Fuga da época da Guerra Fria divide checos

02 de junho de 2008 • 12h40 • atualizado às 13h04
Pôster da época mostrava os três procurados por escapar para a Alemnha Ocidental
Pôster da época mostrava os três procurados por escapar para a Alemnha Ocidental
02 de junho de 2008
The New York Times

Dan Bilefsky

Estados Unidos


Para alguns checos, foi a maior fuga da história da guerra fria. Mas na Europa Central, onde é comum reescrever a História, muitas outras pessoas vêem os cinco jovens checos que percorreram florestas nevadas durante 28 dias até chegar a Berlim Ocidental, em 1953, como assassinos impiedosos, o equivalente, no mundo da cortina de ferro, aos terroristas islâmicos do presente.

» Fuga divide checos

Em outubro daquele ano, os cinco checos forçaram caminho e cruzaram a fronteira entre Checoslováquia e Alemanha Oriental, e se dirigiram ao setor norte-americano de ocupação da Berlim dividida. A jornada que eles imaginavam duraria cinco dias terminou levando quatro semanas. Eles enfrentaram a fome, o frio intenso, ferimentos a bala e uma caçada empreendida por 24 mil soldados soviéticos e policiais alemães orientais.

Ao longo do caminho, os jovens que se declaravam combatentes anticomunistas - os irmãos Josef e Ctirad Masin e seus amigos de infância Milan Paumer, Zbynek Janata e Vaclav Sveda - roubaram carros, tomar submetralhadoras de policiais, drogaram adversários com clorofórmio, invadiram delegacias de polícia e mataram seis pessoas, entre as quais um policial cuja garganta eles cortaram com uma faca de escoteiro.

Por fim, depois de passarem uma última noite escondidos em buracos recobertos por ramos de árvores e de percorrerem 320 quilômetros, três dos rapazes chegaram a Berlim Ocidental. Eles foram interrogados pela Agência Central de Inteligência (CIA) e depois se alistaram no exército dos Estados Unidos, na esperança de um dia combater pela libertação de seu país. Os dois outros ¿Janata e Sveda- foram capturados pela polícia e executados.

Quando o primeiro-ministro Mirek Topolanek decidiu honrar os rapazes como heróis da República Checa, o governo esperava alguma controvérsia, em um país que ainda enfrenta dificuldades para lidar com seu passado comunista. Mas não estava preparado para o fervoroso debate que encapsula toda a ambivalência associada à história recente do país.

Embora uma minoria dos checos tenha elogiado a honraria como tributo digno a combatentes pela liberdade que ousaram se opor a um regime repressivo, quase metade da população os vê como criminosos, de acordo com uma pesquisa conduzida pela TV estatal da República Checa.

Topolanek defendeu sua decisão, dizendo que desejava demonstrar que a luta armada contra o comunismo era um imperativo moral tão sério quanto a luta contra o nazismo havia sido em passado mais distante. O Partido Comunista Checo, que ainda mantém a velha linha marxista e obteve 13% do voto popular nas mais recentes eleições legislativas, em 2006, exigiu que as medalhas sejam revogadas, e que eles sejam julgados pelos seus crimes. Outros acusaram Topolanek de glorificar assassinatos e demonizar a esquerda.

"Em um momento no qual estamos envolvidos na luta contra o terrorismo, estes homens não são bons exemplos, e exaltá-los nos conduzirá por um caminho perigoso", disse Lubomir Zaoralek, importante membro do Partido Social Democrata, de oposição. Além disso, ele argumentou, as tropas soviéticas foram recebidas como libertadoras do país que vivia em jugo nazista, depois da Segunda Guerra Mundial, e o Partido Comunista venceu eleições democráticas em 1946.

Para Paumer, 76 anos, um homem ainda vigoroso e propenso a usar casacos de couro e falar muitos palavrões, a controvérsia serve simplesmente para provar uma opinião que ele sustenta há muito tempo: a República Checa continua sob as rédeas do comunismo. Paumer, que se tornou cidadão dos Estados Unidos depois de fugir da Checoslováquia e foi motorista de táxi em Miami por 30 anos antes de voltar ao seu país natal quando a Revolução de Veludo derrubou o governo comunista, em 1989, afirma que as mortes pelas quais ele e seus amigos foram responsáveis representavam uma resposta justificada a um regime totalitário.

Ele diz que, já nos anos 50, os comunistas haviam aprisionado dezenas de milhares de opositores, confiscado propriedades privadas e sufocado a liberdade de expressão. Mas, desde que recebeu o prêmio, ele diz que vem sendo abordado por pessoas na rua que o chamam de "assassino", aos gritos. "Nós lutamos para libertar este país do comunismo e as pessoas choram pelos seis homens mortos", diz Paumer, cujo cartão de visitas traz a efígie da Estátua da Liberdade. "Mas aquelas pessoas foram baixas de guerra, e eu não tenho pena. Nós, os verdadeiros democratas, choramos por aqueles que os comunistas aterrorizaram por 40 anos".

Historiadores e sociólogos dizem que a decisão do governo de honrar os fugitivos terminou por despertar uma questão dormente mas dolorosa sobre a passividade dos checos nos 41 anos de domínio comunista. Hoje, a República Checa, membro da União Européia e da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), está entre as maiores histórias de sucesso econômico entre os antigos integrantes do bloco soviético, e muita gente por aqui diz que não quer revisitar um passado difícil.

"As pessoas não conseguem perdoar Paumer e os irmãos Masin porque eles demonstraram que era possível lutar contra o comunismo, sobreviver e vencer", diz Petr Placak, um importante comentarista liberal. "A maioria dos checos acreditava que o certo fosse sofrer em silêncio e esperar por tempos melhores, de modo que é muito mais fácil chamá-los de 'assassinos' do que aceitar a responsabilidade por nossa impotência".

