Giuseppe Salvatore Riina, 27 anos, terceiro filho do temido chefão Toto Riina, que foi libertado recentemente |
Jean-Jacques Bozonnet
Itália
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O pequeno trator vermelho de Innocenzo Micieli se move entre as fileiras de vinhas, transportando a terra ainda úmida do sereno da noite e ocupando a paisagem abrupta do vale de Corleone com o ronronar de seu motor. O nome desta fértil região agrícola localizada a 50 quilômetros de Palermo está historicamente associado à Máfia.
De fato, o vinhedo em que Micieli trabalhava com seu trator, naquela manhã, um dia pertenceu ao sanguinário Giovanni Brusca, o homem que assassinou o juiz Falcone, em 1992. "Tomar a terra de um mafioso e cultivá-la? Isso seria impensável, alguns anos atrás. Bastaria pensar nisso para ser morto", sorri o camponês, saltando do trator.
Micieli, 50 anos, é um dos 15 associados da cooperativa Placido-Rizzotto-Libera Terra, a mais importante das três empresas agrícolas criadas desde novembro de 2001 para explorar as terras e bens confiscados aos chefes mafiosos: Brusca, aprisionado em 1996, mas também Toto Riina, que está na cadeia desde 1993, e seu sucessor no comando da organização, Bernardo Provenzano, capturado em abril de 2006.
Contratado devido ao seu conhecimento de agricultura ecológica, Micieli compreendeu rapidamente que estava trabalhando para uma cooperativa diferente das outras. "O roubo de um trator e o incêndio deliberado de uma colheitadeira, nos dois primeiros meses, eram sinais evidentes de intimidação", ele recorda.
Do outro lado da colina, Salvatore Ferrara supervisiona o trabalho de seus subordinados com plantas ainda jovens. Ele é um dos fundadores da cooperativa Lavoro e Non Solo ("trabalho, e não sozinho"), criada em 2001 com 10 hectares de terras confiscados à família Riina. "Os comerciantes de Corleone recusaram nosso molho de tomate engarrafado; precisamos sobreviver com vendas diretas", ele conta.
Muita gente teve medo, e até mesmo alguns amigos se afastaram. Hoje, os 12 associados da cooperativa estão explorando mais de uma centena de hectares.
Os jovens de Corleone, como Francesco, filho de Micieli, que acaba de criar a terceira cooperativa, a Pio La Torre-Libera Terra, em junho de 2007, não enfrentaram hostilidade semelhante à que foi dedicada a seus pais. "Para a primeira colheita, em 2002, tivemos de apelar à Justiça para conseguir máquinas", relembra Francesco Galante, um dos dirigentes da Placido-Rizzotto.
"A maneira pela qual somos encarados mudou, mesmo que ainda existam riscos de sabotagem", diz Ferrara. Ele aponta para um campo vizinho, no qual uma família de mafiosos soltou um rebanho de ovelhas logo depois da semeadura, conta.
O investimento inicial é pesado para esses camponeses da legalidade. Por razão da lentidão burocrática mas também de pressões dos antigos proprietários de terras, os bens só lhes são atribuídos sete, 10 ou até 15 anos depois do confisco. Eles precisam reformar as construções decaídas, substituir os veículos, preparar as terras abandonadas para o plantio.
Giuseppe Lumia, deputado que presidiu a Comissão Parlamentar de Combate à Máfia, apela pela criação de uma agência especializada que acelere a redistribuição dos bens confiscados.
Porque não são proprietários das terras que exploram, os camponeses antimáfia não podem usá-las como garantias para obter linhas de crédito bancário. E não há grande possibilidade de que o Estado venha a vender essas terras, em especial devido ao risco de que os compradores sejam simplesmente testas de ferro operando por ordem dos mafiosos.
Giuseppe Cipriani, antigo prefeito de Corleone, diz que "é preciso que a região da Sicília crie urgentemente fundos de garantia regional". Ele foi proponente de medidas desse tipo junto ao Legislativo.
Cipriani diz que "caso as cooperativas não consigam superar os desafios econômicos, será uma catástrofe para a luta contra a Máfia". O prefeito atual da pequena aldeia, Antonio Iannazo, estima que o processo de reconquista iniciado pelos jovens sicilianos seja "irreversível, se o Estado não atrapalhar".
Ele não recebeu com agrado o retorno à região de Salvuccio Riina, 27 anos, o filho do ex-chefão mafioso local, que saiu da prisão no começo de março devido a um erro processual. A prefeitura protestou formalmente contra a permissão de que ele vivesse em Corleone.
"Já conseguimos promover uma certa evolução das mentalidades, mas o território ainda não está completamente protegido contra uma presença como a dele", lamenta o prefeito.
Em uma das paredes do bar Central, um cartaz do filme O Poderoso Chefão mostra Marlon Brando e Al Pacino, mas o assunto dominante das discussões locais é o retorno de Toto Riina Jr.
"Ele é importante; as pessoas o cumprimentam; temo que venha a se transformar em um herói negativo", diz Dino Paternostro, sindicalista e líder local da oposição à Máfia.
Por enquanto, Corleone vem encontrando refúgio no novo símbolo das cooperativas: a cada temporada de colheita, dezenas de jovens chegam à região vindos de outras regiões italianas, como a Toscana e a Emilia, e até mesmo de outros países, para demonstrar com o trabalho sua solidariedade para com a luta dos jovens de Corleone.
Quando a noite cai, todos esses jovens se reúnem para um repouso bem merecido em uma grande construção cujo controle foi recentemente entregue à cooperativa Lavoro e Non Solo: a mansão na qual nasceu o mafioso Bernardo Provenzano.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Le Monde