Intelectuais: Raúl promove mudança gradual em Cuba

07 de abril de 2008 • 15h48 • atualizado às 15h48

Paulo A. Paranaguá

Paris


Em Havana, a União Nacional dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac) encerrou seu congresso, na sexta-feira, 4 de abril. Aberta na terça-feira, esta foi a primeira edição do congresso em 10 anos. A imprensa internacional não estava autorizada a acompanhar as deliberações.

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O escritor Miguel Barnet, presidente da Uneac, admitiu diante dos 387 delegados presentes que "a essência democrática da instituição se enfraqueceu. Devemos corrigir os erros", afirmou. "Se há algo capaz de fazer mal à cultura é o igualitarismo irresponsável".

A Uneac conta com 8,5 mil membros, dos quais apenas 17% com idade inferior a 40 anos. "Trata-se de um problema que não é exclusivo da Uneac, mas pode ser encontrado em diferentes níveis", apontou o cineasta Victor Casaus.

O relator de uma comissão reconheceu a existência de "problemas de discriminação racial que persistem". A televisão, monopólio do Estado, foi colocada em questão. O crítico Rolando Pérez Betancour condenou os "preconceitos" que impedem a transmissão de filmes como "Brokeback Mountain", uma história de amor entre dois caubóis.

De acordo com um dos delegados, que falou comigo ao telefone e pediu que seu nome não fosse revelado, "a televisão nacional não reflete a realidade cubana". Ele disse que "Cuba vem sofrendo uma verdadeira sangria, porque a juventude sonha apenas com sair do país, mas a estação regional de TV de Havana conta com jovens talentosos em seus quadros, e mantém seus talentos aprisionados", ele garante.

O vice-presidente do Instituto Cubano do Rádio e Televisão (ICRT), Luis Acosta, anunciou durante o congresso a criação, dentro de alguns meses, de uma quinta rede de TV, destinada a transmitir produções estrangeiras.

A Uneac defende a abertura do país às novas tecnologias. "Interditar o acesso a essas opções é não só vão mas as tornará ainda mais atraentes, e sem nos preparar, no entanto, para interação adequada com os canais por intermédio dos quais a informação vem sendo difundida no mundo", explica um relatório apresentado durante o congresso. Número muito pequeno de cubanos têm acesso à Internet.

Desde 1° de abril, eles estão autorizados a adquirir computadores e outros aparelhos eletrônicos. Também poderão se hospedar nos hotéis do país que estavam reservados a estrangeiros. A compra de celulares também foi legalizada. Tudo isso deve ser pago em moeda forte, o peso conversível, que só está disponível para uma pequena minoria de cubanos que estão em contato com o turismo ou empresas estrangeiras.

O fim do "visto de saída" para os cidadãos do país que viajam ao exterior também está sendo esperado. Mesmo que essas medidas beneficiem apenas uma minoria, elas suscitam um clima favorável, porque reduzem o poder da burocracia, avalia Ambrosio Fornet, delegado ao congresso da Uneac. As proibições absurdas causam uma doença, porque elas não respondem a considerações econômicas, mas sim a necessidade ideológicas.

Elas nasceram de uma mentalidade de fortaleza sitiada. "Legalizar coisas que proliferam na sombra não é a mesma coisa que autorizá-las ou aprová-las", pondera a jovem, Yoani Sanchez em seu blog Geração Y, recentemente censurado. "Nós exigimos tudo aquilo que nos foi proibido por décadas".

Ensaísta e roteirista, Ambrosio Fornet cunhou a expressão "qüinqüênio cinzento" para falar do período repressivo dos anos 70, no qual os intelectuais tinham a honra de serem condenados ao ostracismo por suas opiniões ou orientação sexual.

"Eu não pretendo ser otimista a ponto de dizer que hoje vivemos anos róseos, mas pelo menos agora temos uma fase de maior contraste, vermelho e negro", disse Fornet em entrevista telefônica. "A abertura coexiste com restrições econômicas".

Rafael Hernandez, diretor da revista "Temas", de ciências sociais, e também delegado ao congresso da Uneac, sublinha a importância das mudanças que estão em curso na agricultura.

Na terça-feira, o presidente da Associação Nacional de Pequenos Agricultores, Orlando Lugo Fonte, membro do conselho de Estado, anunciou "a distribuição em massa de terras desocupadas", a camponeses e cooperativas. "A vontade de colocar reformas graduais em marcha é claramente perceptível", aponta Hernandez.

"A ampliação do mercado promoverá a desigualdade, mas o governo tem a intenção de promover um aumento progressivo nos salários e nas aposentadorias", ele garante. A aquisição de produtos pagos com moeda conversível já está autorizada, ainda que a medida tenha gerado debate.

A ajudinha dada aos produtores privados do campo deverá cedo ou tarde vir acompanhada de uma autorização semelhante para que as pessoas trabalhem por conta própria nas cidades.

"O Estado patrão não é muito apreciado", afirma a jornalista Miriam Leiva, fundadora da associação das Damas de Branco, formada por mulheres de prisioneiros políticos. "Os computadores estão legalizados, mas não o acesso à Internet", ela acrescenta.

Os opositores questionam se as mudanças são puramente cosméticas ou se anunciam reformas estruturais. "Se o governo deseja convencer, o primeiro passo deveria ser a libertação dos prisioneiros políticos pacíficos", apelou Miriam Leiva.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Le Monde
 
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