UE trata Putin com respeito e Bush com indiferença

10 de junho de 2008 • 14h25 • atualizado às 14h25

John Vinocur

França


Vladimir Putin visitou a capital francesa há pouco mais de uma semana, e George W. Bush o fará nos próximos dias. As divergências entre os dois em termos de relevância e trajetória, ao final dos oito anos de suas presidências paralelas, são o marco de uma era.

Se tivéssemos de resumir essas distinções a alguns poucos fatos, Putin criou uma Rússia agressiva e assertiva, um país aparentemente rico onde não existe justiça e vida política democrática, e cujos recursos de petróleo e gás natural chegam perto de dar a Moscou o controle completo sobre o suprimento europeu de energia.

O sucesso de Putin está no fato de que ele conseguiu perpetuar seu regime e seu poder pessoal. Bush, de forma igualmente resumida, deixa o governo com a influência dos Estados Unidos e a boa vontade do mundo para com seu país muito diminuídos.

Ele se provou incapaz de vencer uma guerra no Iraque cuja melhor justificativa, desconsiderados fatores como a baía de Guantánamo e Abu Ghraib, teria sido a vitória.

Os aliados dos Estados Unidos estão à espera de que os eleitores do país virem a página. A Europa continua atenta ao que Putin diz, a despeito do rótulo a que sua função faça jus em termos protocolares ¿hoje, primeiro-ministro.

O presidente americano, que visitará cinco países europeus ao longo de uma semana, é praticamente uma nota de rodapé para os líderes europeus, ainda que eles o respeitem como pessoa, por sua decência e sua simpatia.

É muito irônico. A Europa sempre alegou desejar menor interferência americana em seus assuntos, e estão enfim conseguindo exatamente o que desejavam.

E ao mesmo tempo, depois de ter feito de Bush seu alvo preferencial durante seus dois mandatos, a opinião pública européia quase nada tem a dizer sobre o espectro da Rússia de Putin que avulta sobre o continente ¿ameaçando países vizinhos como alvos de mísseis, alertando contra a expansão da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) ou contra a concessão de independência a Kosovo e negando uma lei que submeteria o domínio da estatal russa de energia Gazprom sobre as necessidades energéticas da Europa às normas da concorrência, confiabilidade e igualdade de acesso.

Normalmente, de acordo com a visão de mundo que predomina nos Estados Unidos, o presidente do país precisa demonstrar liderança mundial, não importa o que pensem os europeus a respeito das mudanças de direção na orientação política de Washington.

Exceto que, no que tange a Bush, há fortes argumentos no sentido de que ele jamais demonstrou liderança, com relação a Putin. Até hoje, Bush não se dispôs a se retratar publicamente pelo traço de ternura e sentimento que diz ter percebido no olhar de Putin.

O que nos conduz ao velho paradigma do relacionamento entre Putin e Bush. O que esse paradigma significa é que, quanto ao Irã, ao suprimento de energia e a pintar os Estados Unidos como os vilões planetários - ao longo do final de semana, o presidente Dmitri Medvedév, ecoando palavras anteriores de Putin, classificou o "egoísmo econômico" dos americanos como a principal causa da crise financeira mundial -, a Rússia faz mais ou menos tudo o que quer, e os Estados Unidos em geral mantêm o silêncio a respeito.

Não estamos falando exatamente de uma história de sucesso de parte dos americanos. E agora, vozes concordantes na França dizem que o diálogo entre Putin e o presidente Nicolas Sarkozy, no final de maio, demonstra a primazia do líder russo, e a manutenção de suas políticas.

"Isso coloca os pingos em todos os is sobre a análise de que Medvedév é apenas um testa de ferro", disse um assessor que aconselha Sarkozy sobre os assuntos referentes à Rússia.

De acordo com um segundo assessor presidencial, Putin "falou como chefe". O Monde, que entrevistou Putin enquanto este estava em Paris, reforçou essa autoridade ao escrever que a visita confirmava que "Putin continua a ser o verdadeiro líder do Kremlin. É ele que define as políticas da Rússia", afirmou o jornal, acrescentando que isso deixa a Medvedév uma margem limitada de manobra.

Se somarmos a tudo isso a reticência continuada dos franceses e alemães e o erro persistente de julgamento de Bush quanto a Putin, o resultado é que ninguém está disposto a encarar a Rússia quanto à energia ou a deter os esforços de Moscou para impedir que antigos países do bloco soviético se integrem ao Ocidente.

E também significa falta de vontade, entre os aliados, para contornar os anos de manobras de bloqueio empreendidas pela Rússia em benefício dos iranianos no Conselho de Segurança da ONU.

Em termos gerais, podemos demonstrar que George W. Bush jamais demonstrou qualquer sinal de força de vontade para isso. Ele decidiu deixar de lado qualquer papel de liderança na conferência de cúpula do G8 em 2006, quando optou por não confrontar Putin em defesa de normas que ajudariam a reduzir a dependência européia da Rússia como fonte de energia, algo que a Otan define como um dos maiores problemas estratégicos da aliança.

Passados mais dois anos, nada parece sugerir que, nas negociações que se iniciarão em breve sobre uma nova "parceria estratégica" com a Rússia, a União Européia insistirá em um acordo geral de energia que conceda proteções iguais a todos os países membros.

Unir forças em todo forte e coeso - é supostamente a esse fim que a unificação européia deveria servir. Mas Bush, talvez preocupado com as repercussões caso questionasse Alemanha e Itália quanto ao tratamento preferencial que recebem de Moscou, jamais defendeu esse argumentou ou ofereceu uma proposta alternativa quanto a uma carta mundial sobre o relacionamento entre consumidores e fornecedores de energia.

Uma das racionalizações oferecidas dois anos atrás era a de que Bush não desejava antagonizar a Rússia em um momento no qual ainda esperava a assistência de Putin contra o Irã.

Na verdade, Putin continuou a insistir, em sua entrevista ao Monde, que o Irã não está à procura de armas nucleares. "Não muito nos separa, no que tange ao Irã", ele disse sobre Rússia e Estados Unidos.

Temos aí uma situação notavelmente positiva para Putin, porque ele sabe que Bush não reagirá com uma crítica forte não importa o quanto suas declarações sejam absurdas.

Nas últimas semanas, quando os Estados Unidos tentaram conferir a Ucrânia e Geórgia a posição de candidatos a admissão na Otan, a iniciativa desabou.

Foi uma nova prova da falta de efetividade americana. Bush permitiu que uma Rússia sem rivais aparentes se erguesse a ponto de ser forçado a um recuo, quando França e Alemanha alegaram que não desejavam provocar Moscou.

Agora, a Rússia parece determinada a anexar, para todos os fins práticos, as duas regiões que se cindiram da Geórgia, e continua a intimidar a Ucrânia.

É nessa Rússia que Putin floresce, com sua posição e prestígio intactos. Bush, que nunca o desafiou de forma aberta, agora já está em clima de final de governo e continua a ignorar os problemas causados pela ascensão do país de seu amigo.

Olhando para Putin com prudência e respeito e para Bush, agora, com mais indiferença do que raiva, a Europa escuta o primeiro e simplesmente finge que escuta o segundo.

Bush se reunirá com Medvedév, que usa camisas e gravatas mais elegantes do que o guarda-roupa de Putin, que continua fiel ao estilo KGB, no Japão durante a conferência de cúpula do G8. Medvedév agora falará com a voz de Putin, e Bush continuará a apenas sussurrar a sua mensagem.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Herald Tribune
 
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