Oriente Médio

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Quinta, 8 de maio de 2008, 15h36

Aos 60 anos, Estado de Israel redefine seu papel

O povo judaico está marcando o 60° aniversário de seu renascimento como nação, a fundação de Israel, na quinta-feira, com os costumeiros vôos de caças em formação, paradas decoradas por bandeiras e reminiscências televisivas dos idosos pioneiros do país.

Mas existe outra forma de celebração planejada e seus promotores acreditam que isso diga alguma coisa sobre o caráter da nação: uma conferência de três dias entre os melhores cérebros de todo o mundo quanto a alguns dos maiores desafios que a humanidade ¿e especialmente os judeus- enfrentará nas próximas décadas.

"O cérebro enriquece o bolso, e não o oposto", disse Shimon Peres, presidente de Israel e anfitrião da conferência, em entrevista. "Somos uma pequena nação e um pequeno povo, mas podemos nos tornar um ousado laboratório mundial, e é esse o nosso desejo e o nosso plano".

Quase 700 hóspedes devem tomar parte na semana que vem de 35 grupos de discussão. Entre eles há estadistas como Henry Kissinger, Vaclav Havel, Tony Blair e Joschka Fischer, mas a lista inclui também Sergey Brin, do Google; Terry Semel, do Yahoo; e Rupert Murdoch, além de sete judeus premiados com o prêmio Nobel e do presidente Bush.

Dada a lista de convidados, os trópicos são naturalmente amplos e ambiciosos, entre os quais a mudança no balanço mundial de poder do Ocidente para o Oriente (e o sul), a proliferação nuclear e as alterações climáticas. Mas boa parte do foco estará em tópicos mais próximos de Israel, como o extremismo islâmico, a ascensão do Irã e a soberania de Jerusalém.

De fato, temas descritos como desafios mundiais - terrorismo, o Irã- parecem, de certa forma, ser especialmente judaicos ou israelenses. Os organizadores dizem que isso não acontece por coincidência e tampouco é incomum, e apontam como exemplo para Hitler, que representava uma tremenda ameaça para o mundo mas se concentrou especificamente nos judeus.

"Os cataclismos sempre parecem atingir primeiro os judeus", disse Stuart Eizenstat, que ocupou cargos importantes nos governos Clinton e Carter e escreveu um ensaio usado como base para a conferência. "Basta pensar, por exemplo, na Peste Negra. Não era uma questão judaica, mas exerceu impacto especial sobre os judeus, porque a culpa pela doença lhes foi atribuída".

Haverá diversos funcionários importantes de governos da Europa Central e da África presentes à conferência, entre os quais os presidentes da Geórgia, Burkina Fasso e Polônia.

Mas a conferência não incluirá representação árabe significativa. Líderes e pensadores árabes do Egito, Jordânia e das áreas palestinas foram convidados, mas nenhum deles confirmou presença, em parte porque o mundo árabe vai marcar o 60° aniversário de Israel como uma catástrofe, com o "Dia de Nakba", que envolverá conferências e manifestações. Os organizadores do evento de Jerusalém ainda esperam que alguns dos convidados árabes compareçam.

Peres disse que a idéia, para ele, era a de reunir judeus e não judeus preocupados com a situação mundial, na esperança, talvez vã, de "tornar os judeus um pouco mais globais e tornar o mundo um pouco mais judaico". Ele ofereceu como exemplos uma abordagem inovadora quanto à irrigação desenvolvida em Israel e a forte presença do país na produção mundial de equipamentos médicos. "Na China, eles talvez não saibam quem foi Moisés, mas conhecem nossos sistemas de irrigação gradativa", disse.

Falar sobre a Israel e a China na mesma sentença, algo que acontecerá muitas vezes durante a conferência, suscita algumas questões complexas e oferece alguns contrastes impressionantes. De acordo com o estudo de Eizenstat, o número per capita de engenheiros é maior em Israel do que em qualquer outro país do mundo - 135 por 100 mil habitantes (ante 85 por 100 mil nos Estados Unidos). Mas ainda assim, o número total de engenheiros do pais - cerca de 100 mil - quase desaparece diante dos 600 mil engenheiros que a China forma a cada ano.

O trabalho preparatório da conferência foi realizado por um instituto relativamente novo, o Instituto de Planejamento Político do Povo Judaico, criado por um ex-jornalista israelense chamado Avinoam Bar-Yosef e presidido por Dennis Ross, que comandava as equipes norte-americanas de negociação de paz no Oriente Médio. O objetivo quer incorporar o conceito de planejamento estratégico à vida judaica em Israel e no exterior, garantir que Israel e os judeus do resto do mundo compreendam os interesses comuns.

Um desdobramento significativo dos últimos anos que será debatido é a alteração no relacionamento entre Israel e os judeus da diáspora. Por décadas, Israel era como o filho dependente que precisava das contribuições e do apoio dos judeus de outros países, em sua luta pela sobrevivência.

Hoje, a população judaica de Israel, 5,5 milhões de pessoas, é a maior do mundo, pouco adiante da norte-americana, que vem declinando lentamente devido ao baixo índice de natalidade e a casamentos mistos. Israel se tornou o centro da vida judaica, e vem cada vez mais sendo convidado a agir como irmão mais velho para as comunidades judaicas em outras nações.

Bar-Yosef afirma que, para ele, o objetivo da reunião era fomentar a esperança de mudança em Israel, a de que o país "tenha a disposição de reparar aquilo que precisa de conserto, e ao mesmo tempo que faça uma pausa para reconhecer tudo aquilo que foi realizado em prazo de apenas 60 anos".

Tradução: Paulo Migliacci ME

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The New York Times Camponesas israelenses trabalham em um Kibbutz Camponesas israelenses trabalham em um Kibbutz

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