, Dinamarca ou Espanha se eles são republicanos é que pareceria verdadeiramente anacrônico hoje.
Tradução: Paulo Migliacci ME
Le Monde