Seca severa na Espanha intensifica tensões regionais

14 de abril de 2008 • 13h51 • atualizado às 13h51

Victoria Burnett

Espanha


Uma seca que funcionários do governo espanhol estão definindo como a pior em um século levou a cidade costeira de Barcelona à beira de uma crise de água e reacendeu o tenso debate entre as regiões antagônicas do país sobre quem deveria controlar o precioso recurso natural.

Diante da necessidade de racionar os suprimentos domésticos de água nos meses vindouros, o governo regional da Catalônia, do qual Barcelona é a capital, planeja importar água potável de navio, de regiões distantes como o sul da França e de usinas de dessalinização no sul da Espanha.

Funcionários do governo disseram que estavam até mesmo considerando comprar água de outras partes do país, e leva-la a Barcelona de trem. Com os níveis de água em alguns reservatórios catalães a apenas 20% de sua capacidade, o governo regional proibiu os catalães de encher grandes piscinas ou regar jardins, e desligou as fontes municipais. Em nível nacional, os reservatórios espanhóis estão a apenas meia capacidade, de acordo com dados publicados pelo Ministro do Meio Ambiente na semana passada.

A busca por soluções para a escassez de água em Barcelona deflagrou um debate irado entre funcionários da Catalunha e o governo central espanhol. Em um país no qual interesses regionais e nacionais parecem se contrapor com muita freqüência, a crise reanimou a questão da administração central dos recursos hídricos e da exportação de água pelas regiões mais férteis da Espanha às demais.

Manuel Ramon Llamas, um especialista na administração de recursos hídricos na Universidade Complutense, em Madri, disse que o problema da Espanha não era tanto a falta de água mas sim a má administração do recurso e o preço baixo que é cobrado por ela.

"A Espanha é o país mais seco da Europa, e nos tornamos motivo de piada internacional no que tange à questão hídrica", ele disse em entrevista por telefone. "A demanda por água termina falsamente elevada, porque a água é praticamente gratuita".

O governo da Catalunha quer desviar água do rio Segre, um tributário do grande rio regional, o Ebro, para abastecer Barcelona. E também espera que uma usina de dessalinização em construção na costa perto de Barcelona entre em operação no ano que vem e alivie os problemas de suprimento.

"Desviar a água do Segre é a única maneira viável de obter água no tempo disponível", disse Francesc Baltasar, ministro catalão do Meio Ambiente, em entrevista coletiva televisiva, na quinta-feira.

Essa opção foi vetada pelo governo central, no entanto, que controla toda a água que flui de e para o Ebro. A idéia também recebeu forte oposição da região do Aragão, que faz fronteira com a Catalunha ao longo do curso do Segre.

A oposição do governo ao desvio do Segre enfureceu políticos catalães, que acusam Madri de falta de solidariedade. José Montilla, o chefe do governo regional, na semana passada declarou que "a Catalunha também é Espanha" - pronunciamento incomum para um líder de região que promove ferozmente seu idioma próprio e que é considerada pelos nacionalistas regionais como um país separado da Espanha.

A Catalunha há muito aspira a ter maior controle sobre sua água. Em 2005, os habitantes da região aprovaram em referendo um estatuto de autonomia que confere ao governo regional mais poder sobre os rios catalães ¿poderes que ainda não foram aprovados pelo tribunal constitucional espanhol. O estatuto catalão deflagrou uma onda de apelos de outras regiões por maior autonomia e maior controle sobre os rios locais.

Caso o veto ao projeto de desvio do Segre não seja retirado, a Agência Catalã da Água, controlada pelo governo regional, já contratou 10 navios para abastecer Barcelona com água potável, por quase 80 milhões de euros, ou US$ 127 milhões. Alguns dos navios trarão água de Marselha, cerca de 300 km distante, e outros, em agosto, transportarão água por mais de 600 km, de uma usina de dessalinização em Almeria.

O governo planeja investir 35 milhões de euros melhorando as instalações portuárias e 43 milhões de euros comprando e transportando a água. O governo central sugeriu na semana passada que a Espanha deveria considerar uma proposta à França para desviar água do rio Rhone para abastecer o país, um projeto que precisaria de mais de uma década para ser completado e que Montilla descreveu como "piada de mau gosto".

Llamas, o especialista universitário em gestão de recursos hídricos, disse que sucessivos governos se deixaram paralisar por dificuldades políticas. "A água é um problema fundamental que deveria transcender as fronteiras políticas", disse. "Nosso problema não é que falte água à Espanha, mas que nossa classe política esteja sofrendo de uma seca mental".

Tradução: Paulo Migliacci ME

Herald Tribune
 
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