Doreen Carvajal
Estados Unidos
Em lugar disso, o novo mistério é determinar como pesquisadores acadêmicos se iludiram a ponto de acreditar que fotos cruas de restos mortais de vítimas de um terremoto nas cercanias de Tóquio em 1923 fossem na verdade cenas da devastação causada pela primeira bomba atômica.
Na terça-feira, o diário francês Le Monde publicou uma extensa correção, depois de ter veiculado no sábado duas fotos não muito nítidas, em branco e preto, de uma pirâmide de cadáveres, acompanhadas pela legenda "Hiroshima: o que o mundo nunca viu". O jornal afirmou na correção que as fotos, publicadas também nos Estados Unidos e na Itália, "provavelmente não eram autênticas".
"A primeira lição a extrair do caso é que os arquivos cometem erros e os historiadores cometem erros", disse Malloy, professor assistente da Universidade da Califórnia em Merced, que publicou uma história do ataque atômico de 1945, Atomic Tragedy, contendo fotos raras fornecidas pelos arquivos da Hoover Institution. "A Hoover cometeu um erro, e eu também", ele afirmou.
As fotos eram parte do acervo pessoal de Robert Capp, que serviu o exército dos Estados Unidos e doou o filme em 1998 à Hoover Institution, explicando que ele o havia encontrado em uma caverna nas cercanias de Hiroshima. Capp fala sobre a descoberta em uma entrevista gravada que consta do acervo da instituição, e impôs a restrição de que o material não fosse publicado antes de 2008.
Malloy tentou determinar a origem do fotógrafo responsável pelas imagens fazendo um apelo via Internet que se espalhou rapidamente pela blogosfera e atraiu a atenção de pesquisadores japoneses. Eles informaram a Malloy que fotografias semelhantes haviam sido publicadas sobre o terremoto, que devastou a região de Kanto, a planície em que se localiza Tóquio, em setembro de 1923, matando cerca de 100 mil pessoas. Os pesquisadores japoneses enviaram amostras dessas imagens ao colega norte-americano.
A Hoover Institution, um instituto de pesquisa de orientação conservadora que funciona sob a égide da Universidade de Stanford, havia divulgado as fotos em maio de 5. Michel Guérin, editor de cultura do Monde, afirmou que o jornal havia publicado as fotos porque confiou na credibilidade de Stanford.
"Nós confiamos na reputação da Hoover, que é parte da Universidade de Stanford", afirmou Guérin. "Acreditávamos que isso fosse uma referência séria. A questão que nos resta é determinar por que eles teriam decidido divulgar essas fotografias sem a devida verificação".
Ele afirma que o Monde viu as fotos inicialmente em um jornal italiano, e decidiu reproduzi-las. No dia em que a Hoover as divulgou, um e-mail anônimo foi enviado a diversos outros jornais, entre os quais o International Herald Tribune, promovendo a publicação.
Posteriormente, o Monde procurou a Hoover para obter informações sobre a origem das fotografias, mas foi informado de que informações quanto aos doadores eram confidenciais, de acordo com a retratação do jornal francês.
Malloy decidiu remover as fotografias doadas por Capp de seu site, e publicou um comunicado em que expressa dúvidas sobre a autenticidade das imagens. Ele solicitou que a editora responsável por seu livro, a Cornell University Press, inclua correções em futuras tiragens da obra.
A Hoover Institution removeu os links que conduziam às fotos, em seus arquivos digitais, mas uma porta-voz da instituição não respondeu a perguntas sobre as imagens contestadas, na terça-feira. "Se elas tivesse sido encontradas em uma caixa de sapatos, eu faria mais perguntas. Mas vieram de um arquivo respeitado, conhecido nacionalmente. Isso indica que muito mais gente deveria ter feito perguntas sobre a origem das imagens".
Tradução: Paulo Migliacci ME
Herald Tribune