O historiador e jornalista Erik Tabery lembra que, em 1938, quando a Checoslováquia foi dividida para satisfazer os nazistas, com a conivência do Ocidente, os checos não dispararam uma bala. Depois do golpe comunista de 1948, a democracia checa pereceu sem luta. "Nossos líderes nos congratulam por nos revoltarmos contra o comunismo ficando em casa, inertes", ele diz.

Mas ficar em casa inerte nunca foi uma opção, para Paumer e seus quatro amigos de infância, ele diz. Depois que os comunistas tomaram o poder, afirma Paumer, os cinco começaram a realizar pequenos atos de sabotagem em sua cidadezinha, Podebrady, cerca de 50 quilômetros distante de Praga, queimando plantações e pichando pôsteres de Stálin.

Determinados a obter armas para conduzir sua luta, conta Paumer, em 1951 eles invadiram o museu local e roubaram diversas armas que estavam em exposição, e depois descobriram que os pinos de disparo das armas haviam sido removidos.

Frustrados, decidiram assaltar a delegacia de polícia. Paumer relembra que usaram uma ambulância como carro de fuga. Ele ajudou na tomada do veículo, fingindo que tinha uma perna quebrada. Quando um policial na delegacia se recusou a abrir o cofre, Ctirad Masin o dominou com clorofórmio e depois cortou sua garganta. Os três fugiram da delegacia com seis submetralhadoras e oito pistolas.

"No dia seguinte, a perseguição foi iniciada com toda a intensidade, e havia policiais por toda parte", conta Paumer, que tinha 21 anos quando tudo isso aconteceu. "Deixamos o policial no chão, coberto de sangue. Queríamos mostrar aos comunistas o que podíamos fazer, que éramos capazes de matar e de contra-atacar".

Com as armas que tomaram, disse Josef Masin, o próximo passo para os amigos era obter dinheiro. Em 1953, eles roubaram um furgão de segurança que estava transportando o dinheiro para fazer o pagamento semanal dos funcionários de uma fábrica ¿cerca de um milhão de coroas checas, ou US$ 140 mil.

Masin diz que ele e o irmão detiveram o furgão usando uniformes da milícia e mostrando uma placa vermelha de pare, em uma curva estreita de uma estrada. Quando o caixa que estava no furgão se recusou a entregar o dinheiro e apanhou uma arma, conta Masin, ele se lançou contra o homem, segurou a arma que ele empunhava contra o corpo dele e premiu o gatilho usando o indicador do caixa, duas vezes.

Depois do roubo, Paumer foi convocado para o serviço militar. As autoridades continuavam a ignorar seu papel nos atentados contra o regime. Não demorou para que ele recebesse uma mensagem de telex dos irmãos Masin, na qual eles informavam que "o casamento será no sábado" - um código para o horário em que deveriam fugir. Em outubro de 1953, os cinco amigos partiram em direção da fronteira da Alemanha.

"Estávamos esperando que estourasse o conflito entre o Ocidente e o Leste", disse Paumer. "Esperávamos pela Terceira Guerra Mundial entre a Rússia e os Estados Unidos. Estávamos desesperados por atrair o envolvimento norte-americano, de modo que pudéssemos combater os comunistas abertamente".

Paumer disse que a parte mais apavorante da fuga aconteceu apenas alguns dias antes que eles chegassem a Berlim Ocidental, quando ele foi atingido pelo tiro disparado por um policial, enquanto caminhava pela floresta. As luzes de Berlim Ocidental estavam à vista, ele diz. "Quase desisti, nos quilômetros finais da viagem. Estava fraco e cansado demais. Mas Joe me apontou uma arma e disse: 'Ou eu te mato ou eles te matam. Pode escolher'".

Depois de chegar à zona de ocupação norte-americana em Berlim Ocidental, os três checos que conseguiram completar a fuga se entregaram à polícia. Paumer foi atendido em um hospital militar. Os três se alistaram no exército dos Estados Unidos. Paumer serviu na guerra da Coréia e depois se mudou para Miami, quando deu baixa. Josef Masin primeiro se instalou na Alemanha e depois em Santa Barbara, Califórnia, onde criou uma companhia de aviação e se tornou milionário. Ctirad Masin se mudou para Cleveland e vende aquecedores.

Josef Masin disse em entrevista telefônica que ele e o irmão se recusavam a retornar à República Checa porque o Partido Comunista não foi declarado ilegal. "As mesmas pessoas contra as quais lutamos continuam no comando do país", ele disse, declarando que não sentia remorsos pelas pessoas que haviam matado.

Paumer terminou por retornar à República Checa em 1991, e vive em um apartamento minúsculo e quase desprovido de mobília, em Podebrady. A única decoração que se vê é um pôster de cerveja e sua medalha, em um mostruário de vidro afixado à parede.

Determinado a informar a nova geração sobre o passado, ele faz palestras em escolas de segundo grau e sobrevive precariamente com sua pensão do exército norte-americano, de cerca de US$ 700 ao mês. Já houve negociações quanto à possibilidade de transformar a fuga dos rapazes em um filme para Hollywood.

Embora os norte-americanos jamais tenham invadido a Checoslováquia para travar guerra contra os comunistas, Paumer e Masin dizem que não têm ressentimentos para com os Estados Unidos. "Tenho orgulho de ser cidadãos norte-americano¿, disse Masin. "Foram os checos que me decepcionaram". "Eles jamais fazem coisa alguma por eles mesmos", disse. "A geração mais velha deveria ter vergonha por suas décadas de colaboração com os comunistas. Mas eles preferem sempre oferecer alguma maldita desculpa".

Tradução: Paulo Migliacci ME

Herald Tribune
 
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