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EUA mantêm projeto de cerca apesar de oposição

21 de maio de 2008 11h37 atualizado às 11h40

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos tenta concluir 1.070 km de cerca na fronteira com o México. Foto: The New York Times

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos tenta concluir 1.070 km de cerca na fronteira com o México
Foto: The New York Times

Enquanto o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos pressiona para concluir os 1.070 km de cerca na fronteira entre o México e os Estados Unidos até o final deste ano, vem enfrentando a mais séria resistência ao projeto até o momento, e ao mesmo tempo admite que barreiras físicas apenas não bastarão para impedir as travessias ilegais.

A mais recente contestação vem da Texas Border Coalition, uma organização de prefeitos, dirigentes de condados e economistas que se opõem à cerca e abriu processo na Justiça federal contra sua construção, na sexta-feira. O processo alega que Michael Chertoff, o secretário da Segurança Interna norte-americana, não conduziu as negociações requeridas com os proprietários de terras e as autoridades locais, quando ordenou a construção da barreira no Texas. O grupo deseja a suspensão da construção. Os protestos surgem enquanto os esforços conhecidos de entrada ilegal de imigrantes - medidos pelo número de pessoas detidas na fronteira - se reduzem em 17%, este ano, depois do declínio de 20% registrado em 2007, figuras que o chefe David Aguilar, das Patrulha de Fronteira, aponta como prova de que a estratégia geral de vigilância de fronteira está funcionando.

Mas Aguilar e outros funcionários ainda assim reconhecem que a nova cerca se provou útil especialmente quando apoiada por outros métodos de fiscalização, tais como vigilância eletrônica e processos agressivos contra imigrantes ilegais apanhados pela Patrulha de Fronteira. Desde o ano passado, a queda mais acentuada nas travessias ilegais, ao longo dos 3,2 mil km de fronteira, aconteceu na região leste do Arizona, e em lugares do Texas nos quais essas táticas foram aplicadas, demonstram os dados oficiais.

Problemas técnicos vêm prejudicando os planos para expandir e reforçar a segurança eletrônica até fazer dela uma cerca virtual, e há dúvidas quanto à data em que esse sistema estará em uso generalizado. Depois de meses de atraso, a Patrulha de Fronteira aprovou em fevereiro o sistema-piloto proposto pela empresa encarregada de montar o sistema, a Boeing, segundo a qual, porém, a maior parte do protótipo, testado em uma seção de fronteira de 45 km, será substituída. A empresa também construíra uma cerca virtual em outro trecho de 48 km do sul do Arizona, e no ano que vem testará sistema semelhante na fronteira canadense, perto de Detroit. Chertoff reconheceu em entrevista que a construção de barreiras físicas -até o mês passado, cerca de 495 km de cerca haviam sido erigidos - não era a peça principal nos esforços de combate à imigração ilegal, mas defendeu a utilidade da cerca.

"Não acredito que a cerca seja uma panacéia", disse Chertoff. "Nem que seja um desperdício. Sim, é possível saltá-la; sim, é possível escavar por sob ela. Mas se trata de uma ferramenta útil, que dificulta o cruzamento ilegal. É uma das ferramentas de que dispomos, e é preciso usar todas as ferramentas". Até dois mil imigrantes ao dia continuam a cruzar ilegalmente a fronteira dos Estados Unidos, de acordo com estimativas de estudiosos que conhecem bem a situação da fronteira. Mantendo o jogo de gato e rato em que estão envolvidos há décadas, os clandestinos se afastam das áreas sobre as quais a Patrulha de Fronteira estabelece controle e procuram pontos mais vulneráveis - recentemente, na região próxima a San Diego.

Além da vigilância das fronteiras, o tráfego de imigrantes é influenciado por diversos fatores sociais, políticos e econômicos; a recente queda no número conhecido de travessias, por exemplo, ocorreu no momento em que a economia começou a perder o ímpeto, o que reduz o número de empregos em construção e outros setores que atraem imigrantes. Trinidad Alamea, que opera um pequeno abrigo em Naco, a curta distância da fronteira, diz que recentemente diversas noites se passaram sem que um imigrante procurasse ajuda. Mas Alamea diz que flutuações como essa já aconteceram no passado, e que o tráfego de imigrantes retornou quando os especialistas em travessias clandestinas se ajustam às novas condições e táticas que as autoridades dos Estados Unidos criam.

"As pessoas vão atravessar, com ou sem a cerca", ele disse. A oposição à cerca se intensificou no mês passado depois que Chertoff se valeu de autoridade que lhe foi atribuída pelo Congresso e suspendeu mais de duas dúzias de leis, de proteção ao meio ambiente e outras, a fim de levar adiante a construção. Chertoff disse que seu departamento tinha de contornar essas leis se desejava atingir a meta estabelecida dois anos atrás pelo Congresso, de completar pelo menos 1.070 km de cerca até o final do ano.

Catorze deputados federais norte-americanos, todos democratas, entre os quais Bennie Thompson, do Mississipi, presidência do Comitê de Segurança Interna da Câmara, disseram apoiar o processo aberto em abril por dois grupos ambientais, o Sierra Club e o Defenders of Wildlife, para contestar a suspensão das leis decretada por Chertoff. Os adversários da idéia questionam tanto o possível efeito adverso da construção da cerca sobre a economia da fronteira quanto se o seu custo de US$ 2,1 bilhões representa o melhor uso do orçamento de proteção à fronteira.

"Ninguém pensou metodicamente sobre essa idéia da cerca", disse Patricio Ahumada, prefeito de Brownsville, Texas. "O Departamento de Segurança Interna a está usando para criar uma falsa sensação de segurança entre os norte-americanos, alegando que ela manterá os imigrantes ilegais e os terroristas fora do país, mas isso não é verdade".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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