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Atualizada às 13h59
Christine Hauser
» Dois são indiciados por cheque de defunto
» Dois levam cadáver para descontar cheque
Será que Cintron ainda estava vivo quando seus amigos James O'Hare e David Daloia o empurraram em uma cadeira até a Pay-O-Matic, uma loja que desconta cheques no bairro de Hell¿s Kitchen, em Manhattan, no dia 8 de janeiro?
Foi isso que eles disseram. Não importa que, de acordo com a opinião abalizada de um detetive, Cintron estivesse evidentemente desacordado, esparramado sobre a cadeira sem o menor equilíbrio e demonstrando os primeiros sinais de rigor mortis.
A polícia diz que pistas como essas indicavam que Cintron, 66 anos, havia morrido algumas horas antes, e que O'Hare e Daloia haviam decidido levar o cadáver do amigo, em uma cadeira de rodas, à loja, em uma tentativa ousada, se bem que não muito inteligente, de descontar o cheque de US$ 355 que Cintron recebia semanalmente da previdência americana.
O legista conduziu uma autópsia e determinou que Cintron estava morto há menos de 24 horas, de complicações relacionadas ao Mal de Parkinson, disse Courtney Groves, promotora assistente da Justiça, no tribunal de justiça criminal de Manhattan.
Mas o legista não conseguiu estabelecer de maneira mais precisa a hora do óbito, admitiu a promotora. Já que era impossível à acusação provar de maneira conclusiva que Cintron havia morrido antes de sair do apartamento a caminho da Pay-O-Matic, a juíza Evelyn Laporte decidiu rejeitar as acusações de falsificação e de apropriação indébita contra O'Hare e Daloia.
Eles saíram livres do tribunal, pondo fim a uma macabra e triste história sobre três velhos amigos de Hell's Kitchen que sempre confiaram uns nos outros para escapar das dificuldades e sobreviver nas ruas de Nova York.
Daloia e O'Hare retornaram ao apartamento da rua 52 onde os dois cuidavam de Cintron. Repetiram uma vez mais que acreditavam que seu amigo ainda estivesse vivo quando saíram do edifício com ele.
"Se nem o legista consegue dizer a que horas ele morreu, e ele é um profissional, como é que nós poderíamos saber?", disse Daloia, no degrau de entrada do prédio.
Ele diz que havia carregado Cintron do sofá do apartamento à mesma loja de desconto de cheques, semanas antes da morte do amigo, e que Cintron conseguiu acenar para o atendente e assim autorizar o desconto do cheque.
Mas ele havia deixado de tomar seus remédios, e sua situação estava se agravando. "O que nós fizemos? Nada. Simplesmente repetimos aquilo que costumávamos fazer", disse Daloia.
O'Hare, que viveu com Cintron durante sete anos e diz que era principalmente ele que tomava conta do amigo, afirma se sentir especialmente mal com relação ao episódio.
Ele diz que o do edifício de Cintron está tentando despejá-lo. "Talvez eu sinta que deveria ter feito mais pelo meu amigo", afirma. "Poderia ter feito mais para ajudá-lo com os remédios. Eu o amava. Sinto muita falta dele."
Robert Gottlieb, o advogado de O'Hare, disse que "nós afirmamos desde o começo que James e David não sabiam que seu bom amigo estava morto quando foram ao posto de troca de cheques".
"Todas as acusações foram rejeitadas, o histórico do caso será arquivado de maneira sigilosa e chegamos ao fim de uma história muito triste", afirmou o advogado.
Em 8 de janeiro, O'Hare e Daloia vestiram Cintron em seu apartamento, o carregaram até o térreo, o acomodaram em uma cadeira de computador dotada de rodas e arrastaram a cadeira e o amigo até a Pay-O-Matic, que fica na Nona Avenida, perto da rua 52.
O espetáculo atraiu a atenção de muita gente na rua. Um detetive que estava almoçando em um restaurante vizinho percebeu que os pés de Cintron estavam sendo arrastados pela calçada e que saltavam sempre que a cadeira esbarrava em um obstáculo.
"Bem, esse cara está morto", recorda o detetive, Travis Rapp, quanto à sua opinião sobre a cena. Ele confrontou os dois amigos de Cintron. "Oh, meu Deus, nosso amigo morreu?", eles disseram, segundo as recordações de Rapp.
O'Hare e Daloia afirmaram que não havia coisa alguma de incomum no que eles fizeram naquele dia. Por muito tempo antes da morte de Cintron, os três se ajudavam mutuamente, afirmam os amigos e seus advogados.
Eles juntavam o dinheiro do trio em um fundo comum, cuidavam uns dos outros em caso de doença e compartilhavam da comida e do abrigo do pequeno apartamento em que Cintron se criou e onde ele e O'Hare moravam.
Os amigos dizem que Cintron vinha sofrendo já há algum tempo do Mal de Parkinson, que estava fraco e ocasionalmente não reagia ao contato humano e que não conseguia se cuidar sozinho.
Aquela manhã de terça-feira não lhes pareceu diferente, disseram os dois. "Os três amigos envelheceram juntos", disse Alan Haber, o advogado de Daloia, acrescentando que "a amizade não se encerra simplesmente porque um deles agora precisava de mais ajuda".
O'Hare e Daloia foram detidos sob acusação de posse criminosa de um instrumento financeiro forjado, falsificação em segundo grau e tentativa de apropriação indébita.
Também foram acusados de violar uma seção do código municipal de saúde pública de Nova York sob a qual cadáveres devem ser enterrados ou incinerados "em prazo razoável", depois da morte.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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