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Sábado, 10 de maio de 2008, 13h18 Atualizada às 13h39

No referendo de Mianmar, a ordem era votar "sim"

Com ordens explícitas para votarem "sim" em uma Constituição elaborada pelo Exército, eleitores apreensivos compareceram neste sábado a seu primeiro exercício de democracia em quase duas décadas em Mianmar, país governado pelos militares.

Depois de semanas de exortações implacáveis aos 53 milhões de habitantes do país para que cumprissem seu "dever patriótico" e aprovassem a Carta, a televisão estatal exibiu uma blitz propagandista para estimular os eleitores a irem às urnas.

"Vamos votar" e "Venha à votação" eram frases de canções entoadas por cinco animadas atrizes no ritmo de uma batida de disco na TV MRTV, controlada pelos militares.

A mensagem foi mais explícita na capa do jornal Nova Luz de Mianmar, o principal porta-voz do regime militar que tem governado esse país pobre do Sudeste Asiático com mão de ferro nos últimos 46 anos. "Aprovar a Constituição do Estado hoje é um dever nacional de todo o povo", assinalou o jornal.

Depois, o principal general de Mianmar, Than Shwe, fez sua primeira aparição na TV desde que o ciclone Nargis atingiu severamente o delta do Rio Irrawaddy, no sudoeste, e na antiga capital do país, Yangun. A TV mostrou Than numa seção eleitoral com outros generais na remota Naypyidaw, a nova capital de Mianmar, situada 400 km ao norte de Yangun.

Apesar de certo desalento pela decisão dos generais de manterem a votação apenas uma semana depois da morte e destruição causada pelo ciclone, a mensagem parece ter surtido efeito.

De 20 pessoas entrevistadas perto de seções eleitorais em Hlegu, 50 quilômetros a nordeste de Yangun, somente duas admitiram ter votado contra a Carta, que consolida a posição dos militares no poder e parte de sua "estratégia para a democracia".

"Não pertenço a nenhum partido político, mas votei 'não'", disse um homem, sussurrando, depois de lançar um olhar nervoso a sua volta para verificar se havia o risco de ser ouvido.

A Carta dá ao Exército uma em cada quatro cadeiras no Parlamento, o controle dos Ministérios mais importantes e o direito de suspender a Constituição quando quiser. Essas condições provocaram fortes críticas dos governos do Ocidente e grupos oposicionistas.

A votação em Yangun e no delta do Irrawaddy foi adiada por duas semanas. Essas regiões foram fortemente atingidas pelo ciclone, que pode ter matado até 100 mil pessoas e deixado 1,5 milhão de desabrigados.

Num país onde a população é aterrorizada pelo governo, não causou surpresa o fato de alguns dos eleitores que compareceram às urnas terem dito que estavam simplesmente cumprindo ordens. "Votei 'sim'. Foi o que me pediram pra fazer", disse à Reuters U Kyaing, 57 anos, do lado de fora de uma escola primária que serviu de seção eleitoral em Hlegu.

A maioria dos eleitores parecia desconfortável e mostrava desconhecimento do processo, algo compreensível, já que a última eleição foi em 1990 e os generais ignoraram o resultado quando a oposicionista Liga Nacional pela Democracia conquistou 80% das cadeiras.

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