América Latina

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Sábado, 26 de abril de 2008, 13h11

Em meio à pobreza, haitianos se divertem com dominó

Nos olhos de Jean François havia dor, sofrimento verdadeiro, um ar terrível de pesar. Talvez porque ele tivesse comido pouco naquele dia, ou não tenha um emprego real e qualquer esperança de obtê-lo; ou a expressão que ele ostentava pode ter sido causada por seu bairro, um vasto cortiço de casas de telhado de zinco.

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Quem observasse se sentiria tentado a ajudar o desesperado haitiano, consolá-lo, fazer qualquer coisa que o ajudasse a sair de uma depressão que parecia profunda.

Mas não seria possível fazer coisa alguma. Na verdade, a fonte do desespero de François, 29 anos, nada tinha a ver com os problemas reais de sua vida.

A causa era uma maré longa de azar, denotada pelas dezenas de pregadores de roupa presos ao seu rosto, braços e barriga. O contraste entre o rosto triste de François e os dos demais homens que participavam ou assistiam a um barulhento jogo de dominó em Cité Soleil, uma grande favela em Porto Príncipe, era imenso, em uma tarde recente.

Todo mundo rolava de rir a cada vez que olhava para François. A cada partida perdida, os gritos se intensificavam e mais pregadores eram presos às suas orelhas, queixo, braços e barriga.

As orelhas, todos concordavam, eram especialmente dolorosas como ponto de aplicação dos pregadores. Por fim, depois de perder uma longa série de jogos, François não agüentava mais.

"Está doendo tanto", disse, se levantando da mesa cambaia e removendo os pregadores, um a um. Outro jogador rapidamente tomou seu lugar à mesa, empurrando François para longe.

Todo mundo precisa de uma via de escape, e aqui no Haiti, onde a vida é sempre difícil e tumultos provocados por falta de alimentos varreram o país recentemente, os dominós oferecem essa oportunidade.

"Ajuda a matar o tempo", disse Tousaint Chavane, 61 anos, pai de sete filhos, que estava jogando e ganhando em uma tarde recente. "Ajuda a esquecer."

As pessoas que tenham algum dinheiro podem optar pelas brigas de galo e pela loteria, que acompanha os números sorteados pela loteria estadual de Nova York, para evitar acusações de trapaça.

Mas a beleza do dominó é que ele pode ser jogado de graça. Ainda que a derrota tenha o seu preço. O jogo é disputado entre duplas ou jogadores individuais.

Pregadores de roupa são apenas um dos muitos métodos empregados para punir quem sair derrotado de quatro partidas em seguida. Algumas abordagens se concentram mais no ridículo do que na dor - por exemplo, forçando o perdedor a usar um saco vazio de açúcar ou um chapéu colorido imenso na cabeça.

Outros derrotados podem ter o rosto coberto de areia, o que deixa branca sua pele escura, ou ser forçados a usar um casaco grosso e agüentar o calor do verão.

O sofrimento específico que o perdedor tem de encarar depende das regras daquela mesa específica e daquele dia e varia muito nas diferentes áreas do país.

Os perdedores podem ser forçados a fazer uma saudação a quem quer que se aproxime da mesa. Ou a beber um copo de água a cada partida perdida, sem direito de ir ao banheiro.

Ou a apanhar pedras de dominó arremessadas pelos adversários, não importa onde caiam - até mesmo no esgoto. Os ganhadores variam muito, de dia a dia.

"Não há como dizer realmente quem é o melhor", disse Harry Degrave, 38 anos, pai de seis filhos e freqüentador regular das mesas de dominó de Cité Soleil.

"Um dia pode ser um cara, outro dia outro. No dia seguinte, eu. O que não gostamos é dos caras que se vangloriam demais. Nós sempre desejamos vê-los perder, sofrer."

Em outro jogo, no bairro de Juvenat, os jogadores mantinham a animação com a ajuda de uma bebida alcoólica feita em casa, e os efeitos eram visíveis.

Enquanto uma partida bem disputada ocorria à sombra de uma árvore, Excellent Fontus, 67 anos, brincava e falava sobre como as coisas eram boas no passado, antes de a maioria dos jogadores mais jovens terem nascido.

"Vocês ficam jogando dominó e quando chegarem em casa continuarão passando fome", ele provocou. Tirando uma moeda do bolso, ele disse: "Na minha época, era possível comprar muita coisa com isso. Agora, é preciso um saco de dinheiro e mesmo assim não dá para comprar grande coisa."

Nessa partida, os pregadores de roupa só eram afixados aos braços dos perdedores. François Mondesir, 40 anos, que ocasionalmente trabalha como pedreiro e passa boa parte dos dias em que não encontra trabalho jogando dominó, não ganha há algum tempo.

"Isso torna o jogo divertido", disse, massageando os braços doloridos depois de ser expulso da mesa. "Quanto mais tempo você fica com os pregadores, mais eles doem. Fazem esquecer de tudo que nos incomoda."

No Cemitério Nacional, os coveiros e jardineiros desocupados empregam técnica diferente para punir os perdedores. Pesos de metal - peças de ferro do portão do cemitério - são amarrados a uma corda e depois lançados sobre o ombro do perdedor.

Com o passar do tempo, o desgaste causado pelo peso se torna cada vez mais óbvio. "Não temos emprego", disse Yves Beauvil, 58 anos, pai de três crianças e um dos perdedores naquele dia.

"Se não jogássemos dominó, o que faríamos?" Quanto ao peso em seu ombro, ele fez um muxoxo de indiferença. "Consigo agüentar", disse, causando risadas nos colegas de jogo.

Tradução: Paulo Migliacci ME

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The New York Times Jean François joga dominó com o corpo cheio de pregadores de roupa Jean François joga dominó com o corpo cheio de pregadores de roupa

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