inclusão de arquivo javascript

 
 

EUA: ativistas pedem ação do Papa contra abusos

15 de abril de 2008 05h14 atualizado às 09h42

Representantes das vítimas de abuso cometidos por padres nos Estados Unidos esperam que a visita do papa Bento XVI ao país, a partir desta terça-feira, estimule o pontífice a agir contra os escândalos envolvendo a Igreja.

Para Bárbara Blaine, presidente e fundadora da Rede de Sobreviventes das Vítimas de Abuso cometidos por Padres (Snap, na sigla em inglês), Bento XVI precisa oferecer mais do que apenas um pedido de perdão para as vítimas.

"Já passamos muito do ponto em que palavras pomposas ou mesmo um perdão sincero representariam algo para o nosso movimento. O que queremos é uma ação decisiva por parte do Santo Padre, e esperamos que sua visita possa estimulá-lo a tomar uma atitude", disse Barbara.

A Snap tem sede nos EUA, mas conta com 8 mil integrantes em diferentes países. A entidade afirma que Bento XVI precisa oferecer atos concretos para as vítimas de abuso.

Na opinião de Blaine, o papa precisa se distanciar da suposta omissão da Igreja no passado.

"É preciso que ele enquadre pessoas que exerceram posições de poder, mas que acobertaram as identidades dos predadores. E também defendemos que os bispos em todo o mundo revelem as identidades dos predadores, para que pais e empregadores possam ficar alertas".

O escândalo envolvendo religiosos católicos veio à tona em 2002, na cidade americana de Boston, quando se descobriu que bispos que cometeram abusos sexuais foram transferidos para outras paróquias, em vez de serem denunciados às autoridades policiais.

Série de escândalos

Pouco após a eclosão do escândalo em Boston, surgiram relatos de abusos em diversas dioceses católicas dos Estados Unidos, muitos dos quais datavam de décadas atrás. A líder da Snap conta ter sido a vítima em um desses numerosos episódios.

"Fui abusada por um padre na minha paróquia em Toledo, Ohio, quando eu era uma criança, mas não contei para ninguém. Só fui denunciá-lo quando já era uma adulta. Me disseram que o meu tinha sido um caso isolado. Mais tarde, descobri que isso não era verdade. O padre que abusou de mim vinha sofrendo denúncias desde 1969, mas só foi retirado do posto em 1992", conta.

Barbara Blaine se diz cética de que Bento XVI irá tomar a ação decisiva que ela cobra, pois ele já teria tido a oportunidade de fazê-lo antes de se sagrar papa, mas teria se omitido.

"O histórico do Santo Padre não tem sido bom. Ele soube da ação dos predadores e não tomou uma atitude. Ele chefiou o setor responsável pela doutrina da Igreja, que recebeu denúncias de todo o mundo, mas eles fizeram pouco ou nada", afirmou Barbara.

Antiacobertamento
Nem todos compartilham da visão de entidades como a Snap. É o caso de Ray Flynn, ex-embaixador americano no Vaticano na gestão de Bill Clinton, que conhece Bento XVI desde o período em que ele era o cardeal Joseph Ratzinger, o principal ideólogo do Vaticano e o braço direito de João Paulo II.

"Ele seguirá frisando a transparência e a necessidade de que bispos cooperem com autoridades. Ele é um rígido disciplinador. No final das contas, é a lei moral que irá prevalecer. Se fosse para dar um apelido, eu o chamaria de o "papa antiacobertamento". Ele é um linha-dura que fará o que for ao encontro do bem comum."

Em sua visita aos Estados Unidos, o Papa irá somente a Washington e Nova York. Ele não deverá se encontrar com vítimas de abuso cometidos por padres nem irá a Boston.

Na opinião de Ray Flynn, uma visita a Boston poderia ofuscar outros tópicos na agenda do papa.

"O que aconteceria é que todos os outros temas importantes seriam deixados de lado e o escândalo sexual receberia toda a atenção da mídia. Não haveria destaque quando ele falasse da guerra do Iraque ou de justiça social e econômica. De toda forma, ele deverá tratar dos casos de abuso, ainda que não o faça em Boston."

BBC Brasil
BBC Brasil - BBC BRASIL.com - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC BRASIL.com.