Crise faz aparecer possível sucessor do Dalai Lama

08 de abril de 2008 • 08h44 • atualizado às 09h26
Foto de 2002 mostra o Karmapa Lama em uma de suas raras aparições; crise com China e visita aos EUA colocam o jovem monge como um possível herdeiro ...
Foto de 2002 mostra o Karmapa Lama em uma de suas raras aparições; crise com China e visita aos EUA colocam o jovem monge como um possível herdeiro religioso do Dalai Lama
08 de abril de 2008
AFP

Barbara Crossette

Estados Unidos


Os recentes surtos de ira tibetana contra o governo chinês não só demonstraram uma vez mais o medo e a raiva que tomam os budistas do Himalaia, que vivem sob o domínio da insensibilidade cultural de Pequim, como destacaram o papel do Dalai Lama, que navega habilidosamente entre os exilados tibetanos irrequietos e um governo indiano que sofre forte pressão chinesa para que reprima seus protestos. O que acontecerá quando ele se for? O Ocidente está a ponto de vislumbrar que cara teria esse futuro.

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Na metade de maio, um sério jovem de 22 anos que é reverenciado como o 17° Karmapa - agora a segunda mais importante figura do budismo tibetano - fará sua primeira visita aos Estados Unidos. A viagem surge oito anos depois de sua dramática fuga de um mosteiro em Lhasa para a Índia, em 1999, quando ele tinha apenas 14 anos.

Trata-se da primeira vez que as hesitantes autoridades indianas lhe deram permissão para viajar ao exterior. Sua fuga do Tibete causou considerável embaraço aos chineses.

O Karmapa Lama, líder espiritual da ordem Kagyu do budismo tibetano, é agora o único grande lama tibetano reconhecido como reencarnação de sua linhagem tanto pelo Dalai Lama quanto pelo governo da China - que colocou o Tibete sob ocupação militar nos anos 50.

O Panchen Lama, o terceiro membro do triunvirato e anteriormente visto como o segundo homem na hierarquia dos três lamas, foi aprisionado ainda criança pelos chineses, em 1995, e foi substituído por um monge selecionado pelas autoridades chinesas.

Em uma história de ação que já se tornou lenda entre os budistas, o Karmapa Lama, acompanhado de dois outros monges, viajou de carro em segredo do mosteiro de Tsurphu, ao norte de Lhasa, para a remota e áspera região fronteiriça de Mustang, um antigo reino budista hoje incorporado ao Nepal.

De lá, ele e seus companheiros escaparam a cavalo para o aeroporto nepalês mais próximo, do qual conseguiram viajar despercebidos até Delhi, via Katmandu. O Karmapa Lama, cujo nome é Ogyen Trinley Dorji, chegou sem aviso a Dharamsala, a base do Dalai Lama, em janeiro de 2000, e desde então tem vivido sob a guarda do líder tibetano.

Devido ao medo norte-americano de que a Índia ceda à pressão chinesa e proíba a viagem do Karmapa Lama no último minuto, a expectativa é de que sua visita seja discreta e não tenha teor político.

O comentário dele em um vídeo gravado antes da viagem, de que "os Estados Unidos são um dos países mais poderosos do mundo", foi eliminado de uma transcrição online de suas declarações, que tomam por tema em lugar disso sua esperança de conhecer "muitos amigos americanos". A viagem foi planejada antes da onda de protestos no Tibete.

Trata-se de um marco significativo para os budistas tibetanos, e um momento importante para os seguidores ocidentais da religião. O predecessor do jovem lama, o 16° Karmapa Lama, visitou os Estados Unidos diversas vezes, e nos anos 80 estabeleceu uma sede provisória de seu movimento em Woodstock, Nova York, no centro Karma Triyana Dharmachakra.

Depois que o jovem lama fugiu do Tibete, o mosteiro de Woodstock começou a preparar sua visita, e até construiu móveis especialmente projetados para acomodar seu corpo robusto. Mas a espera foi se prolongando, sem que a visita pudesse acontecer.

Agora o lama poderá testemunhar os esforços de seus seguidores. Os fiéis americanos do Karmapa Lama gostariam de vê-lo estabelecer a sede de sua seita nos Estados Unidos, o que o tornaria o primeiro líder religioso asiático de tamanha magnitude a viver no Ocidente.

O Karmapa Lama poderia servir como sucessor extra-oficial e interino do Dalai Lama, que já passa dos 70 anos. Porque o Karmapa lidera uma ordem diferente do budismo tibetano - o Dalai é um monge da seita Gelugpa - não seria possível ao jovem lama herdar o título. O futuro titular dessa posição só poderá surgir com a reencarnação do Dalai Lama em um nascituro.

O jovem Karmapa Lama, descrito por pessoas que o encontraram como um homem sério, quase severo, também é visto como um estudioso devotado da religião e um especialista cada vez mais afiado em literatura tibetana, ainda que não tenha o charme magnético e o senso de humor do Dalai Lama.

O Karmapa Lama talvez venha a ser o líder religioso interino que os exilados tibetanos terão de seguir se desejam manter a união de sua fragmentada diáspora, e ele ao mesmo tempo assumiria um papel de instrutor religioso para budistas de todas as nacionalidades e escolas.

No momento, os líderes tibetanos formam um par complementar - o velho sábio e o jovem e vigoroso lama que agora tem a chance de mostrar ao mundo se é capaz de inspirar as pessoas de maneira mais ampla.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Herald Tribune
 
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