Ásia

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Sexta, 16 de maio de 2008, 19h31 Atualizada às 19h35

Afeganistão: fome e alta dos alimentos atingem população

Algumas semanas atrás, ladrões invadiram o mercado de farinha de Candahar em plena luz do dia, matando e ferindo duas pessoas antes de escapar com o produto de seu saque.

"Não estamos nos sentindo seguros", disse Haji Hayatullah, um dos comerciantes de farinha, sentado no chão de sua loja e cercado por pilhas de sacos de farinha.

"Não temos segurança e não confiamos em que o governo seja capaz de cuidar dela." Os comerciantes se uniram e contrataram oito seguranças. No entanto, o medo continua - não só de bandidos, mas porque os comerciantes também sentem a crescente fome e desespero da população do país.

Embora ainda não tenham acontecido tumultos no Afeganistão devido à disparada nos preços da comida, os problemas econômicos e a fome estão atingindo severamente os pobres e os desempregados, alertam funcionários de organizações assistenciais.

Os professores ameaçam uma greve, e já houve algumas manifestações populares bastante rancorosas. "Os preços são um grande problema para o nosso povo. As pessoas não cultivam comida bastante, e por isso dependemos de importações do Paquistão, e os preços sobem a cada dia", disse Hayatullah.

"É muito difícil para o povo; o desemprego é o maior problema, e as pessoas são muito pobres. Sinto que, caso essa situação continue, as pessoas saquearão o mercado", afirmou.

O Afeganistão vive uma situação especialmente problemática, disse Anthony Banbury, diretor para a Ásia do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, em visita recente a Candahar.

Não só é um dos países mais pobres do mundo como enfrenta um conflito prolongado e todos os problemas concomitantes de desrespeito às leis, deslocamento, mercados mal desenvolvidos e destruição de infra-estrutura, que deixam a população especialmente vulnerável a choques de preço, ele disse.

"Para milhões de afegãos, os segmentos mais pobres da sociedade, que gastam até 70% de sua minguada renda em comida, essas altas nos preços dos alimentos colocam as necessidades básicas simplesmente fora de alcance", disse Banbury.

Seis milhões dos 32 milhões de habitantes do Afeganistão já estão recebendo assistência alimentar, e o Programa Mundial de Alimentos está se preparando para expandir a ajuda.

O programa fechou acordo com o governo para reiniciar um plano de assistência aos pobres urbanos que envolveria as padarias do país, que estava em operação nos anos em que o Taleban governou a nação, mas foi cancelado depois da invasão liderada pelos Estados Unidos no final de 2001.

O governo também está pedindo ajuda para fornecer assistência alimentar aos 172 mil professores da rede pública do país, alguns dos quais abandonaram o trabalho porque não conseguem cobrir suas despesas.

Isso basta para indicar que as coisas estão se agravando, ele diz. "Em todas escolas e em todas as classes que visitamos, os professores disseram que precisavam de salários mais altos e de mais alimentos", disse Banbury.

"As pessoas estão morrendo de fome", disse o mendigo Sardar Muhammad, 80 anos, agachado no chão de uma loja de farinha em Candahar. Seus dois filhos trabalhavam como diaristas no mercado, mas não ganham o bastante para alimentar a família, diz ele.

Os preços da farinha e do pão subitamente dobraram, em prazo de suas semanas, em maio, depois que o vizinho Paquistão cancelou suas exportações de trigo e farinha.

Os negociantes dizem que contrabandearam farinha pelas estradas de montanha. A distribuição de farinha pelo governo, na cidade de Candahar e nos distritos vizinhos, terminou por aliviar os temores da população, e o preço da farinha caiu um pouco no varejo local.

Mas, com uma inflação anual de 22%, os preços continuam altos demais, para muitos afegãos. Hayatullah descreveu como um freguês visitou sua loja e pediu que o negociante carregasse um saco de farinha na garupa de sua bicicleta.

"Ele disse: 'Não me peça para pagar. Trabalhei a vida toda e nunca aceitei subornos, nunca tirei nada de pessoa alguma, e agora sou forçado a levar a farinha sem pagar. Minhas crianças não têm nada para comer'", relembra o comerciante.

"Ele disse que voltaria e me pagaria se Deus lhe desse dinheiro", continuou. O episódio é incomum porque se tratava de um homem respeitável, educado, e na cultura afegã é profundamente vergonhoso levar alguma coisa sem pagar, disse o comerciante.

"Percebi que ele estava passando por verdadeiros problemas", conta Hayatullah. "Coisas como essa piorarão mais e mais, porque as pessoas não terão outra coisa a fazer, caso tenham mulher, filhos, e lhes falte dinheiro", ele disse.

O governo afegão esteve entre os primeiros a antecipar a crise de alimentos iminente, e em janeiro apelou por ajuda do Programa Mundial de Alimentos, que arrecadou US$ 75 milhões para cobrir seis meses de assistência suplementar, segundo Banbury.

O governo está gastando US$ 50 milhões na distribuição de farinha para a população. Há planos em curso para ampliar a assistência do Programa Mundial de Alimentos, pelos próximos seis meses.

Mas dirigentes da organização dizem que isso não representa solução de longo prazo para a fome no Afeganistão. A despeito dos bilhões gastos em assistência ao Afeganistão nos últimos seis anos, os doadores internacionais não conseguiram investir substancialmente na agricultura, o setor do qual a maioria da população sobrevive, disse Banbury.

Ele pede por um programa de larga escala e alcance nacional para a distribuição de sementes melhoradas e ferramentas aos agricultores, a fim de ajudar a elevar a produção. "Agricultores são as pessoas mais racionais do mundo", ele disse. "Se você lhes der sementes, eles plantarão."

Tradução: Paulo Migliacci ME

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The New York Times Os problemas econômicos e a fome estão atingindo severamente os pobres e os desempregados do país Os problemas econômicos e a fome estão atingindo severamente os pobres e os desempregados do país

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